22 junho 2013

Resenha Crítica: "Stoker" (Segredos de Sangue)

 É de lamentar quando as distribuidoras portuguesas pegam em filmes como “Undisputed III: Redemption”, “Freelancers”, “The Babymakers”, mas depois "esquecem-se" de obras como "Stoker", o primeiro filme em solo norte-americano de Chan-wook Park. Com uma atmosfera inquietante, subliminarmente arquitectada pelo realizador sul coreano e pelo magnífico trabalho de fotografia de Chung-hoon Chung, "Stoker" surge como um thriller das sensações e emoções, coberto por uma enorme estranheza e sensualidade, onde o som tem um papel fulcral na gestão das nossas emoções. Seja a casca de um ovo a estalar perante o toque suave e ao mesmo tempo furioso da personagem de Mia Wasikowska, seja o sangue que resvala num lápis a ser afiado, ou uma bala a ser disparada, tudo parece ter sido preparado de forma meticulosa, para nos proporcionar um espectáculo inquietante, tenso e surpreendente. Embora esteja longe de ser o trabalho mais brilhante do cineasta coreano, não deixa de ser interessante verificar como Park Chan-wook conseguiu mesclar o seu estilo com o thriller norte-americano, resultando numa obra onde o erotismo, sensualidade, violência e dissimulação estão sempre presentes, por vezes interligados e muitas das vezes sugeridos.
  Sugestões daquelas que nos inquietam e confundem, que deixam que esqueçamos um pouco algumas fraquezas do argumento de Wentworth Miller (sim, o Michael Scofield de "Prison Break") e nos concentremos numa história violenta nas emoções e sensações, sensual e perturbadora, onde Nicole Kidman conta com uma interpretação contida e de excepção, Mia Wasikowska mostra um seu lado mais sensual e perturbador e Matthew Goode surge misterioso, obcecado e intenso. É sobre os personagens interpretados por este trio de actores que a narrativa se concentra. Outros ousam entrar no seu mundo peculiar e imoral, mas nunca o conseguem verdadeiramente, um mundo onde uma morte misteriosa surge como um meio agregador deste trio complexo e misterioso. A morte é do pai de India Stoker (Mia Wasikowska), no dia do 18º aniversário desta. No dia do funeral, India fica a conhecer o tio, Charlie (Matthew Goode), um indivíduo bem aparentado e misterioso, que supostamente passou grande parte da sua vida em viagem, prometendo ficar em casa da sobrinha e de Evelyn (Nicole Kidman), a sua cunhada, durante algum tempo. É então que se inicia um certo jogo de sensualidade entre Charlie e Evelyn, uma relação marcada por algum desejo sexual, embora a verdadeira obsessão de Charlie esteja na sua sobrinha. Um triângulo de personagens peculiares, que aos poucos vamos conhecendo cada vez melhor até chegarmos ao intenso último terço, onde a morte, as mentiras, a sensualidade, o sexo e as reviravoltas surgem em doses generosas e surpreendentes. 
 Um último terço onde a violência transversal a várias obras do cineasta surge presente, embora mais contida, mas nem por isso menos efectiva, enquanto nos deixamos surpreender por estes personagens. India é uma jovem solitária, que os colegas da escola gozam e temem, que gosta de caçar e pintar, e aos poucos desenvolve um estranho relacionamento com o seu tio. Evelyn ficou recentemente viúva, mas logo desenvolve um relacionamento de estranha proximidade com o cunhado e de distância com a filha. Já Charlie é o personagem mais misterioso, aquele de que nunca esperamos nada de bom e aos poucos vai confirmando e superando as nossas piores expectativas. Um trio de personagens que explora o que de bom Matthew Goode, Nicole Kidman e Mia Wasikowska têm para nos dar, enquanto Chan-wook Park joga com os mesmos com uma perícia notável, colocando-os no meio do seu jogo onde a violência, o sexo, desejo e obsessão surgem de mãos dadas. Esta é uma atmosfera inquietante, exponenciada pelo magnífico trabalho com a câmara de filmar, pela procura em dinamizar a narrativa seja com planos inclinados que adensam o mal estar que assola os personagens, os close ups que exploram com minúcia as expressões faciais do elenco, os planos detalhes que nos focam com rigor os sapatos de India, ou seja existe toda uma procura em criar uma inquietação, associada a um história simples, onde as obsessões voam pelas almas e trazem consigo consequências nefastas. 
 As estreias de cineastas asiáticos de valor reconhecido na realização de obras norte-americanas (neste caso uma co-produção britânica e norte-americana) nem sempre resultam da melhor maneira. Veja-se o caso do enorme Takeshi Kitano que resolveu nunca mais realizar em solo americano depois de "Brother", a sua primeira e última longa-metragem junto dos yankees. Chan-wook Park mostrou que o seu talento, embora mais contido, continua intacto, ao desenvolver um thriller marcado por uma enorme violência e sensualidade, embora a um nível mais contido que em trabalhos anteriores (estamos a falar do senhor que nos deu a "Trilogia da Vingança" onde consta o mui adorado "Oldboy"). Em "Stoker", este contraria o argumento simples de Wentworth Miller, cria uma atmosfera envolvente, inquietante e perturbadora, e dá-nos um thriller raro de ver em sala, que é capaz de nos envolver, entusiasmar e inquietar, de não nos deixar indiferentes. Uma história sem grande moral, preenchida por personagens hedonistas e algo nihilistas, que apenas pensam nos seus desejos. A certa altura do filme podemos ver Charlie e India a tocarem piano. Um momento perturbador, sensual, inquietante, com uma enorme carga erótica, belo e artístico. Uma cena que poderia certamente servir para descrever o ambiente que rodeia o filme. Chan-wook Park aventurou-se fora da sua Coreia do Sul e venceu a aposta, oferecendo aos espectadores um dos melhores thrillers lançados em 2013.

Classificação: 4 (em 5).
Título original: “Stoker”.
Título no Brasil: “Segredos de Sangue”.
Realizador: Chan-wook Park.
Argumento: Wentworth Miller.
Elenco: Nicole Kidman, Mia Wasikowska, Matthew Goode, Jacki Weaver, Dermot Mulroney.

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