01 junho 2013

Resenha Crítica: "Star Trek Into Darkness" (Além da Escuridão: Star Trek)

 Quando "Star Trek" estreou em 2009, J.J. Abrams conseguiu surpreender ao conseguir dar uma nova vida à famosa franquia criada por Gene Roddenberry, cuja base de fãs pode ser leal mas também muito exigente e protectora do seu objecto de adoração. J.J. Abrams conseguiu respeitar a saga, respeitar os fãs e desenvolver um sólido filme de ficção científica que não só agradou a Trekkies mas também ao público em geral, tendo efectuado um sucesso considerável nas bilheteiras e gerado algum consenso junto da crítica. Em "Star Trek Into Darkness", o desafio de J.J. Abrams era outro: enfrentar as expectativas criadas em relação ao filme anterior e mostrar o porquê de ter sido escolhido para realizar Star Wars, uma heresia que os Trekkies vão ter de perdoar, pois J.J. Abrams tem feito aquilo que parecia inicialmente impossível: voltar a tornar a franquia entusiasmante. Sim, os clichés estão lá todos, a estrutura básica dos heróis que têm de travar o antagonista que quer dominar tudo e todos já é sobejamente conhecida, Abrams cai em alguns excessos, mas "Star Trek Into Darkness" sabe jogar com essas fraquezas em seu favor e desenvolver um filme de ficção-científica emotivo e recheado de acção bem coreografada, que se destaca pela sua capacidade em explorar a sua miríade de personagens, efeitos especiais de bom nível, boas interpretações, apresentar temáticas que entroncam na política norte-americana contemporânea e uma banda sonora portentosa.

 O início de "Star Trek Into Darkness" aguça desde logo o apetite em relação ao que aí vem. Acção frenética, uma magnífica utilização das cores, banda sonora emotiva, enquanto o Capitão Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto) e companhia exploram o planeta Nibiru, um local quase pré-histórico, povoado por um conjunto de habitantes que nunca tinham visto uma nave na vida (a exploração de outros planetas era um dos elementos presentes na série inicial). Esta questão está prestes a mudar quando Spock fica com a vida em perigo, devido a ter ficado preso no interior de um vulcão prestes a entrar em erupção. As regras são simples, ou seja, Kirk deve ignorar Spock e evitar ser visto pelo povo de Nibiru, mas logo mostra o seu lado mais irreverente e quebra a importante Primeira Directiva. Esta directiva consiste na proibição de todas as naves e membros da Frota Estelar interferirem com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade, uma directiva que é mais importante do que a protecção das naves ou membros da Frota Estelar. Perante este acto de Kirk, Spock decide colocar no relatório que o capitão desobedeceu às regras, um reflexo do facto deste último ser um híbrido Vulcano/Humano que o leva a seguir as características do seu povo e a não mentir. Este debate entre a humanidade de Spock e a sua herança genética como Vulcano surge como um dos elementos centrais do filme, com o argumento a usar e abusar desta situação, quer nos efeitos que esta dicotomia tem relação de amizade/respeito de Spock com Kirk, quer na relação amorosa com Uhura. 

 Perante esta situação, Kirk é despromovido, o Almirante Christopher Pike (Bruce Greenwood) assume o comando da Enterprise e designa o personagem interpretado por Chris Pine como o seu primeiro-oficial. Kirk e Pike reúnem-se com outros elementos do Comando Starfleet para discutirem as incidências sobre um atentado terrorista na Secção 31, em Londres, que culminou num avultado número de mortes, um incidente orquestrado por John Harrison (Benedict Cumberbatch), um antigo elemento da Starfleet. A reunião termina em tragédia, após John Harrison atacar o lugar, e as circunstâncias obrigarem Kirk a assumir o Comando da Enterprise e dirigir-se em direcção a Kronos, o planeta dos Klingon. No local, Harrison acaba por salvar a vida dos protagonistas e entregar-se de forma estranha, iniciando um estranho jogo com Kirk que promete dominar o filme, até Harrison divulgar a sua verdadeira identidade (sim, basta irem consultar ao IMDB) e mostrar os verdadeiros argumentos para o seu ataque, obrigando Kirk, Spock, Uhura (Zoe Saldana), Sulu (John Cho), McCoy (Karl Urban), "Scotty" (Simon Pegg), Chekov (Anton Yelchin) e companhia a terem de trabalhar em conjunto para salvarem as suas vidas, salvar a Terra e os restantes planetas e derrotar o temível antagonista. 

 J.J. Abrams continua a seguir a cartilha do seu ídolo Steven Spielberg e a desenvolver blockbusters bem amarrados, que procuram chegar de forma natural ao seu público alvo. Por vezes exagera com os excessos de referências a filmes anteriores e episódios das séries (veja-se uma das cenas finais que remete para uma emotiva cena de "Star Trek II: The Wrath of Khan"), bem como na exposição excessiva das características dos personagens (o conflito interior de Spock, o espírito indomável de Kirk, o feitio neurótico de "Scotty", o carácter irritante de Chekov, entre outros elementos), e no excesso de acção, mas acerta na elaboração de uma história de vingança complexa e intrincada que nos absorve e cumpre naquele propósito do "entretenimento de puro escapismo". Não tem um dos argumentos mais elaborados (Damon Lindelof é o "mestre" dos plot holes), mas apresenta uma história convincente, capaz de aproveitar o grupo de personagens que integra a equipa da Enterprise e utilizá-lo como um todo, tendo numa das suas maiores forças os relacionamentos entre os mesmos. Se a acção emotiva e bem coreografada era o mínimo que se pedia para um filme do género, o que faz "Star Trek Into Darkness" sair da mediania é a sua capacidade em desenvolver a teia de relacionamentos entre a equipa da Enterprise e claro está, ter um vilão bem construído.

 Ao contrário de "Star Trek", onde Eric Bana deu um vilão genérico, muito ao seu estilo de representar, que não adianta nem atrasa, já Benedict Cumberbatch cria um John Harrison simplesmente brilhante e, perdoem-me a ousadia, supera e muito o personagem original. É óbvio que o argumento tem um quinhão na criação do personagem, o guarda-roupa, a maquilhagem, a banda sonora e toda a atmosfera temível criada por Abrams, que leva a arrepiar quando Harrison solta o seu verdadeiro nome, mas Cumberbatch surge soberbo e vale sozinho o preço do bilhete de cinema, dando razão aos Cumberbitches que o apoiam fielmente. Sibilino, aparentemente impassível, traiçoeiro, pronto a entrar em jogos psicológicos com Kirk, Cumberbatch atribui uma aura malévola ao seu personagem, criando um vilão interessantíssimo de acompanhar, que ofusca quase tudo com a sua presença, funcionando quase como o duplo maligno de Kirk. O protagonista, quer salvar toda a sua tripulação e defender os valores morais mais elevados. Khan quer salvar a sua tripulação e eliminar as raças inferiores. Dois personagens dicotómicos de valores, mas semelhantes em personalidade, que se enfrentam e criam um conjunto de mind games notáveis, enquanto Kirk evolui como o capitão que todos aprendem a respeitar. 

 Chris Pine diz ao senhor William Shatner que o papel de Kirk está bem entregue, para este se preocupar em voltar a interpretar Denny Crane, porque a televisão precisa de um regresso de "Boston Legal", e pelo caminho expõe o perfil de liderança do personagem, cujo elemento mais fraco acaba por ser a tensão pouco romântica com Carol Marcus, com Alice Eve a ter como única relevância narrativa o facto de apresentar parte dos seus talentos corporais mas a ser das personagens menos desenvolvidas. Se o relacionamento entre Kirk e Marcus não funciona, o mesmo não se pode dizer do relacionamento com Spock. Embora tenham uma relação conturbada, devido ao feitio puramente humano e instintivo de Kirk e o carácter pragmático de Spock, a relação entre Spock e Kirk surge profundamente credível, recheada de elementos que deambulam entre o dramático, cómico, intenso, formando uma relação de respeito e amizade que facilmente chega ao espectador. No entanto, Abrams não se limita a aproveitar estes personagens. Saldana sobressai em algumas cenas de acção e na companhia de Spock (proporcionando alguns momentos hilariantes), Simon Pegg rouba as cenas onde participa como "Scotty" com o seu bom humor, John Cho assume algum relevo como Sulu e por aí fora, enquanto sentimos a criação de uma verdadeira equipa no interior da Enterprise. 

 A capacidade que J.J. Abrams tem em dar credibilidade a esta equipa, desenvolver os seus relacionamentos e levar a que nos preocupemos com os mesmos é um dos elementos-chave para "Star Trek Into Darkness" resultar. Mérito para o elenco, mérito para o seu argumento (que apesar de não brilhar, também não é medíocre) e mérito para uma equipa criativa que sabe o que está a fazer, embora esporadicamente se espalhe pelo caminho. Esta situação é visível com o arrastar no último terço da narrativa, onde notamos que J.J.Abrams está preocupado em mostrar o arsenal de efeitos especiais e o seu conhecimento sobre a saga, mas a história nem sempre resiste às incoerências e plot holes do seu argumento, embora seja mais do que a mera história de vingança. Dizer que "Star Trek Into Darkness" é apenas um filme sobre uma vingança é ser algo redutor e simplificar a situação. É esquecer os mind games entre Kirk e "Harrison", é esquecer a procura de desenvolver os relacionamentos da equipa, é esquecer a tentativa de abrir um debate se a equipa deve explorar novos mundos ou assumir uma postura mais bélica perante possíveis inimigos (no caso entre a Federação e o Império Klingon), é esquecer a procura de discutir temáticas que remetem para a política norte-americana contemporânea (veja-se a forma como é ordenado que se execute um terrorista sem julgamento, a procura de atacar um planeta só por este poder simbolizar uma ameaça, entre outros), e esquecer as pontes que J.J.Abrams tem vindo procurar abrir para no terceiro filme finalmente chegarmos à fase de a equipa ir explorar outros planetas. É verdade que o filme não procura problematizar as suas temáticas,os debates filosóficos surgem sujeitos a uma austeridade semelhante à nossa economia, a acção surge por vezes em excesso e espalhafatosa, a procura de trazer à memória os atentados do 11 de Setembro nem sempre funciona, a narrativa apresenta-nos a alguns momentos que são pouco credíveis mesmo para um filme onde temos naves espaciais, personagens com orelhas pontiagudas e alguns (poucos) extraterrestres com aspecto bizarro, perdendo-se em demasia na tentativa de Abrams em balançar a mitologia de "Star Trek" com o "filme pipoca", mas no cômputo geral não podemos dizer que saímos "enganados" da sala de cinema. 

  Apesar de algumas das limitações da narrativa, alguns excessos e incoerências, J.J. Abrams desenvolve um filme de ficção-científica que promete agradar aos fãs da saga com as suas inúmeras referências à série original e aos primeiros filmes, ao mesmo tempo que o torna abrangente para um público mais lato, enquanto apresenta pelo caminho um blockbuster agradável, que não tem grandes pretensões a não ser proporcionar duas horas de escapismo. Será que consegue? Maioritariamente, sim. Não falta acção de bom nível, efeitos especiais bem elaborados, perseguições espaciais, momentos emotivos, um bom trabalho de fotografia, algum humor, momentos non sense, uma capacidade de explorar vários dos personagens e um vilão memorável interpretado por Benedict Cumberbatch, ou seja, um conjunto de elementos mais do que suficientes para não darmos por perdido o tempo em que estivemos a ver o filme realizado por J.J.Abrams. Quando assumiu o comando de "Star Trek", J.J.Abrams era visto com muitas reticências. A verdade é que conseguiu dar uma nova vida à saga, torná-la apetecível em termos de bilheteira e ao mesmo tempo ser o eleito para fazer o mesmo com "Star Wars". O regresso para o cargo de realizador de mais um filme da saga "Star Trek" ainda é incerto, mas J.J. Abrams já deixou a sua marca no universo da saga "Star Trek" ao deixar as bases para esta voltar a ter uma "vida longa e próspera", pelo menos enquanto "a força" estiver com Abrams.

Classificação: 3.5 (em 5).

Título original: "Star Trek Into Darkness". 
Título em Portugal: "Além da Escuridão: Star Trek"
Título no Brasil: "Star Trek - Além da Escuridão"
Realizador: J.J. Abrams. 
Argumento: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci. 
Elenco: Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch, Chris Pine, Simon Pegg, John Cho, Karl Urban, Bruce Greenwood, Anton Yelchin, Zoe Saldana, Alice Eve.

2 comentários:

˙·٠•● Rodrigo ●•٠·˙ disse...

Será Que No Próximo.. Eles Vão Trabalhar Explicar Porque Kirk Roubou Um Suporto Pergaminho... E Depois Mudaram O Futuro De Uma Civilização Quem Nem Tinha Sido Inventado A Roda !!

˙·٠•● Rodrigo ●•٠·˙ disse...

Será Que No Próximo.. Eles Vão Trabalhar Explicar Porque Kirk Roubou Um Suporto Pergaminho... E Depois Mudaram O Futuro De Uma Civilização Quem Nem Tinha Sido Inventado A Roda !!