22 junho 2013

Resenha Crítica: The Place Beyond the Pines

 Inicio este texto de qualidade incerta ao revelar que “The Place Beyond the Pines”, estranhamente traduzido em Portugal para “Como um Trovão”, se foca na história de três personagens, interpretadas por Ryan Gosling, Bradley Cooper e Dane DeHaan. Cada personagem protagoniza um arco, e cada arco tem cerca de quarenta minutos de ecrã. Quero com isto dizer que, ao contrário do que estávamos à espera, Ryan Gosling não é o principal protagonista deste filme. De facto, a sua personagem não é nem mais, nem menos importante do que a de Dane DeHaan. O marketing enganou-nos. Porém, o filme é bom e recomenda-se.
 A sua história desenrola-se na povoação rural de Schenectady, uma autêntica terriola atrasada em todos os sentidos da palavra, repleta de pequenos negócios locais, prédios de dois andares e casas suburbanas envelhecidas. Tem, além disso, pelo que sabemos, uma bela igreja, uma escola relativamente decente e um banco. Rodeia a povoação um extenso e frondoso pinheiral, passível de proporcionar belas paisagens ao nascer e ao pôr-do-sol, cortado por uma pequena estrada de alcatrão que liga a localidade ao resto da civilização.
 De passagem por esta povoação encontra-se Luke Glanton (Ryan Gosling), um jovem motoqueiro absurdamente dotado, calmo e confiante, que no início do filme é colocado numa feira itinerante a demonstrar o seu talento a uma multidão maravilhada, que olha fascinada para o interior de uma jaula esférica de metal, onde três motociclistas andam perigosamente às voltas sem colidir um com o outro. Finda a demonstração, ao sair do recinto, Luke cruza-se com Romina (Eva Mendes), uma ex-namorada com quem já não falava há um ano, e que agora tem ar de quem tem algo por revelar. A conversa fica incompleta, e o jovem oferece-lhe boleia até casa – uma velha habitação de dois andares, que deixa transparecer a ideia de pobreza. É apenas na noite seguinte que vai descobrir que dentro dessa habitação mora um filho seu, um simpático bebé de poucos meses de idade. Tocado pela circunstância, e de modo a corresponder às responsabilidades paternas, Luke abandona o seu emprego, põe de lado a vadiagem e estabelece-se de vez em Schenectady, na rulote de um adorável mecânico (Ben Mendelsohn), dono de uma cadela (Tula) com problemas de visão. O seu objectivo passa por aproximar-se do filho e ser o pai que ele próprio nunca teve. O facto de a criança já ter em Kofi, o actual namorado de Romina, um pai responsável, não lhe causa qualquer transtorno.
 Bradley Cooper é o protagonista do segundo arco, ao interpretar Avery, um polícia em recuperação após ter sido alvejado numa perna no decorrer de um breve tiroteio. O agente sofre, em retrospectiva, pelas consequências da refrega, congeminando no que devia ter feito e no que devia ter evitado fazer, mas as dúvidas não lhe impedem de ser condecorado pelos superiores do corpo policial, congratulado pelos seus colegas e celebrado como um respeitável herói de âmbito local. Uma tarde, inesperadamente, após uma consulta com a psicóloga da polícia, Avery recebe na sua bela e simpática casa um grupo de colegas de trabalho, que fica para jantar. O colectivo é liderado por Deluca, interpretado por Ray Liotta, um homem de aspecto passivo-agressivo, assustador, medonho, que com intenções duvidosas vai levar o colega num passeio para brindá-lo com uma valiosa soma de dólares, adquiridos de forma ilegal e pouco escrupulosa. Avery, no entanto, é um homem de princípios, aprendeu-os do seu pai, um polícia reformado, e a sua imersão no mundo da corrupção policial vai fazê-lo ponderar, corajosamente, mas cheio de medo, no buraco em que se está a meter, e na forma como poderá sair dele.
 O modo como estes dois arcos se interligam é uma das surpresas reservadas para o espectador, pelo que sobre ela não me pronunciarei. Posso revelar, ainda assim, que culminam num terceiro acto de belo efeito, desenrolado quinze anos depois dos primeiros acontecimentos, centrado nos filhos de Luka (Dane DeHaan) e de Avery (Emory Cohen).
 Como procurei dar a entender, o filme assenta numa ideia original e ambiciosa. E se a estrutura do enredo e o seu culminar no terceiro acto é prova de muita astúcia, a verdade é que cada arco, por si só, tem valor. Penso que tal se deva, acima de tudo, à qualidade das suas personagens e respectivos actores. Repetindo o que tinha feito em “Blue Valentine”, Derek Cianfrance explora assertivamente mas com alguma subtileza as angústias, os medos e os conflitos interiores dos protagonistas, recorrendo frequentemente a alguns close ups para evidenciar as suas expressões, interpretadas de forma muito sólida por um talentoso grupo de intérpretes.
Deste grupo sobressai acima de tudo Ryan Gosling, que tem um papel curiosamente semelhante à sua icónica personagem de “Drive”: não é especialista na condução de carros, mas conduz motas como ninguém; não enverga um casaco dourado, mas um vermelho; é pouco falador, e como tal transmite as suas emoções subtilmente, através das suas expressões. Desconhecemos o seu passado mas deduzimos pelo seu ar de durão e pela confiança que transmite que foi atribulado; aliás, é provável que já tenha participado em algumas rixas. Não é um herói, comete alguns actos reprováveis, mas é bem-intencionado, e consegue fazer-nos gostar dele sem dificuldade. É com muita pena que vemos o seu arco acabar, dando lugar a outro.
 Também Bradley Cooper entrega-se a uma personagem assolada por um conflito interior, que durante o seu arco vai experienciar uma diversidade de emoções intensas. Lembram-se de ter referido, há uns parágrafos atrás, que Avery frequentara uma psicóloga? Esse foi, provavelmente, o momento mais impressionante de Cooper. Inseguro, constrangedor, o agente vai revelando à médica a sua fragilidade, e com a voz a tremer confessa-lhe as dificuldades da sua reabilitação e a sua incapacidade em encarar o filho. No final, a psicóloga faz-lhe uma última pergunta. A sua expressão muda subtilmente, (Cianfrance espeta-lhe a câmara na cara), Avery nem consegue falar e limita-se a acenar com a cabeça, com uma face penosa, marcada pela dor.
A maior surpresa da obra em questão, porém, é protagonizada por Dane DeHaan, que representa um adolescente com graves questões familiares por resolver, incorporando notavelmente a raiva, o sofrimento e a desorientação da sua personagem. A ele foi confiada a tarefa de fechar o filme, de terminar o que Ryan Gosling e Bradley Cooper começaram, uma demonstração da confiança que o realizador lhe concedeu, e mais um sinal das suas capacidades, já evidenciadas em “Chronicle”, e do futuro esperançoso que provavelmente terá à sua frente.
 Brilham ainda como actores secundários Eva Mendes, como uma mãe e namorada em pleno conflito interior, Emory Cohen, como o filho de Avery, um adolescente problemático e manipulador, e acima de tudo Ray Liotta, portador de um talento impressionante para parecer um canalha da pior espécie, um tipo assustador e arrepiante que transpira agressividade e violência.
As qualidades de “The Place Beyond the Pines”, porém, não se ficam por aqui. A sua fotografia, por exemplo, proporciona-nos alguns bons momentos, quer ao evidenciar as paisagens rurais especialmente belas ao lusco-fusco, quer ao aproveitar, através de alguns planos mais longos do que o habitual, e recorrendo, como já referi, aos close ups, as emoções das personagens. Também a banda sonora, deixada a cargo do eminente Mike Patton, merece a nossa admiração. Sobressai neste capítulo a arrepiante “Snow Angel”, do próprio Patton, e a já batida “The Wolves”, de Bon Iver.
 Há, no entanto, um problema com “The Place Beyond the Pines”. Não obstante a sua ideia ambiciosa, o seu elenco talentoso, a sua bela fotografia e a sua banda sonora fascinante, o filme acaba por ser vítima do seu próprio conceito. É difícil criar uma ligação entre o espectador e as personagens quando cada arco só tem quarenta minutos de duração. Precisávamos de três arcos memoráveis e intensos, mas ao invés fica a ideia de um potencial desperdiçado. Como se não bastasse, os dois primeiros arcos acabam precisamente no momento em que a história estava mesmo a aquecer. Seguimos as personagens, sofremos com elas, sentimos o aproximar do clímax, e eis um final um abrupto. Esbarramos numa parede de tijolo que nos faz ver, desiludidos, que já não há mais Luka, nem mais Avery. Passemos ao arco seguinte. O interesse não se esvai, mas há uma ligeira indiferença.
 Em jeito de conclusão, recordo que, no final do primeiro arco, há uma cena em que Luka (Gosling), vindo da prisão com as suas tatuagens, o seu cabelo oxigenado e o seu colete dos Metallica, entra em casa do seu parceiro e amigo Robin, o mecânico, propondo-lhe uma loucura. O amigo, desiludido, recusa: «If you ride like lightning, you're going to crash like thunder». Uma frase cheia de estilo, e provavelmente uma referência subtil ao segundo álbum dos Metallica. É uma cena paradigmática de “Beyond the Pines”. Pela sua subtileza, pelo seu estilo, e pelo facto de que tal como Luka, Cianfrance recusou-se a jogar pelo seguro. Podia ter optado por uma ideia mais simples, e possivelmente mais amiga do público. Com Ryan Gosling e Bradley Cooper, não era difícil. Optou, pelo contrário, por concretizar um projecto mais ambicioso e original. Não lhe saiu, infelizmente, um “Blue Valentine”, mas fica para a memória, ainda assim, uma história interessante, assente em personagens cativantes e bem desenvolvidas, daquelas que, quanto mais pensamos nela, mais inteligente se torna. O que, por si só, já é bastante razoável.

Pontuação: 3.5

Título original: The Place Beyond the Pines
Título em Portugal: Como um Trovão
Título no Brasil: O Lugar Onde Tudo Termina
Realizador: Derek Cianfrance
Argumento: Derek Cianfrance, Ben Coccio e Darius Marder
Elenco: Ryan Gosling, Eva Mendes, Bradley Cooper, Ray Liotta, Dane DeHaan, Ben Mendelsohn, Emory Cohen, entre outros.

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