08 junho 2013

Resenha Crítica: "Now You See Me" (Mestres da Ilusão)

 "Now You See Me" surge cheio de estilo, truques de magia, uma banda sonora histriónica, perseguições, reviravoltas, sempre pronto a impressionar o mais incauto dos espectadores, mas no final parece um mágico que foi para o seu espectáculo com a cartola mas deixou o coelho em casa. Neste caso, Louis Leterrier voltou a mostrar que é um mestre em apresentar filmes com muito estilo e pouco conteúdo, ao realizar uma obra com um argumento sofrível, que apenas não cai na mediocridade graças aos elementos do seu elenco (em particular Jesse Eisenberg e Woody Harrelson). O filme até começa bem com Leterrier a fazer justiça ao título de "Now You See Me" em Portugal e a revelar-se um "mestre da ilusão" que promete dar-nos hora e meia de agradável entretenimento, mas afinal é um mero truque de ilusão. Na fase inicial do enredo, somos apresentados individualmente os personagens interpretados por Jesse Eisenberg, Isla Fisher, Woody Harrelson e Dave Franco, em particular as habilidades e personalidades dos mesmos, e logo a narrativa parte para a acção.
 Eisenberg interpreta Daniel Atlas, um mágico carismático conhecido pelas suas enormes habilidades na ilusão. Isla Fisher interpreta Henley Reeves, o antigo interesse amoroso de Atlas, que agora trabalha por conta própria em truques de ilusionismo. Harrelson é Merritt McKinney, um hipnotizador e mentalista que já conheceu um período áureo na sua carreira, mas problemas financeiros provocados pelo seu irmão levam-no a ter de ganhar dinheiro com pequenos golpes. Dave Franco (o irmão do James) é Jack Wilder, um ilusionista conhecido pelas suas habilidades em fazer desaparecer carteiras. Os quatro personagens reúnem-se quando recebem uma carta com um símbolo dedicado a cada um, e logo formam uma estranha dinâmica. Num salto narrativo de um ano, o enredo apresenta-nos ao quarteto num espectáculo de magia recheado de glamour, patrocinado por Arthur Tressler (Michael Caine), um magnata do ramo dos seguros. Nesse espectáculo em Las Vegas, recheado de ritmo, cor, ilusão e música, o quarteto denominado de "Quatro Cavaleiros" propõe-se a assaltar um banco escolhido por um dos elementos da plateia, no caso, um banco em Paris (ou seja, uma espécie de Robin Hoods, que se preparam para atacar algumas entidades odiadas da sociedade contemporânea).
 Supostamente os quatro cavaleiros conseguem transportar esse elemento para Paris e o dinheiro logo é transportado para junto da plateia, algo que desperta a atenção do FBI, em particular do agente Dylan Rhodes (Mark Ruffalo) e de uma agente da Interpol, Alma Vargas (Mélanie Laurent). O quarteto ainda é detido para os seus elementos serem interrogados, mas logo são soltos devido a falta de provas, algo que não os irá impedir de continuar a prosseguir o seu "misterioso" plano, enquanto são perseguidos pelas autoridades e por Thadeus Bradley (Morgan Freeman), um antigo mágico que ganha a vida a desacreditar antigos colegas de profissão. Quem não precisa de colegas de profissão para se desacreditar ao longo de "Mestres da Ilusão" é Louis Leterrier, ao realizar um filme que procura ser engraçado, divertido e inteligente, mas perde-se no seu argumento deslavado, na sua ambição de querer parecer mais inteligente do que é na realidade e na sua incapacidade para explorar os personagens, ficando a anos luz de obras como "The Prestige" e "The Ilusionist", que realmente sabiam explorar temáticas relacionadas com a magia.
  Louis Leterrier não é conhecido por obras cinematográficas que apostam no sublime, mas sim pela aposta na acção, veja-se que foi contratado para a espécie de sequela de "Hulk" exactamente para colocar mais acção na narrativa, realizou um desnecessário remake de "Wrath of the Titans", bem como dois filmes da saga "The Transporter". Em "Now You See Me" realiza um filme que apresenta claras semelhanças com "Ocean's Eleven", mas falta-lhe a classe que Steven Soderberg atribuiu ao primeiro filme da saga de Danny Ocean e acima de tudo uma história mais coerente, capaz de desenvolver as suas subtramas e os seus personagens. Raramente sentimos que estes vão falhar algum truque ou ser capturados pelas autoridades (o jogo do gato e do rato nem sempre gera interesse), tudo parece de fácil resolução para os "Quatro Cavaleiros", mesmo os intrincados truques de magia (alguns truques parecem [mal] feitos a computador) e assaltos, sendo que a única decisão corajosa do argumento logo é travada por uma reviravolta final para não estragar uma possível sequela. Junte-se a isso a notória incapacidade de desenvolver algumas temáticas relacionadas com os personagens secundários, tais como a relação entre Dylan e Alma, o desaproveitamento de Michael Caine, a incapacidade de criar uma dinâmica de grupo entre os Quatro Cavaleiros, um conjunto de reviravoltas vãs, uma incapacidade notável para explorar os cenários onde se desenrola o filme, e sobra uma obra com uma boa premissa que se salva graças ao seu elenco e a uma história que apesar de tudo é minimamente suportável.
 Leterrier parece que resolveu realizar um truque de magia, mas trouxe apenas a decoração que envolve o espectáculo e algumas cartas de trunfo. Essas cartas são o elenco, em particular Jesse Eisenberg, Woody Harrelson e Mark Ruffalo, que dinamizam e credibilizam a narrativa. Harrelson surge excêntrico, meio louco, com um sarcasmo apurado, sendo um dos elementos em destaque ao lado de Jesse Eisenberg, como o líder natural do grupo, um personagem confiante que ganha outra dimensão graças à capacidade do actor em expor a confiança do mesmo e a dar credibilidade a Atlas. Já Ruffalo sobressai pelo facto da narrativa oferecer-lhe tempo em demasia, descurando muitas das vezes a história dos "Quatro Cavaleiros", em particular a criação de uma dinâmica entre os elementos (apresentá-los a dar uns espectáculos não chega). Se o elenco sobressai, vale ainda a pena salientar a capacidade que Leterrier tem em dar ritmo à narrativa, em conseguir que apesar de todas as incoerências consigamos manter a nossa atenção na história, tendo na introdução de um misterioso quinto elemento da equipa um factor-chave para criar algum mistério a envolver a narrativa. No entanto, é muito pouco para um filme que se acha mais inteligente do que realmente é. Os quatro cavaleiros podem ser especialistas na arte da ilusão, mas no final aquele que nos ilude mais é Louis Leterrier ao realizar um filme com uma premissa interessante que raramente é explorada, tendo como grande truque a facilidade com que promete desaparecer da memória.

Classificação: 2 (em 5)

Título original: "Now You See Me" 
Título em Portugal: "Mestres da Ilusão". 
Título no Brasil:  "Truque de Mestre"
Argumento: Josh Appelbaum, André Nemec, Ed Solomon, Boaz Yakin, Edward Ricourt.
Elenco: Jesse Eisenberg, Isla Fisher, Morgan Freeman, Woody Harrelson, Mark Ruffalo, Michael Caine, Dave Franco, Mélanie Laurent.

1 comentário:

Paola Sánchez disse...

Veja mencionado nesta revisão para o filme O Grande Truque, um filme vale a pena desfrutar de sua história e os personagens. Há nova serie HBO uma produção brasieleña, O Hipnotizador, que me lembra do filme. Uau que ambos são excelentes.