04 junho 2013

Resenha Crítica: "Laura" (1944)

 Filme noir magnífico, marcante, cheio de estilo e elegância, "Laura" desafiou as barreiras do tempo e continua a manter nos dias de hoje um inestimável valor. Tudo parece funcionar em volta da investigação do detective Mark McPherson (Dana Andrews) ao assassinato de Laura Hunt (Gene Tierney). A atmosfera negra que rodeia a investigação e a descoberta que este efectua sobre Laura, os personagens ambíguos e de cariz duvidoso que Mark encontra, os diálogos afiados, as frases marcantes proferidas ao estilo do mais durão dos protagonistas dos filmes noir, a femme fatale na figura de Laura, a dissimulação, ou seja, é criado todo um ambiente negro que envolve a narrativa e nos envolve, enquanto assistimos à crescente obsessão de Mark por Laura. Uma das primeiras vezes que encontramos Mark este encontra-se a interrogar o carismático colunista/cronista social Waldo Lydecker (Clifton Webb), um indivíduo de gostos refinados, aparentemente educado, que serviu de mentor para Laura e formou com esta uma forte amizade.  
 É neste interrogatório a Waldo que pela primeira vez nos deparamos com a figura de Laura, ainda que em flashback. Esta é uma jovem bela e sensual, que desperta a atenção de todos os homens, conseguindo aos poucos ascender na carreira ligada ao ramo da publicidade. A amizade com Waldo surge de forma gradual e aos poucos a influência deste regista-se não só a nível profissional, mas também sentimental, com este a fazer de tudo para evitar o casamento da sua protegida com o parasita Shelby Carpenter (Vincent Price, numa interpretação acima da média). Terminado o flashback, Mark decide continuar a interrogar outras pessoas ligadas a Laura, possíveis suspeitos, no qual se insere Shelby, enquanto começa a desenvolver uma certa obsessão por Laura, pela sua vida, pela sua casa, pelo seu retrato, até descobrir que a morte de Laura pode não ser real como parecia, numa narrativa recheada de twists que prometem surpreender e mantê-lo preso a todos estes acontecimentos.  
 Se Dana Andrews interpreta um indivíduo muito associado ao detective dos filmes noir, o tipo durão, que profere diálogos memoráveis e afiados, obcecado pela femme fatale, então "Laura" é o exemplo paradigmático daquilo que podemos muitas das vezes esperar num filme noir. Não falta a utilização paradigmática do claro/escuro (incluindo as célebres sombras a simbolizarem as grades de uma prisão), a femme fatale, personagens ambíguos, a banda sonora evocadora de todo o clima de incerteza, as reviravoltas, os objectivos poucos claros dos personagens, enquanto Otto Preminger se "diverte" a explorar as características negras dos seus protagonistas. Preminger nem era a primeira escolha para o cargo de realizador, tendo entrado para o projecto como produtor, assumindo as funções de realizador após o despedimento de Rouben Mamoulian e o seu director de fotografia. O resto é história. Preminger desenvolveu um dos grandes êxitos da sua carreira e provavelmente a obra mais marcante da mesma, Gene Tierney e Dana Andrews tiveram dois dos papéis mais influentes das suas carreiras, enquanto Clifton Webb saiu do período de ostracismo no grande ecrã. 
 É sobretudo no trio de personagens interpretados por Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, que se concentra a narrativa, enquanto Preminger explora as idiossincrasias e as personalidades dos mesmos, três personagens que exemplificam uma certa decadência de valores da sociedade (aos quais podemos ainda juntar os elementos interpretados por Price e Judith Anderson). Tierney surge bela, sensual, com uma aura trágica e pouco clara, como Laura, a mulher que todos desejam mas nenhum parece conseguir ter. Andrews é o detective aparentemente rígido de valores, mas cedo começa a transgredir a lei e a criar uma obsessão por uma mulher que supostamente está morta, com a narrativa a explorar temáticas como necrofilia e fetichismo. Webb sobressai pelos seus diálogos sardónicos, pelos seus tiques que remetem subtilmente para a homossexualidade do personagem e do actor que o interpreta, um dândi aparentemente refinado, que conta com os seus esqueletos no armário. Três excelentes interpretações de três elementos que catapultam a narrativa para um nível superior, enquanto Otto Preminger desenvolve uma obra que deve certamente ter causado algumas dores de cabeça aos sensores da época. 
 Essas dores de cabeça podem concentrar-se desde logo pela obsessão desenvolvida pelo personagem de Dana Andrews em relação a Laura. Este apaixona-se pela falecida através dos relatos de outras pessoas, da visualização do seu retrato, das leituras do seu diário, do toque nos seus objectos, algo que poderia ter contornos ainda mais perturbadores se não fosse o twist da segunda parte da narrativa, que por motivos de bom senso não divulgarei nesta crítica. A investigação de Mark surge marcada não só por esta obsessão que o detective desenvolve pela mulher, mas também pela sua procura em descobrir o suposto assassino, tendo um conjunto de suspeitos recheados de razões para poderem ter cometido o assassinato, tendo posteriormente de virar agulhas e mudar o rumo da investigação, com Otto Preminger a divertir-se a preencher esta narrativa de reviravoltas e a efectuar uma subtil crítica à decadência de valores da sociedade, que surgem expostos na miríade de personagens de classe média/alta que povoam a narrativa. 
 Com um argumento eficaz (tendo como base o livro homónimo de Vera Caspary) e um magnífico trabalho de fotografia, "Laura" beneficia do tom negro atribuído por Otto Preminger à narrativa, da forma sagaz como explora um conjunto de personagens ambíguos e muitas das vezes pouco recomendáveis, ao mesmo tempo que nos envolve para o interior desta história recheada de incertezas, onde a morte não parece ser suficiente para uma femme fatale conquistar aqueles que a rodeiam. O tempo passa mas "Laura" continua a manter o charme que conquistou o público aquando da sua estreia, em 1944, revelando-se um filme noir que partilha uma qualidade com o vinho do Porto: com a idade parece estar cada vez melhor.

Título: "Laura".
Realizador: Otto Preminger.
Argumento: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein, Elizabeth Reinhardt.
Elenco: Dana Andrews, Clifton Webb, Gene Tierney, Vincent Price, Judith Anderson.

1 comentário:

Anónimo disse...

Um grande filme. Incluí-o há pouco no meu actual ciclo "Film Noir".

É um filme que se explana pelos equívocos com que nos ilude. O equívoco da adoração por Laura (cujos "adoradores" a podem ter assassinado), o equívoco da narração off (cujo narrador nos surge como uma voz imparcial, e afinal...), o equívoco da investigação (que começa pelo crime mas cedo se desinteressa dele), e claro o equívoco da morte.

Há provavelmente mais alguns, mas estes são suficientes para nos surpreender a cada momento numa história hipnótica e inesquecível.