28 junho 2013

Resenha Crítica: "Funny Face" (Cinderela em Paris)

 Jo Stockton (Audrey Hepburn) é uma discreta, culta e bela funcionária de uma livraria, uma mulher apaixonada por filosofia e algo atrapalhada, que vê a sua vida mudar quando Maggie Prescott (Kay Thompson), a editora e chefe da revista de moda Quality, surge na loja para uma sessão de fotografias, acompanhada pelo fotógrafo Dick Avery (Fred Astaire) e uma modelo que tinha tanto de bela como de oca a nível de inteligência. Sem ouvir nada nem ninguém, arrogante e pronta a ditar as novas tendências da moda, Prescott pretende desenvolver uma sessão fotográfica na livraria, ignorando estar no interior de uma propriedade privada, do facto da dona da livraria considerar que esse tipo de revistas são "snobs e lidam com a aparência de modo irreal" e o facto de Jo não estar a gostar da ideia, embora não se consiga impor, acabando até por participar numa sessão a fingir que está a vender um livro. Jo Stockton acaba por despertar a atenção de Dick, que logo convence Maggie a colocar a protagonista como a modelo que vai posar com os novos modelos do costureiro Paul Duval em Paris, devido a ter "carácter, espírito e inteligência (...) Uma novidade para revistas de moda". Ainda que relutantemente, Jo aceita ir para Paris, ainda que seja um meio para atingir um fim, nomeadamente "ver onde os filósofos pensam como Jean-Paul Sartre", "debater com os rapazes de Montmartre e Montparnasse" e conhecer o filósofo Flostre.
 Em Paris, Jo descobre-se como pessoa, convive com o espaço da cidade Luz e as suas pessoas, enquanto gradualmente desenvolve uma relação que vagueia entre o amor e a amizade com Dick, procura cumprir as tarefas de modelo, envolve-se em peripécias e nos encanta com o seu jeito algo naïve. Esta beneficia do carisma e talento de Audrey Hepburn, uma actriz cuja aura apenas destinada aos predestinados lhe permite dar um encanto natural às suas personagens, tendo em Jo uma jovem sonhadora e cheia de ideais, que tem na filosofia a sua paixão e no amor a sua fraqueza, enquanto Hepburn tem mais uma personagem para explorar a sua versatilidade. Hepburn canta, dança, encanta e contagia, formando com Fred Astaire uma dupla carismática, com a diferença de idades a não surgir como um contratempo para a enorme química que apresentam. Juntos, Hepburn e Astaire protagonizam alguns momentos memoráveis, onde não falta uma estranha dança num clube nocturno, onde a primeira apresenta alguns movimentos estranhos e deliciosos, que facilmente ficam gravados na memória. Diga-se que Hepburn e Astaire são duas peças fulcrais de um musical bem construído, que conta com a experiência de Stanley Donen na realização de filmes do género, após ter realizado ao lado de Gene Kelly alguns musicais como "On the Town" (1949), "Singin'in the Rain" (1952), e a solo "Royal Wedding" (1951) e "Seven Brides for Seven Brothers" (1954).
 Donen não realiza um musical à altura de "Singin' in the Rain", mas nem por isso desenvolve uma obra menor do seu currículo, ao apresentar um musical cheio de cor, ilusão e romantismo, onde se nota toda uma procura em explorar os cenários parisienses e alguns dos estereótipos associados ao mundo da moda e às revistas do género. Essa superficialidade fica bem explícita na dicotomia entre a protagonista e a editora da revista, onde podemos encontrar o desejo da jovem Jo em incrementar os seus conhecimentos em contraste com a procura de Prescott em manter as aparências, bem como na redacção da revista recheada de superficialidade com os boémios da "geração beat" que frequentam os bares e ouvem jazz, que procuram lutar contra um sistema consumista e recheado de falsas aparências. Um contraste que surge efectuado com uma certa mordacidade e ironia, enquanto Donen intercala a narrativa com alguns momentos musicais que ficam na memória, sabe jogar com os nossos sentidos e emoções num espectáculo cheio de glamour e vivacidade, onde Audrey Hepburn e Fred Astaire dançam e encantam.
 Para além de proporcionar momentos emotivos ao lado de Hepburn e espalhar talento com os seus números de dança, Astaire ainda teve um papel importante nas coreografias da dança ao lado de Eugene Loring, contribuindo para superar algumas possíveis limitações da sua companheira na dança e a protagonizar alguns momentos de bom cinema. Momentos daqueles que ultrapassam a realidade e as limitações de um argumento simples e relativamente previsível, que nos deixam a sós perante uma visão romântica e irreal de Paris mas incrivelmente bela, uma visão onde duas pessoas se apaixonam improvavelmente, onde a dança serve para expressar sentimentos e comunicar. Enérgico, cheio de cor, números musicais entusiasmantes e um charme irresistível, "Funny Face" surge como um musical cheio de candura e momentos de romantismo, onde Audrey Hepburn e Fred Astaire mostram o seu talento e uma enorme química, enquanto dançam, cantam, divertem-nos e fazem-nos sonhar com esta Paris tão cheia de vida e ilusão.

Título original: "Funny Face". 
Título em Portugal: "Cinderela em Paris".
Título no Brasil: "Cinderela em Paris". 
Realizador: Stanley Donen. 
Argumento: Leonard Gershe. 
Elenco: Audrey Hepburn, Fred Astaire, Kay Thompson, Michael Auclair. 

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