26 junho 2013

Resenha Crítica: "Emperor" (Imperador)

 É incrível como "Emperor" consegue desperdiçar o seu potencial de forma desastrosa e completamente incompreensível, não fazendo justiça à riqueza do período histórico e dos personagens que representa, resultando num drama histórico sofrível e inconsequente, que não sabe explorar a complexidade do material do qual tirou inspiração. Se as liberdades históricas são compreensíveis ao serviço da fluidez narrativa, o mesmo não se pode dizer do seu argumento desastroso, do inexpressivo Matthew Fox e de um pseudo-romance inserido a martelo em flashbacks, que tiram o foco do filme e nos deixam a pensar no que seria se a história tivesse como foco o personagem interpretado por Tommy Lee Jones, um dos poucos elementos a sobressair neste acidente cinematográfico. O enredo desenrola-se no período posterior à rendição do Japão, um território devastado pela derrota na II Guerra Mundial e pelo ataque nuclear a Hiroxima e Nagasaki, tendo ainda de lidar com a ingerência norte-americana no território, com a figura do General Douglas MacArthur a ter uma influência notável nas relações entre EUA e Japão. É neste contexto histórico que chegam ao território o general Douglas MacArthur (Tommy Lee Jones) e o general Bonner Fellers (Matthew Fox), bem como vários elementos norte-americanos são enviados para o território, tendo em vista a manter o controlo norte-americano no território, embora de forma a que não pareçam conquistadores mas sim aliados. 
 O filme concentra-se sobretudo na procura de Bonner Fellers em cumprir a missão que MacArthur, o Chefe Supremo das Potências Aliadas, lhe incumbiu, nomeadamente, descobrir até que ponto o Imperador Hirohito esteve envolvido nos crimes de Guerra contra os EUA durante a II Guerra Mundial, bem como na procura espontânea do personagem interpretado por Fox em descobrir o paradeiro da sua amada, Aya Shimada (Erika Hatsune). Fellers é um militar com conhecimento do território e tinha a decisão de avaliar os discursos de vários dos envolvidos, sabendo que em Washington existiam facções que pretendiam a "cabeça do Imperador", embora essa decisão pudesse simbolizar um descalabro emocional no Japão. É sobretudo nesta estrutura da investigação efectuada por Fellers a várias figuras ligadas ao Imperador entrecortada pelas cenas do romance do personagem com Aya que se concentra a estrutura da narrativa. Uma estrutura repetitiva, pouco motivante e arrasadora das boas intenções do filme, que esbarra num argumento sofrível de David Klass e Vera Blasi e na incapacidade de Peter Webber em envolver o espectador na história que apresenta, tendo uma irritante tendência para interromper momentos importantes da investigação com um romance genérico que acrescenta ZERO à narrativa. O romance entre Aya e Fellers não é desenvolvido a ponto de nos preocuparmos pelos personagens, a química entre a dupla de actores deixa a desejar e a juntar a isso temos o problema das cenas em flashbacks surgirem de forma gratuita, como corpos estranhos inseridos a martelo prontos a arrastar a narrativa na sua duração.
 Se o romance não resulta, o mesmo acontece com a exploração do período histórico e na representação das figuras de Hiroito e MacArthur. Nota-se uma certa dose de ironia em relação à arrogância norte-americana, nota-se uma procura em passar a imagem de um território japonês recheado de contradições, um território marcado pela destruição arrasadora causada pelos norte-americanos e uma beleza natural que sobreviveu (o trabalho de fotografia é bem eficaz), uma procura em retratar o território de forma realista, mas é muito pouco. Hiroito e Douglas MacArthur deveriam simbolizar os imperadores do título mas surgem como caricaturas de dois personagens relevantes da história contemporânea. MacArthur, embora pouco desenvolvido, surge como a figura do filme, com Tommy Lee Jones a mostrar mais uma vez que é um actor de excepção ao atribuir um carácter deliciosamente arrogante ao seu personagem, uma figura que procurava sobressair junto da opinião pública e tinha em mãos a decisão de enorme importância relacionada com os destinos de Hirohito. Já o Imperador Japonês mal surge na narrativa, protagonizando apenas uma cena de relevo (a melhor do filme), quando Peter Webber percebeu que tinha de acabar o filme com algum momento marcante e não entediante. 
 No entanto, Jones é um oásis num interior de um deserto de desinspiração, onde não falta um argumento insípido, decisões pouco compreensíveis de colocar um tradutor junto de Fellers quando praticamente todos os personagens falam em inglês, alguns plot holes, muitos clichés e falsos moralismos, numa história onde o bom senso raramente impera. "Emperor" é um caso incompreensível. O período que retrata é riquíssimo a nível histórico, social, político, cultural, o filme ainda procura explorar algumas das diferenças culturais entre os norte-americanos e os japoneses, bem como a necessidade de existir um diálogo e tolerância entre ambos os povos e nações para esta colaboração forçada fruir (que permite fazer a ponte para o que está acontecer no Afeganistão e Iraque), mas Peter Webber parece estar mais preocupado no romance e em seguir uma estrutura que gradualmente vai perdendo o interesse, ao invés de tentar estimular o espectador e provocar. Apesar de contar com um Tommy Lee Jones em bom nível e de todas as suas boas intenções, "Emperor" revela-se o "imperador dos erros", uma obra incapaz de explorar o período histórico e a complexidade dos personagens representados, tendo como trunfo um romance pouco elaborado, um Matthew Fox que parece continuar a pensar estar a representar o Jack da série "Lost" e uma mensagem relevante mas que se perde no meio de toda esta insípida narrativa.

Classificação: 1.5 (em 5). 
Título original: "Emperor".
Título em Portugal: Imperador. 
Realizador: Peter Webber. 
Argumento: Vera Blasi e David Klass. 
Elenco: Matthew Fox, Tommy Lee Jones, Eriko Hatsune, Takatarô Kataoka.  

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