29 junho 2013

Resenha Crítica: "Breakfast at Tiffany's" (Boneca de Luxo)

 Extrovertida e com uma enorme graciosidade, Holly Golightly não só é uma das personagens mais icónicas da carreira da lendária Audrey Hepburn, mas também um símbolo da cultura pop, uma personagem feminina que representa os excessos consumistas da sociedade contemporânea urbana, uma mulher mimada, bela, elegante, que gosta de lavar as suas tristezas na Tiffany's, embora seja incrivelmente frágil, ingénua e vulnerável. Esta é a protagonista de "Breakfast at Tiffany's", uma adaptação livre da obra literária homónima de Truman Capote, realizada por Blake Edwards, que resiste ao tempo e continua a encantar, a fazer-nos sonhar e apelar ao nosso romantismo, à nossa capacidade de nos apaixonarmos desta história onde uma mulher aparentemente fútil e oca esconde um conjunto de problemas e fragilidades emocionais, tendo como companheiro fiel um gato sem nome, enquanto espera por novidades relacionadas com o seu irmão. Holly apenas pensa conquistar um homem rico e viver às custas deste, procurando ascender socialmente e economicamente através das suas conquistas. Distante deste modo de pensamento algo frio de Holly encontra-se Paul Varjak (George Peppard), um escritor que vai morar para o mesmo prédio da protagonista e aos poucos desenvolve uma relação de proximidade com a mesma. Aos poucos, Paul apaixona-se por esta peculiar mulher, que tem a tendência para afastar aqueles que a amam verdadeiramente.
 É sobre a relação entre Holly e Paul que se concentra boa parte da narrativa, nas suas diferenças que se complementam na perfeição, na enorme química que apresentam, na forma como cada um acaba por alterar um pouco o destino do outro, enquanto Audrey Hepburn brilha e George Peppard convence. Hepburn surge menos cândida do que em papéis que já a vimos, mas cheia de charme e carisma, ao interpretar esta mulher que utiliza o seu corpo para atrair os homens e ganhar dinheiro, mas tarda em descobrir-se como ser humano. Como a sua personagem salienta num momento de enorme fragilidade "(...) Eu não sou Holly. Não sou Lula Mae, também. Eu nem sei quem eu sou! Sou como o gato. Somos uma dupla de abandonados sem nome", ou seja, esta procura encontrar-se num meio de um espaço urbano materialista que não a aceita como esta realmente é, procurando através de uma máscara de dondoca sobressair e mostrar todo o seu materialismo e estatuto (ainda que este seja apenas aparente). Uma mulher que tem Hepburn uma intérprete à altura, proporcionando momentos que vão desde o cómico ao dramático, passando por momentos de romantismo e irritação, até momentos memoráveis como Holly a cantar "Moon River" ou a tirar uma máscara que utiliza ao lado de Paul. Quando tiram a máscara, Paul e Holly deixam temporariamente a descoberto os seus sentimentos e emoções, um momento sublime, que perdura na memória, enquanto Hepburn e Peppard apresentam uma química considerável.
 Não é apenas Hepburn que sobressai. Peppard é outro dos elementos em destaque como um escritor que vê a sua vida virada do avesso quando descobre uma mulher que tem tanto de fútil como de apaixonante, que mescla uma fragilidade sincera com um cinismo atroz, uma jovem complexa que aos poucos vamos conhecendo um pouco mais do seu passado e até das suas actividades no presente (incluindo visitar um gangster na prisão para dar informações em código, algo que esta não desconfia, pois pensa estar a dar informações sobre o tempo) e das pessoas que acompanham a sua vida, incluindo Paul. A história de amor de Holly e Paul surge irreal, impossível, daquelas que nos prendem ao grande ecrã e que só o cinema nos pode dar, tão cheias de vida e vibrantes, num romance simplesmente deslumbrante, que contorna as suas situações implausíveis com um charme impossível de resistir. Mérito para Blake Edwards, que nem era a escolha inicial para o cargo de realizador, mas sim John Frankenheimer, que consegue construir um romance com uma candura e paixão que não encontramos nos dias de hoje, capaz de estabelecer algumas críticas a uma sociedade consumista que vive de aparências e ilusões ao mesmo tempo que nos apresenta a uma protagonista complexa e cheia de vida.
 Quem também surge cheio de vida é Manhattan, um espaço citadino por onde deambulam os personagens, um local onde habitam, vivem, discutem, e amam, no interior deste romance cheio de momentos icónicos e memoráveis, onde não falta um Mickey Rooney a roubar as atenções como um vizinho constantemente a ser perturbado pela protagonista, embora o estereótipo japonês do personagem tenha sido muito criticado e ajude a distrair mais do que a fazer rir. Se Hepburn e Blake Edwards brilham, o mesmo se pode dizer da magnífica banda sonora de Henry Mancini e do trabalho de fotografia de Franz F. Planer, bem como do magnífico guarda-roupa da personagem de Hepburn (mais uma vez vestida pela Givenchy), ou seja, vários elementos que contribuíram para a construção de um clássico apaixonante, recheado de pequenos pedacinhos memoráveis, onde até a procura de um gato à chuva surge revestida de forte impacto emocional. Um impacto emocional intenso, seja no romance impossível entre os protagonistas ou numa discussão entre ambos, seja num momento em que Holly se decide embebedar para esquecer, enquanto a narrativa surge pontuada por humor, drama e muito romantismo. "Breakfast at Tiffany's" surge como um romance apaixonante e inesquecível, daquelas obras que nos encantam e oferecem pequenos pedacinhos que ficam gravados na nossa memória e dificilmente os conseguimos esquecer, onde Audrey Hepburn atinge um daqueles desempenhos icónicos, apenas ao alcance das grandes lendas da história do cinema.

Título original: "Breakfast at Tiffany's"
Título em Portugal: "Boneca de Luxo".
Título no Brasil: "Bonequinha de Luxo".
Realizador: Blake Edwards.
Argumento: George Axelrod.
Elenco: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Bubby Ebsen, José Luís de Vilallonga.

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