29 junho 2013

Resenha Crítica: "All The President's Men" (Os Homens do Presidente)

 Inspirado no caso verídico da investigação desenvolvida por Bob Woodward e Carl Bernstein para o Washington Post relacionada com o "caso Watergate", "All The President's Men" é mais um exemplo da elegância e mestria com que Alan J. Pakula realiza as suas obras cinematográficas, onde a investigação a este intrincado e nebuloso caso ganha contornos memoráveis. O caso é sobejamente conhecido do público, tendo causado um enorme escândalo e levado à resignação do Presidente Nixon. A 18 de Junho de 1972, o Washington Post noticiou a ocorrência de um assalto no dia anterior na sede do Comité Nacional do Partido Democrata, no Complexo Watergate. Cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata. Durante a investigação ao assalto, os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward depararam-se com uma conspiração que envolvia muito mais do que um assalto, envolvendo elementos do FBI e da própria administração Nixon, incluindo o Presidente, que tinha conhecimento de um conjunto de gravações que foram efectuadas de forma ilegal contra a oposição. É exactamente nesta investigação de Woodward e Bernstein que se centra a narrativa de "All The President's Men", o último capítulo da trilogia informal da "paranóia política" de Alan J. Pakula.
 Embora já saibamos antecipadamente o desfecho do caso representado ao longo do filme, é impossível não ficar agarrado ao ecrã perante a entusiasmante e intrigante investigação que "All President's Men" nos apresenta. Existe toda uma tensão e inquietação em volta dos destinos de Bob Woodward e Carl Bernstein, uma procura de explorar os perigos que estes viveram, os contratempos, os revezes, o secretismo e dificuldades que estes encontraram enquanto desenvolveram uma investigação apaixonadamente, que serve como exemplo para todo e qualquer jornalista. É na exposição da paixão pelo trabalho que a dupla de jornalistas está a fazer, na fome insaciável por chegarem à verdade, nas suas dúvidas e inquietações, na exploração do intrincado contexto que os envolveu, que o filme nos conquista, com Robert Redford e Dustin Hoffman a oferecerem-nos duas interpretações de grande nível, dando uma dimensão notável a estas duas figuras. Redford interpreta Bob Woodward, um jornalista de pouco relevo no Washington Post que conquista o direito a embrenhar-se neste caso, tendo ao seu lado Carl Bernstein, um "companheiro de armas". A dinâmica entre o duo surpreende, com os dois actores a surgirem credíveis, intensos e verdadeiramente empenhados em dar tudo de si e transformarem-se nos personagens a quem dão vida. Redford mais contido, mas nem por isso menos intenso. Hoffman eléctrico, seja pelo seu personagem ter vinte cafés no estômago ou pelo mesmo ter encontrado uma pista aparentemente relevante. Os dois são duas grandes peças numa admirável obra sobre um escândalo pouco brilhante da história norte-americana.
 Se o escândalo de Watergate simbolizou um dos vários períodos negros da História Norte-Americana, já "All The President's Men" simboliza um dos bons espécimes que nos surgem do seu cinema, tão órfão desta capacidade enorme de saber contar uma história de forma elegante, habilmente orquestrada, que dá espaço aos personagens para crescer, que sabe criar uma tensão gradativa na acção narrativa e no espectador e fazê-lo esquecer que já sabe o desfecho da narrativa. Mérito para Alan J. Pakula, que consegue extrair a emoção de cada momento, beneficiando não só de um subtil trabalho de fotografia, mas também de um argumento coeso de William Goldman (baseado no livro "All The President's Men" de Bernstein e Woodward), enquanto nos apresenta à investigação da dupla de protagonistas. Seja em conjunto ou em separado, Bernstein e Woodward atacam a investigação como se fossem dois cães esfomeados em busca de um naco suculento de carne, enquanto investigam, fazem telefonemas, entrevistam testemunhas, procuram convencer os elementos do jornal a apostarem no trabalho de ambos, enquanto lidam com a oposição do FBI, do Governo e contam com uma ajuda muito especial... o "Garganta Funda".
 "O Garganta Funda" é uma figura cujo nome pode ser associado a outro tipo de filmes, mas é um elemento fulcral para dar informações secretas a Bob Woodward. No filme nunca sabemos a sua verdadeira identidade, sendo um elemento constantemente coberto pelas sombras e pela pouca iluminação da garagem onde à noite se encontra com o personagem de Woodward. Estes encontros são um elemento chave na narrativa. Hal Holbrook surge discreto como esta figura misteriosa, que cede informações confidenciais mas pede para nunca revelar a sua identidade, algo que aconteceu na realidade, onde apenas vários anos depois se soube que este era Mark Felt, o número dois do FBI na década de 70. Os momentos destes encontros surgem de pura tensão: "quem se aproxima?" perguntamos muitas das vezes nós e certamente os personagens, enquanto é criado todo o ambiente de paranóia e desconfiança que nos leva a seguir com enorme inquietação este encontro. Não é apenas este encontro que surge recheado de tensão. Todo um clima de paranóia e insegurança é criado nas constantes entrevistas feitas pela dupla de protagonistas a testemunhas chave em todo o processo, um conjunto de momentos tensos, mas marcados por uma enorme sobriedade de gestos, iluminação e palavras, contrastando com o caos da redacção. Diga-se que essa dicotomia entre a redacção iluminada preenchida por alguns jornalistas obstinados pela descoberta da verdade e a garagem escura onde a insegurança reina é algo muito interessante de verificar, notando-se uma clara procura em criar esta dicotomia comportamental.
 O ambiente da redacção do Washington Post surge cheio de momentos memoráveis. Os personagens esgrimem argumentos, as teclas das máquinas de escrever ouvem-se incessantemente como que a clamar por terem nos pedaços da sua tinta os sonhos de jornalistas intrépidos, o telefone toca sem parar, os jornalistas andam numa azáfama, enquanto em todo este ambiente Redford e Hoffman ganham um elemento do elenco à altura, Jason Robards. Vencedor do Oscar de Melhor Actor Secundário (no ano seguinte voltaria a repetir a proeza pelo papel em "Julia"), Robard surge como Ben Bradlee, o editor-chefe do Washington Post, um homem audaz, com aparente mau feitio, que não gosta de confiar noutras pessoas mas acaba por apostar na dupla de jornalistas. Quem ganha a aposta é Alan J. Pakula ao procurar reproduzir estes eventos com algum rigor histórico, mesclando a história com algumas imagens de arquivo, enquanto nos apresenta a este nebuloso período da história norte-americana, sempre sem perder o valor de entretenimento, apresentando de forma apaixonada uma investigação com contornos memoráveis. Por vezes perde-se na procura minuciosa de apresentar uma investigação científica, um processo moroso, cheio de revezes, mas tudo é apresentado de forma tão apaixonada que é praticamente impossível não nos deixarmos embrenhar pela sua narrativa.
 Quando vamos ver um filme procuramos evitar spoilers sobre o mesmo e tudo o que nos possa estragar algumas das surpresas da narrativa. "All The President's Men" não tem como trunfo o factor surpresa. Já todos conhecemos ou pelo menos ouvimos falar do "caso Watergate". Alan J. Pakula sabe disso e contraria essa falta de "efeito surpresa" ao apresentar-nos uma investigação de forma intensa e apaixonada, oferecendo-nos uma dupla de protagonistas com uma dinâmica memorável e arquitectando uma obra onde toda a atenção ao pormenor é pouca. Ganha o desafio. Faz um clássico e dá-nos momentos verdadeiramente memoráveis.

Título original: "All The President's Men".
Título em Portugal: "Os Homens do Presidente".
Título no Brasil: "Todos os Homens do Presidente".
Realizador: Alan J. Pakula. 
Argumento: William Goldman.
Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Hal Holbrook.

2 comentários:

O Narrador Subjectivo disse...

Este filme é de uma precisão e de uma sobriedade fantásticas, gosto bastante. É também um caso que me fascina.

Aníbal Santiago disse...

Quase tudo parece resultar ao longo do filme. Concordo quando dizes que é um filme de uma precisão e de uma sobriedade fantásticas.

Cumprimentos