31 maio 2013

Resenha Crítica: "What Time is it There?" (Ni na bian ji dian)

 Os silêncios cortantes, o magnífico trabalho de fotografia, a solidão e alienação dos seres humanos nos espaços urbanos, a falta de banda sonora, os personagens que vivem em condições peculiares, a subliminar crítica social e a repressão sexual são alguns elementos que podemos encontrar nas obras de Tsai Ming-liang. Foi assim em filmes como "The River", "The Hole" e "Goodbye, Dragon Inn", é assim em "What Time is it There?". Logo nas cenas iniciais de "What Time is it There?" somos encantados e arrasados pelas imagens em movimento. Hsiao-kang encontra-se no interior de um carro, enquanto fala com os restos mortais do seu pai (Miao Tien). Atravessam um túnel que os levará a uma despedida. A nível das almas esta parece praticamente feita por parte do protagonista, mas a nível dos restos mortais nem por isso. Hsiao-kang despede-se num crematório budista onde guarda a urna com as cinzas do seu pai, as imagens são belas e tocantes, o plano magnificamente enquadrado, estático e longo como muito gosta o cineasta, mas inquieto nos sentimentos que extravasa. Posteriormente, descobrimos que Hsiao-kang é um vendedor de rua. Vende relógios que guarda numa mala enorme, um conjunto de objectos que assinalam o tempo, um tempo que é marcado no ecrã pelo conjunto de pessoas que deambula pelas ruas de Taipé, enquanto o protagonista se encontra no mesmo local à espera que um desses seres humanos se desvie para comprar os seus relógios.
 Aparece-lhe Shiang-chyi, uma bela mulher (Shiang-chyi Chen), que vai viajar para Paris. Pretende um relógio que pertence ao protagonista, devido a permitir dois fusos horários, e este não quer vender por acreditar que o objecto pessoal tem alguma ligação com o seu pai, uma simbologia associada à sua religião budista que contrasta com o cristianismo da cliente (a narrativa representa uma Taiwan onde convivem pessoas de diferentes religiões, de contrastes sociais, culturais e religiosos). Segundo Hsiao-kang, o facto de estar de luto pode trazer azar a quem adquirir o relógio, algo em que Shiang-chyi não se acredita. Hsiao-kang acaba por ceder, mas fica obcecado com o fuso horário de Paris e, arriscamos a dizer, por esta mulher. Não é o único a estar obcecado. A sua mãe vive a pensar no espírito do esposo, repetindo pequenos hábitos religiosos enquanto espera um sinal que nunca chega, em momentos que extravasam a dor que esta sente e nos comovem, como quando a personagem interpretada por Lu Yi-Ching pensa que o espírito do marido está no interior do peixe que têm em casa (após o filho ter colocado uma barata no aquário, uma situação que foi contra os rituais mencionados pelo monge que salientara para não fazerem mal a seres vivos no prazo de quarenta e nove dias pois o patriarca poderia reencarnar noutra espécie), um acto tocante mas, ao mesmo tempo, algo cómico (um dos bizarros momentos de humor das obras de Tsai Ming-liang). Esta quer a visita de um espírito, quer voltar a ouvir uma voz que não regressa, cumprindo uma série de rituais recomendados por um monge budista. No meio desta história encontramos a bela mulher que não encontra a felicidade em Paris, apesar de encontrar uma jovem oriunda de Hong Kong (Cecilia Yip) com quem inicialmente parece gerar alguma afinidade. A solidão assola os seus destinos, o relógio marca o passar do tempo mas o ritmo das suas vidas parece não acompanhar o avançar dos ponteiros, com o sexo ou a masturbação a surgirem em alguns momentos como meios libertadores das suas repressões, embora não os satisfaçam na totalidade, enquanto as suas existências parecem surgir pueris diante do tempo que continua a avançar de forma inexorável e a dizer que nada podem fazer para o travar.
 Ao longo de "What Time is it There?" nem sempre compreendemos estes personagens. Não é suposto conseguirmos. Tsai Ming-liang coloca as imagens em movimento a dialogar connosco, obriga-nos a interpretar, a viver o filme, a sermos hipnotizados para o interior destes planos que ganham vida enquanto os percepcionamos, a compartilhar os momentos com os personagens e a sentirmos o que estes sentem, a embrenhar-nos por este mundo narrativo e a tentar preencher aquilo que as imagens e os diálogos nem sempre nos oferecem. Os diálogos são reduzidos ao máximo, enquanto as obsessões e a solidão são exacerbadas. Este é um filme sobre obsessões, quer estas sejam a de uma mulher obcecada com o regresso de um espírito, ou de um homem em alterar as horas dos relógios para o fuso horário de Paris devido a uma figura feminina que não chegou realmente a conhecer, ou de uma mulher que pretende ser feliz na capital francesa. A relação entre Hsiao-kang e a mãe é algo conturbada, com este a nem sempre parecer compreender a mesma, naquela que foi a terceira obra cinematográfica onde encontramos Lee Kang-sheng, Lu Yi-Ching e Miao Tien a interpretarem uma família. Miao Ten aparece apenas nos momentos iniciais do filme a interpretar o pai do protagonista, com este a surgir solitário no interior da própria casa, até descobrirmos que faleceu. A casa onde Hsiao-kang e a mãe habitam é a mesma que encontráramos em "Rebels of the Neon God" e "The River", embora a decoração do cenário seja relativamente distinta. Veja-se que nos dois filmes citados tínhamos uma panela vermelha na sala, enquanto em "What Time is it There?" encontramos o utensílio em tom verde, já para não falar no aquário com o peixe e a decoração associada aos rituais religiosos. A temática das relações familiares intrincadas já tinha sido abordada em "Rebels of Neon God" e "The River", algo que volta a acontecer em "What Time is it There?", com Tsai Ming-liang a voltar ainda a abordar temáticas como a alienação no espaço urbano e a solidão através do seu trio de protagonistas. No fundo, estes são três seres solitários, alienados da sociedade, sexualmente reprimidos, que travam lutas quixotescas para serem felizes, são pessoas prontas a errarem e a amarem, que encontram em "What Time is it There?" o palco ideal para terem a atenção que lhes é devida.
  Tsai Ming-liang volta a apresentar-nos uma obra belíssima composta por seres humanos desencantados com os seus destinos, que procuram sobreviver e enfrentar à sua maneira os problemas das suas vidas. O destino nem sempre lhes é agradável, mas Tsai Ming-liang consegue atribuir sempre uma réstia de esperança nos mesmos, enquanto nos apresenta ao seu quotidiano e ao de Taipé, uma cidade que, tal como Paris, se torna palco primordial da solidão dos personagens. Esta é uma obra onde muito e pouco acontece. Muitos sentimentos, muitas emoções que são transmitidas, muitos acontecimentos que ocorrem, mas poucos diálogos. As falas surgem nos gestos e olhares, nas imagens em movimento belissimamente esculpidas e enquadradas, com Tsai Ming-liang a aproveitar ainda de forma sublime a paleta cromática (veja-se os tons vermelhos na casa de Hsiao-kang e da mãe), num filme que é um deleite para os sentidos. Para o enredo funcionar, muito contribui o desempenho de Lee Kang-sheng, um colaborador habitual de Tsai Ming-liang que ao lado de Chen Shiang-chyi e Lu Yi-Ching apresentam interpretações sublimes, que nem a participação especial de Jean-Pierre Léaud ofuscou, uma presença que se encontrou inserida na homenagem a "The 400 Blows", a obra escolhida pelo protagonista para se iniciar na filmografia francesa (a ida de Shiang-chyi para Paris parece ter gerado uma obsessão em Hsiao-kang por tudo o que se encontra relacionado com a França, algo que o faz recordar-se da jovem misteriosa que lhe comprou o relógio). Mas a melhor homenagem que Tsai Ming-liang pode fazer a François Truffaut e à Sétima Arte é continuar a elaborar obras cinematográficas magníficas e tão raras de se encontrar nas salas de cinema como "What Time is it There?"

Título original: “Ni na bian ji dian”.
Título em inglês: “What Time is it There?”
Realizador: Ming-liang Tsai.
Argumento: Ming-liang Tsai e Pi-ying Yang.
Elenco: Kang-sheng Lee, Shiang-chyi Chen, Yi-Ching Lu, Jean-Pierre Léaud.



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