16 maio 2013

Resenha Crítica: “A Vida de Outra Mulher” ("La Vie d'une Autre")

 O que faria se eventualmente perdesse parte da sua memória recente? Entraria em pânico? Procuraria saber o que lhe aconteceu? Quem é que iria contactar? Marie (Juliette Binoche), a protagonista de "La Vie d'une Autre", depara-se com uma situação deveras estranha. Nas primeiras cenas, encontramos Marie relativamente optimista em relação ao seu futuro a nível profissional, desfrutando uma ardente noite de sexo com Paul (Matthieu Kassovitz). Quando acorda, esta entra em pânico. Ao ver-se ao espelho encontra uma mulher de 40 anos e não de 25. Ao sair do quarto depara-se com o seu filho que não conhece. O pânico é visível no seu rosto, embora esta tente esconder os seus sentimentos. Marie perdeu a memória dos últimos 15 anos da sua vida. O que se passou entretanto? Marie lidera uma poderosa firma de investimentos mas não sabe o que fazer na mesma, tem uma casa com vista para a Torre Eiffel, tem um casamento à beira da ruptura embora ainda pense que está na fase "Lua de Mel" da relação, procura um médico mas o especialista apenas a pode atender na próxima semana. O que esta decide fazer? Prosseguir a sua vida sem avisar ninguém, algo que promete trazer muitas confusões.
 Estas temáticas poderiam ser exploradas e utilizadas por Sylvie Testud, quer para dar um tom cómico, quer para dar um tom dramático à narrativa, mas o resultado final deambula entre o ridículo, o bem intencionado e o romântico, com o argumento a revelar enormes debilidades em explorar as temáticas e a cair em excessivas repetições. O filme usa e abusa de ter Marie como "o peixe fora de água", que procura esconder de tudo e todos que não sabe quem realmente é no presente, que se esqueceu do seu emprego, da sua relação, do seu país e do seu filho, algo que até pode ter piada esporadicamente mas perde-se nas constantes repetições, sem que percebamos muito bem porque é que esta não pede ajuda a alguém (a não ser a uma amiga que já não fala à 10 anos e não lhe atente o telemóvel). Esse é um dos momentos alienadores do filme. Porque é que Marie continua a seguir com a sua vida sem revelar a ninguém o seu problema? Sem justificar plenamente esta opção, "La Vie d'une Autre" concentra as suas atenções na procura de Marie em descobrir-se a si própria, enquanto procura lidar com novas tecnologias como telemóveis, a entrada em cena do euro, entre outros elementos. 
 As descobertas que Marie faz de si própria não são as mais agradáveis. Esta perdeu aquele entusiasmo juvenil, passou a viver para o trabalho, descurou a vida familiar, tem um amante e poucos amigos. Diga-se que a narrativa consegue ser sempre bem mais assertiva a explorar este choque de Marie com a realidade e as mudanças que conheceu ao longo do tempo, explorando algo que é comum não só a Marie mas a várias pessoas, do que a apresentar a protagonista num frenesim de mal-entendidos. Quantos de nós não olhámos para trás e pensámos no que mudámos ao longo do tempo? Será que mudámos para melhor? No caso de Marie, a resposta parece ser negativa, enquanto o filme apresenta a habitual mensagem anti-capitalista e sempre bonita de se fazer de que o dinheiro não traz felicidade. Para a protagonista, o dinheiro, o sucesso profissional e o poder que foi conquistando apenas a foram afastando gradualmente do marido, Paul Speranski (Matthieu Kassovitz), um cartoonista que está prestes a lançar o seu primeiro livro e também mantém um affair. A relação entre Paul e Marie é fria. Aos poucos percebemos que os anos de casamento não foram bons para a relação entre ambos, com os erros do passado a toldarem as hipóteses de sucesso da relação. Marie tenta recuperar o tempo perdido, quase sempre num tom muito naïve e bem intencionado, pronta a refazer a sua vida, mas os maus momentos são muito mais difíceis de esquecer para Paul, que não perdeu a memória e surge relutante em aceitar esta mudança comportamental da esposa, algo que proporciona alguns momentos tensos entre ambos, onde o amor tem uma enorme dificuldade em ressurgir.
 Com uma premissa interessante, "La Vie d'une Autre" vagueia entre o romance, a comédia pouco eficaz e o drama, perdendo-se em demasiadas redundâncias que pouco acrescentam ao filme, tendo alguma dificuldade em explorar as temáticas que apresenta. Um exemplo paradigmático dessa situação centra-se no confronto entre a "Marie de hoje" e a "Marie do passado", parecendo algo forçado quando esta procura constantemente agir como se estivesse no passado e a ignorar as informações que descobre sobre a sua pessoa e aqueles que a rodeiam, com o filme a tratar muitas das vezes a personagem como se fosse "meio pateta", quando estamos perante um caso bem mais complexo e delicado. Apesar das debilidades do seu argumento, "A Vida de Outra Mulher" beneficia do facto de contar com uma actriz carismática como protagonista, com Juliette Binoche, a ser capaz de expor com enorme credibilidade as inquietações da sua personagem, enquanto esta contacta com uma nova realidade. Binoche surge bem acompanhada por Matthieu Kassovitz, que no último terço apresenta uma dinâmica bem interessante com a colega de elenco, explorando a dificuldade de Paul em lidar com as mudanças recentes da esposa, que o fazem recordar da mulher por quem se apaixonou e proporcionam alguns momentos de doce romantismo. Kassovitz e Binoche são dois elementos talentosos, que salvam o filme de males maiores, mas não chegam para tirar "A Vida de Outra Mulher" da mediania, sendo tudo muito superficial e demasiado leve, como se existisse algum medo em arriscar e problematizar as temáticas que nos apresentam.

Classificação: 2 (em 5).

Título original: La Vie d'une Autre.
Título em Portugal: “A Vida de Outra Mulher”.
Realizador: Sylvie Testud.
Argumento: Sylvie Testud e Claire Lemaréchal.
Elenco: Juliette Binoche, Matthieu Kassovitz, Aure Atika, Danièle Lebrun.

Crítica revista a 28 de Agosto de 2013.

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