06 maio 2013

Resenha Crítica: "Cold War"

  "Cold War" não é um filme sobre a Guerra Fria entre os Estados Unidos da América e a União Soviética, mas sim sobre uma operação especial para resgatar cinco agentes das autoridades que foram raptados em Hong Kong. No início do filme somos colocados perante um conjunto de cenas que colocam em causa a paz e a ordem de Hong Kong, adensadas por alguns planos reveladores desse ambiente desconcertante, não faltando um plano aéreo magnífico, onde nos deparamos com a exposição da cidade. Pouco tempo depois, o departamento da polícia de Hong Kong recebe uma chamada a avisar que um veículo com cinco elementos das forças de segurança, mais o seu equipamento, foi sequestrado. Com o comissário Tsang em Copenhaga, M.B. Lee (Tony Leung) assume o controlo das operações, procurando saber como foi possível a ocorrência deste ataque terrorista, colocando a hipótese de existir um informador no interior do departamento ou um erro grave no sistema de comunicação, não descurando alguma incompetência dos seus homens. Entre os elementos que foram feitos reféns encontra-se o filho de Lee, o comissário da polícia responsável pela divisão, que cedo desenvolve todos os esforços para descobrir o paradeiro dos desaparecidos, mesmo que tenha de infringir algumas leis, algo que leva à entrada em cena de Sean Lau (Aaron Kwok), outro dos elementos das autoridades a investigar o caso, gerando-se uma rivalidade entre estes dois homens. Perante a possibilidade de Lee estar a conduzir o caso para o plano pessoal e a utilizar métodos pouco correctos, Lau decide reunir apoios e tomar o cargo do seu superior, indo embrenhar-se nesta perigosa teia de intrigas onde nem todos podem ser tão inocentes como parecem. Muito se desenrola nos escritórios do Departamento da Polícia, gerando-se dúvidas em relação ao carácter de vários elementos, enquanto o tempo para salvar os agente urge e "Cold War" coloca-nos perante um conflito entre as autoridades de Hong Kong e um grupo de criminosos e até entre as próprias forças das autoridades entre si. Quando a narrativa sai dos escritórios, a tensão aumenta, sobretudo quando Sean Lau procura negociar com os raptores, não faltando tiroteios, perseguições, mind games e muita inquietação, enquanto Longman Leung e Sunny Luk desenvolvem um thriller ambicioso, que procura ainda abordar as relações de poder entre a China e Hong Kong, ao mesmo tempo que não têm problemas em expor (excessivamente) o discurso de que esta é a cidade mais segura da Ásia.

  Entre as intrigas e jogos de poder, algumas reviravoltas surpreendentes, muita tensão e alguma emoção, "Cold War" revela-se um thriller muito preocupado em evidenciar as disputas de poder no interior das forças policiais de Hong Kong e a burocracia no interior das autoridades, embora descure muitas das vezes a exposição da situação dos reféns, enquanto coloca Aaron Kwok e Tony Leung em plena evidência, com os prestigiados actores a proporcionarem alguns momentos de grande intensidade (veja-se quando falam em simultâneo com enorme ferocidade quando Lee está prestes a ser colocado fora do caso), ao interpretarem dois comissários que mantêm uma relação de respeito e rivalidade, enquanto disputam o cargo de líder da operação "Cold War". Lee e Lau simbolizam dois tipos de comissários com modos de pensar e ideais antagónicos, quase como se representassem um pouco da nova e antiga polícia de Hong Kong, de uma polícia mais pronta a agir em contraste com uma polícia mais burocratizada, ao mesmo tempo que a razão e o coração parecem toldar-lhes as suas acções. Lee é o comissário que parece disposto a tudo para obter os resultados, incluindo desrespeitar as regras e os jogos burocráticos, em parte motivado pelo seu filho estar entre os reféns, enquanto Lau é um indivíduo que se procura guiar pelas regras, um burocrata que sabe "mexer-se" pelos meandros da burocracia. Aaron Kwok surge mais uma vez com uma interpretação bom nível, ao interpretar um indivíduo ambicioso que procura seguir as regras, mesmo que estas coloquem a sua ética e moral pessoal em causa, ao mesmo tempo que procura a todo o custo assumir o comando de uma operação intrincada, que não estava destinada a ser coordenada pela sua pessoa. Vale ainda a pena realçar o papel de Aarif Rahman como Billy K.B. Cheung, o investigador principal do ICAC, a Independent Commission Against Corruption, uma unidade independente, cujo lider é escolhido pela China desde que Hong Kong regressou para a administração chinesa. Cheung é um indivíduo independente das forças das autoridades, investigando Lee e Lau, num caso que explora também o funcionamento de poder no interior de Hong Kong, onde esta unidade separada procura exercer de forma correcta as suas funções, enquanto se procura que as leis do território sejam respeitadas.

“Cold War” coloca-nos assim perante os meandros das forças das autoridades e dos escritórios do Departamento da Polícia de Hong Kong, explorando as disputas internas de poder, discussões e dúvidas que ocorrem durante a investigação a um caso que se revela algo nebuloso, onde não faltam traições, acusações de corrupção e violência, numa história que não se afasta, nem inova em relação aos filmes do género, mas nem por isso consegue deixar de prender a nossa atenção. Se alguns dos diálogos, cenas de acção e reviravoltas da narrativa, incutem alguma intensidade ao enredo, não deixa de ser notório que os estreantes Longman Leung e Sunny Luk tropeçam em demasia quando começam a tentar "colocar o Rossio na rua da Betesga", incluindo vários personagens secundários que pouco acrescentam, atirando com informação atrás de informação nem sempre explorada, resultando em alguns momentos num desperdício do talentoso elenco que têm entre mãos (não falta o popular e mui talentoso Andy Lau numa participação especial). No entanto, saliente-se a ambição da dupla, que desenvolve ainda um conjunto de cenas de acção bem elaboradas e um último terço intenso, marcado por algumas reviravoltas capazes de surpreender, onde as tensões intensificam-se, enquanto a várias vezes apregoada “cidade mais segura da Ásia” revela-se palco de uma conspiração no interior da polícia e um ataque terrorista que colocam em casa essa ideia. Diga-se que raramente existe uma exploração assertiva dessa possibilidade de existir um traidor no interior da polícia, com a dupla de realizadores a parecer querer fazer algo parecido com “Infernal Affairs”, embora muito saia ao lado. Apesar de nunca inovar a nível narrativo e de nos dar sempre aquela sensação de "já vi isto em algum lado", "Cold War" conta com uma história que facilmente desperta a atenção do espectador e um trabalho de fotografia bem interessante (as cenas nocturnas com os edifícios iluminados por néones são belíssimas), apresentando um thriller emotivo, com um excelente elenco, que sobressai pela sua capacidade de explorar os meandros das autoridades de Hong Kong.

Título original: Hán Zhàn.
Título em inglês: “Cold War”.
Realizador: Longman Leung e Sunny Luk.
Argumento: Longman Leung e Sunny Luk.
Elenco: Aaron Kwok, Tony Leung, Charlie Young, Gordon Lam, Chin Kar-Iok, Andy Lau.

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