30 maio 2013

Resenha Crítica: "Before Midnight" (Antes da Meia-Noite)

  Muitas das vezes associamos as sequelas a falta de criatividade no mundo do cinema e a filmes que nada acrescentam às obras anteriores. "Before Midnight" mostra-nos que nem sempre esta situação é verdadeira, sendo uma lufada de ar fresco nas estreias cinematográficas de 2013, num dos raros casos de uma sequela que tem coragem para tomar opções que podem não agradar a todos os fãs, desenvolver os seus personagens e manter a essência das obras anteriores. Novamente realizado por Richard Linklater e protagonizado pela dupla formada por Ethan Hawke e Julie Delpy, "Before Midnight" acompanha alguns momentos marcantes de Jesse e Céline, nove anos depois do final em aberto de "Before Sunset". Jesse e Céline ficaram juntos e encontram-se de férias na Grécia, tendo a companhia das suas duas filhas. É verdade, Jesse e Céline finalmente estão juntos, têm duas gémeas e parecem viver momentos felizes nas idílicas paisagens gregas, que escondem uma Grécia em crise. Jesse continua a trabalhar como escritor, preparando o seu quarto livro, após o sucesso das suas duas primeiras obras, onde constavam elementos da sua relação com Céline. Por sua vez, Céline vive numa indefinição entre continuar a trabalhar numa organização não governamental (ligada à defesa do ambiente) ou aderir a um projecto ligado ao Governo, a convite de um amigo.
 A primeira vez que encontramos Jesse, este encontra-se a despedir-se de forma sentida do filho que tem da ex-mulher, enquanto este último parte em direcção aos Estados Unidos da América. Seguidamente, somos apresentados a um longo plano onde encontramos Jesse, Céline e as duas filhas, enquanto o casal fala sobre situações quotidianas, relacionadas com a situação profissional de ambos, o futuro das filhas, apresentam alguns dos acontecimentos que marcaram os últimos nove anos, tudo com algum humor e uma enorme química entre Ethan Hawke e Julie Delpy. Jesse e Céline parecem felizes, mas a vida idílica de ambos encontra um certo paralelismo com a Grécia que habitam temporariamente, ou seja, um vulcão de emoções prestes a explodir, algo que promete nem sempre ser agradável de acompanhar.
  O casal encontra-se no território a convite de Patrick (Walter Lassally), um admirador dos livros de Jesse, tendo ainda a companhia de outro casal com a sua idade e de um casal de adolescentes nos idílicos cenários gregos. No entanto, nem tudo vai bem entre o casal, algo visível quando a meio de uma conversa no interior do automóvel, Céline salienta que não quer ir viver em Chicago. A família vive em Paris e pelo que percebemos nem tudo são rosas. Se nos dois filmes anteriores o grande desafio para Jesse e Céline era manterem-se mais do que umas horas juntos, em "Before Midnight" é manterem-se juntos para toda a vida, é manterem acesa a chama da paixão que os uniu, enquanto procuram enfrentar o inevitável desgaste de uma relação, algo que conduz a um intenso e inesquecível último terço, onde os sentimentos contidos são extravasados e trazem consigo palavras pouco doces.
 Poderá uma saga manter a mesma vivacidade e qualidade ao chegar ao seu terceiro filme? "Before Midnight" diz-nos que sim e ainda tem o condão de nos deixar a querer ver mais (que bom quando esta situação acontece). Com um argumento magnífico, pontuado por diálogos profundamente humanos e bem elaborados, "Before Midnight" volta a beneficiar da enorme química entre Julie Delpy e Ethan Hawke, enquanto coloca a dupla de protagonistas a lidar com uma relação profundamente humana, mostrando que estes são comuns mortais, que amam, erram, magoam, choram, riem, e acima de tudo apaixonam-nos. Se em "Before Sunrise" e "Before Sunset" éramos conduzidos para o interior da história de amor impossível entre estes dois personagens sonhadores, em "Before Midnight" somos atraídos para o interior da procura destes em continuarem juntos. Esta é uma procura nem sempre agradável. Nenhum casal é perfeito. Céline e Jesse também não são, algo que provam constantemente ao longo do filme.
 É de uma coragem extrema a decisão tomada por Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke de destruírem aquele ideal do amor perfeito que tínhamos do casal para nos mostrarem que até o mais belo dos amores pode estar em perigo. Jesse e Céline amam-se. Nós percebemos isso, os personagens também, embora estejam mudados. Se em "Before Sunset" descobrimos que Céline e Jesse já não são dois jovens sonhadores na casa dos vinte e poucos anos, mas sim dois adultos com responsabilidades, que tomaram opções nem sempre felizes para as suas vidas, já em "Before Midnight" descobrimos que estes são pais de duas gémeas e cometeram vários erros ao longo dos anos que estiveram afastados de nós, mas juntos numa relação amorosa. Jesse e Céline voltam a partilhar emotivos diálogos sobre banalidades, mas percebemos que estes são momentos cada vez mais raros, trocam cumplicidades, embora a vida de ambos cada vez esteja mais virada para as duas filhas e para questões profissionais, para além de terem de lidar com o facto de Jesse aceitar cada vez menos viver longe do filho. Ao contrário dos filmes anteriores, Céline e Jesse partilham diálogos com outros personagens ao longo de "Before Midnight", embora logo a narrativa os deixe a sós.
 Quando estes estão a sós, logo regressam as memórias que tínhamos dos filmes anteriores. No entanto, estes não são os mesmos, algo que percebemos quando se envolvem numa longa discussão, que é duríssima para ambos e para o espectador, uma discussão que não nos poupa a momentos desagradáveis e incómodos, de profunda humanidade, uma humanidade que chega a doer, enquanto assistimos a um casal a lidar com problemas reais. Por vezes sentimo-nos atraídos pelos romances efusivos, que acabam com um "felizes para sempre", mas "Before Midnight" mostra-nos o outro lado desse final, expõe-nos o "procuram manter-se juntos para sempre", uma procura difícil e espinhosa, que beneficia das excelentes interpretações de Ethan Hawke e Julie Delpy. Ambos estão mais velhos, bem como os seus personagens, mas mantêm o carisma e a enorme química apresentada nos outros filmes. A personagem de Delpy surge mais insegura, quer em relação à sua profissão, quer em relação ao seu amor por Jesse, com a maternidade a ter afectado e muito a relação entre ambos. Jesse surge espirituoso e sonhador como sempre, com Ethan Hawke a ser mais uma vez brilhante na composição deste personagem, que procura ser um bom pai, um bom marido e ter sucesso no seu quarto livro, após ter fracassado na sua terceira obra.
 Quem não fracassa é Richard Linklater que nos apresenta a uma obra cinematográfica que é um hino ao cinema independente norte-americano, um hino aos casais que têm a coragem de procurar manter viva a chama do amor e um hino à simplicidade. Com um reduzido número de personagens, um belíssimo trabalho de fotografia que é capaz de captar subtilmente os vários locais da Grécia por onde passeiam os personagens, uma história magnificamente elaborada, um excelente conjunto de diálogos e uma banda sonora adequada, "Before Midnight" é muito mais do que poderíamos esperar do terceiro filme da saga de Jesse e Céline. Dá muito mais porque não se limita a repetir a fórmula. É verdade que os personagens mantêm as suas essências, partilham diálogos simples e profundamente humanos, mas lidam com novos e inesperados desafios, que passam não só por assumirem o papel de pais, mas também por tentarem manter viva a chama do amor.
 Jesse e Céline deixaram de se ver numa noite de nove em nove anos para se verem durante todas as noites. A ansiedade por viverem cada segundo como se fosse o último foi substituída pelo comodismo de uma relação que cai numa perigosa rotina. A relação entre ambos ficou gravada nos dois primeiros livros de Jesse, mas continua a ser escrita por ambas na realidade. Uma realidade que é dura e por vezes cruel, que nos incomoda, que nos tira da zona de conforto dos romances lamechas para nos mostrar aquilo que é um casamento/relação na vida real, onde um casal procura amar-se e aceitar os defeitos um do outro, embora nem sempre consiga. Será que vale a pena lutar por manter uma relação de longa duração? Céline e Jesse dizem-nos que sim e aproveitam para voltar a mostrar o porquê de serem dois dos personagens mais carismáticos das carreiras de Ethan Hawk e Julie Delpy. Entre o romance e o drama profundamente humano, "Before Midnight" transporta-nos para os belos cenários da Grécia para nos dar a conclusão merecida para uma trilogia simplesmente brilhante, onde um casal procura manter a paixão que os uniu, enquanto nos faz torcer para que tudo dê certo entre ambos.

Classificação: 5 (em 5). 

Título original: “Before Midnight”.
Título em Portugal: “Antes da Meia-Noite”.
Realizador: Richard Linklater.
Argumento: Richard Linklater, Julie Delpy, Ethan Hawke.
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Xenia Kalogeropoulou, Walter Lassally.

4 comentários:

Anónimo disse...

Conto vê-lo brevemente. Como já falámos aqui antes sobre os dois primeiros filmes que acho que gostámos por igual e pelas mesmas razões, confio plenamente na tua apreciação, e já vou mais tranquilo.

Aníbal Santiago disse...

Eu gostei bastante e pretendo ver de novo na sala de cinema. O filme encanta-nos quando encontramos Céline e Jesse a falar sobre banalidades, faz-nos doer o coração quando os encontramos a discutir e a apresentarem um certo desgaste natural da relação, mas acaba por nos conquistar como as obras anteriores. Confesso que era capaz de ficar horas a fio a acompanhar estes dois personagens a falar.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Já vi. Concordo com tudo o que dizes.

A princípio uma coisa me preocupava. Aquela urgência em partilhar e descobrir que marcava os dois primeiros filmes poderia não mais fazer sentido agora que eles estavam juntos há tanto tempo.

Mas o filme deu bem a volta a isso, tanto pela inclusão das conversas de grupo, como pelo lado mais "violento" da troca de ideias.

Mais uma vez vi-os como se tivessem tudo a ver comigo, e mais que isso é impossível dizer.

Aníbal Santiago disse...

Obrigado pelo comentário. O filme apresenta uma evolução corajosa na saga, quase que levando a parecer que estava tudo pensado desde o primeiro filme.

Um filme para ver e rever, daqueles que não se esquecem e marcam. Espero que se voltem a reunir para mais filmes. Se for para elaborarem obras desta qualidade, o cinema só fica a ganhar e eu estarei com o mesmo entusiasmo de sempre para voltar a encontrar o Jesse e a Céline.

Cumprimentos