25 abril 2013

Resenha Crítica: "Yumen"

 Realizado por Huang Xiang, J.P. Sniadecki e Xu Ruotao, "Yumen", apresenta-os à cidade situada no noroeste da China, que dá título ao filme. Local aparentemente desértico, esta cidade estivera outrora cheia de vida graças à exploração petrolífera no local. Sem essa indústria, "Yumen" perdeu parte dos seus habitantes, do seu movimento, da sua vida, algo que nos é paradigmaticamente demonstrado por esta obra que vagueia entre o documentário e a ficção, para nos apresentar uma cidade habitada por "fantasmas". Não estamos a falar em fantasmas no sentido literal do termo, mas sim num conjunto anónimo de seres humanos que vagueia aparentemente sem grande rumo por esta cidade, procurando lutar por uma dignidade nem sempre aparente, numa obra nem sempre fácil de acompanhar.
 Não espere encontrar uma narrativa completamente convencional em "Yumen". O trio formado por Xiang, Sniadecki e Ruotao joga com as convenções, vagueia pelos caminhos do experimentalismo, procura explorar as sensações do espectador, "obriga-o" a interpretar as imagens em movimento e "habitar" esta cidade, embora se perca em demasia nas suas ambições. Se é de elogiar a forma como o trio de cineasta procura captar a "alma" desta cidade e a forma como esta contamina aqueles que por lá ficaram, o mesmo não se pode dizer da procura em abordar as temáticas ao de leve, perdendo-se em pretensiosismos narrativos que podem encontrar o seu público nos festivais de cinema mas terão vida difícil fora dos mesmos.
 Entre a ficção e o documentário, recheado de interpretações minimalistas que adensam a sua faceta documental, "Yumen" procura explorar com alguma poesia o interior de uma cidade no seu ocaso, após uma pujança no passado. De acordo com a sinopse do filme, há cinquenta anos Yumen tinha cerca de 130 mil habitantes, dos quais já saíram cerca de 90 mil. É muita gente, tendo saído sobretudo a mão de obra activa, após os recursos petrolíferos do local terem sido exauridos, algo que levou a um desinteresse político, económico e social no território, com aqueles que resolveram permanecer no local a conhecerem as consequências. "Yumen" nunca nos chega a apresentar verdadeiramente os habitantes da cidade, procurando explorar apenas pequenos momentos destes, seja a pintar na parede vazia, a deambular pelas ruas desertas, elementos anónimos de um espaço árido marcado pelo desgaste do tempo e pelo esquecimento a que foi votado. 
 Seres humanos, edifícios e máquinas surgem isolados da azáfama de outrora, alienados e votados ao esquecimento, sendo contaminados por memórias de um passado que não tem correspondência no presente, procurando viver, sonhar, encontrar uma dignidade passada, ou seja, sobreviverem. Esta "cidade fantasma" que nos é apresentada em "Yumen" abre ainda espaço para serem levantadas questões relacionadas com outras cidades e até nações,que, apesar de nos dias de hoje prosperarem devido aos negócios petrolíferos, poderão um dia conhecer uma realidade semelhante se não forem criadas estruturas que permitam a sua sustentabilidade fora dos negócios de "ocasião". Este é um desafio para o qual nem todas as cidades estarão à altura, nem todas as nações, sendo "Yumen" uma gota no oceano, que surge poeticamente apresentada nesta obra cinematográfica. Cidade fantasma, onde as almas vagueiam em busca de um destino digno, Yumen tem no filme homónimo uma obra poética e pretensiosa, que surge como uma importante janela de reflexão sobre estes espaços citadinos votados ao esquecimento.

Classificação: 3 (em 5). 

Título original: "Yumen".
Realizador: Huang Xiang, J.P. Sniadecki e Xu Ruotao.
Argumento: Huang Xiang, J.P. Sniadecki e Xu Ruotao.
Elenco: Chen Qi, Chen Xuehua, Huang Xiang, Xu Ruotao, Zhou Qian.  


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