26 abril 2013

Resenha Crítica: "Under African Skies"

 "Under African Skies" não se limita à mera representação simbólica do regresso de Paul Simon à África do Sul, 25 anos após a gravação do polémico álbum "Graceland", e à mítica deslocação do cantor ao território. É verdade que encontramos alguma nostalgia e episódios "decorativos" pelo regresso de Simon ao território, mas "Under African Skies" destaca-se por nos dar quase tudo aquilo que poderíamos esperar do documentário e até um pouco mais. Não falta a representação de um contexto político e social da época, a visão dos intervenientes sobre os acontecimentos, muita música, boa utilização de materiais de arquivo, depoimentos interessantes, uma notória investigação, tudo num ritmo fluido numa obra que surpreende pela sua grande maturidade, com Joe Berlinger a realizar um documentário muito acima da média. 
  Causador de grande polémica aquando do seu lançamento em 1986, "Graceland" revelou-se uma das obras mais marcantes de Paul Simon, tendo resultado de uma fusão de culturas, entre a música pop norte-americana e a música africana, uma obra apaixonante da qual temos a oportunidade de conhecer um pouco dos bastidores da sua elaboração, os sentimentos que envolveram os seus protagonistas, o contexto político e social da época e acima de tudo a paixão pela música que unia todos os participantes deste projecto. Essa paixão passa claramente para o espectador que se encontra a assistir a "Under African Skies", enquanto Paul Simon revela esse sentimento tão belo pela sua profissão, pela música e pelos seus colegas, explorando nos seus depoimentos temáticas que vão desde as polémicas relacionadas com a sua ida à África do Sul quando as Nações Unidas tinham proibido os artistas de viajarem para o país num modo de isolar o regime do Apartheid, a formação da banda para gravar o CD, a liberdade criativa que teve após o fracasso comercial de "Hearts and Bones", a escrita das músicas, os ensaios, entre outros temas. 
 Mas não é só Paul Simon e a gravação do disco o centro de "Under African Skies". A força do documentário é exactamente essa, de não ficar pela mera ilustração e abordar de forma interessante, informada e até problematizante as questões que envolveram a elaboração do disco, em particular o contexto político problemático. Em jogo não estava só o lançamento de um disco, mas todo um debate em volta da quebra de Simon do embargo das Nações Unidas, vista na época quase como um "apoio" do músico ao regime do Apartheid quando a questão era exactamente o contrário. Paul Simon no seu disco não procura engolir a cultura africana mas sim mesclá-la com o seu ritmo, procura uma colaboração artística entre seres humanos com cultura distintas, mas iguais na sua essência, não surgindo distinguidos pela cor da pele. Curiosamente, ou talvez não, este acto de Paul Simon foi visto como algo quase imperialista, como se o rapaz yankee branco quisesse explorar os negros, ou fosse um mero capricho do cantor, quando na verdade este apenas sentia uma intensa admiração pela música africana. 
  Apesar desta convulsão, que tornou Paul Simon quase como uma persona non grata junto das Nações Unidas, suscitando boicotes aos seus concertos e protestos populares, a verdade é que no seio dos artistas sul africanos esta colaboração era uma oportunidade de expressarem uma voz, era uma oportunidade de mostrar o talento destes artistas negros. E este é um ponto interessantíssimo, com Paul Simon a quebrar algumas barreiras culturais, embora tenha sido muito criticado, mas, como salienta um dos seus críticos da época, afinal estava à frente do seu tempo. A todo este debate recheado de conteúdo encontramos ainda aqueles momentos emotivos centrados no regresso de Paul Simon à África do Sul, o seu reencontro com artistas sul africanos como Ray Phiri (guitarra), Isaac Mtshali (bateria), Barney Rachabane (saxofone), Vusi Khumalo (baterista de "Graceland"), Bakithi Kumalo (baixista), entre outros, bem como depoimentos de elementos como Dali Tambo, o fundador dos Artistas contra o Apartheid, e o lendário Sir Paul McCartney. 
 No meio de todos estes depoimentos quem sobressai mais é Paul Simon. É óbvio que o documentário serve como uma homenagem ao cantor e claramente apresenta uma postura favorável em relação ao mesmo, mas é impossível não reparar em toda a alegria, dedicação e amor que este tem pela música e o respeito que tem pelos colegas de profissão. Esse respeito levou-o a conquistar o apreço e a ser respeitado por muitos dos seus pares, incluindo os elementos dos Ladysmith Black Mambazo, que colaboraram com Simon em "Graceland" e conquistaram o Mundo com a sua música, em grande parte graças a esta colaboração que alavancou a sua carreira internacionalmente. Escrever mais sobre "Under African Skies" é estragar o visionamento do leitor, não só por se poder revelar em demasia, mas também porque as palavras são incapazes de descrever os sentimentos vibrantes que passa este magnífico documentário, que partilha o título com uma das várias músicas apaixonantes de Paul Simon. Nota-se que Joe Berlinger sabe o que faz, o caminho que quer seguir e como abordar esse caminho, desenvolvendo uma obra cujo valor vai muito além da nostalgia do regresso de Paul Simon à África do Sul. "Under African Skies" revela-se um documentário informativo, emotivo, intenso e simplesmente inesquecível. Sem quaisquer reservas, uma das melhores obras cinematográficas do IndieLisboa 2013.

Classificação: 4.5 (em 5).
Título original: "Under African Skies".
Realizador: Joe Berlinger.

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