22 abril 2013

Resenha Crítica: "Thy Womb" (Sinapupunan)

 O nascimento de um bebé é visto como um momento quase sagrado, único e indescritível. Nos romances açucarados, este é um momento de grande felicidade, em "Thy Womb", o novo filme de Brillante Mendoza, este é um momento de provocação e até algum incómodo. Desde logo porque o cineasta não poupa nada nem ninguém nesta cena inicial e mostra o parto de uma forma bem gráfica e pouco adequada a pessoas mais sensíveis, um momento de alegria para a mãe da criança e de dor para a parteira, que não pode ter filhos. Esta parteira é Shaleha (Nora Aunor), uma filipina de meia idade, que ajuda a dar à luz várias crianças, mas não pode ter um filho seu. Shaleha é casada com Bangas-An (Bembol Roco), mantendo com este uma relação aparentemente sólida, formando um casal bajau que habita numa palafita, estando rodeados pelo mar e pela incerteza. Os dois professam a religião islâmica, algo que permite a Bangas-An ter mais do que uma mulher. Perante a impossibilidade de ter filhos, Shaleha aceita que o marido tenha mais uma esposa, de forma a ter um progenitor, com a condição de ser esta a escolhê-la. 
 Ao longo de "Thy Womb" acompanhamos a história de Shaleha e Bangas-An, um casal cúmplice que enfrenta em conjunto as dificuldades do quotidiano, enquanto aguardam por uma nova realidade que pode mudar as suas vidas. Brillante Mendoza não complica a história destes dois, bem pelo contrário, quase tudo parece resultar entre ambos. Com um tom minimalista, recheado de silêncios cortantes, um conjunto de interpretações de enorme nível de Nora Aunor e Bembol Roco, "Thy Womb" apresenta com alguma crueza o quotidiano destes personagens de hábito relativamente simples, uma crueza que contrasta com a beleza captada por Brillante Mendonza. O cineasta expõe um cenário praticamente onírico (beneficiando de um excelente trabalho de fotografia), procurando captar toda uma pureza delicada nas águas, nos céus distantes, nos terrenos verdejantes, uma delicadeza e cor que contrastam com a azáfama citadina, ao mesmo tempo que nos apresenta a um casal cujos actos raramente procura julgar.
 Brillante Mendoza raramente procura julgar os seus personagens ao longo do filme, mas consegue captar paradigmaticamente a pureza do seu quotidiano (longe da inquietação urbana), a sua cultura, a postura calma destes habitantes de Tawi-Tawi, os elementos que povoam a relação do casal de protagonistas, tudo com uma aparente simplicidade. Essa simplicidade surge adensada pela magnífica interpretação de Nora Aunor, como uma mulher que procura estar sempre ao lado do seu marido, mesmo quando este está prestes a casar com outra mulher, ou até a ser atacado por um conjunto de militares. Esta é uma relação feita de muitos silêncios, momentos introspectivos, com a história a fluir de forma pertinentemente lenta, explorando os dois personagens e dando tempo a que estes conquistem e evoluam junto do espectador, ao mesmo tempo que nos apresenta à cultura dos mesmos. Não faltam os rituais religiosos, a sua gastronomia, os seus hobbies, um quotidiano estranhamente calmo, que esporadicamente é quebrado pela violência exterior. 
 Essa violência tanto pode ser natural, com a chuva a cair ferozmente junto das suas casas precárias, mas também pode resultar da acção humana. Esta é uma situação paradigmaticamente representada na cena de um casamento, que é interrompido por tiros, mas logo volta a decorrer na sua normalidade como se nada fosse. Mendoza opta por não abordar a violência de forma complexa, expondo-a como algo quase banal para estes personagens, cuja paz contrasta com a violência daqueles que invadem o seu quotidiano. No entanto, o que importa mais a "Thy Womb" é explorar o casal de protagonistas, o cenário que estes habitam, colocando os mesmos como um grupo à parte da humanidade, um conjunto de personagens riquíssimos, que exibem uma certa pureza que parece perdida no interior do cinismo citadino. É notório que Brillante Mendoza se sentiu fascinado por todo este universo que rodeia Shalea e Bangas-An, explorando o território que estes habitam, a sua cultura, transportando para nós esse fascínio, proporcionando uma obra que nos deixa num estado semelhante ao título do seu filme anterior, "Cativos". 

Classificação: 4 (em 5).

Título original: "Sinapupunan".
Título em inglês: "Thy Womb".
Realizador: Brillante Mendoza.
Argumento: Henry Burgos.
Elenco:  Nora Aunor, Bembol Roco, Lovi Poe, Mercedes Cabral.

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