22 abril 2013

Resenha Crítica: "Simon Killer"

 Thriller neo-noir recheado de erotismo, sensualidade, silêncios, violência emocional e traições, "Simon Killer" apresenta-nos a um indivíduo numa intensa jornada de auto-descoberta em Paris. Este indivíduo é Simon (Brady Corbet), um estudante que se encontra em Paris, tendo em vista colocar as ideias em dia, após ter sido abandonado pela sua ex-namorada. Com os phones nos ouvidos, isolado de tudo e todos, Simon tem no portátil o seu melhor companheiro, quer para enviar e-mails para a ex-namorada que não quer ser importunada, quer para ver pornografia. Simon deambula pelos territórios parisienses até numa noite ser convidado a entrar num clube nocturno onde conhece a belíssima Victoria (Mati Diop). Esta desperta os seus desejos sexuais, desenvolvendo uma relação que extrapola o âmbito profissional, enquanto o protagonista se envolve numa teia de sexo, traições, mentiras, extorsão, sedução e descobertas que prometem terminar da pior maneira. 
 "Simon Killer" revela-se uma sólida, interessante e complexa nova entrada na carreira do cineasta Antonio Campos, uma obra onde o sexo, traições e a tensão emocional parecem estar sempre presentes. Campos pede-nos que acompanhemos um personagem pouco agradável, de índole duvidosa, emocionalmente desequilibrado, que permite a Brady Corbet sobressair em bom nível, expressando toda a complexidade de Simon, enquanto este se envolve numa jornada emocionalmente violenta e recheada de sexo. O sexo surge como algo de constante e um dos elementos transversais a quase toda a narrativa de "Simon Killer". Não é a única temática, mas surge como o elemento fundamental para os personagens expressarem os seus sentimentos, soltarem os seus lados mais selvagens e verdadeiros, enquanto os corpos se unem numa convulsão de sentimentos e emoções (um pouco à imagem de "Shame").
 As emoções bailam pelo ar nesta obra neo-noir, onde um clima de malaise se instala pela narrativa e parece não augurar nada de bom aos personagens que a habitam. Simon procura esquecer a ex-namorada, algo que inicialmente parece conseguir, mas logo o seu lado mais destrutivo vem ao de cima, deixando-se arrastar e arrastando Victoria. Esta é uma acompanhante com um passado problemático, que tem na prostituição um modo de ganhar a vida e em Simon a esperança de um futuro melhor, algo que apenas promete arrastar ambos para o abismo. Antonio Campos é bastante competente ao arrastar-nos para a "queda" de Simon, pela sua constante necessidade de se auto-destruir e arrastar consigo aqueles que por ele se aproximam, ao mesmo tempo que nos dá uma obra nem sempre agradável de seguir, por vezes demasiado complacente para com os actos do seu protagonista, mas com muitos elementos interessantes. 
 Não falta um trabalho de fotografia que sobressai pela constante inquietação da câmara de filmar, sempre pronta a "seguir" os personagens (é muito comum os personagens surgirem de costas, como se estivessem a ser perseguidos pelo nosso olhar), uma magnífica utilização das cores (veja-se a utilização do vermelho no clube nocturno para indicar sedução e a predominância dos tons azuis para simbolizar alguma frieza sentimental), as imagens em movimento saturadas, uma banda sonora fabulosa, ou seja vários elementos a ter em atenção. A estes juntam-se ainda um protagonista complexo e em plena degradação mental, boas interpretações, uma história complexa, muita sedução, erotismo e violência emocional. Ao longo de "Simon Killer" é possível encontrarmos várias cenas de nudez, enquanto os corpos desnudos surgem como marionetas do desejo carnal, enquanto fora desses momentos parecem apenas encontrar um vazio como caminho a seguir. "Simon Killer" não nos dá um vazio para seguirmos. Emocionalmente violento, dramático, sensual e bem elaborado, "Simon Killer" não poupa nada nem ninguém à jornada de auto-descoberta e degradação de Simon, dando ao espectador uma obra que pode nem sempre ser agradável de acompanhar, mas tarda em sair da nossa memória.

Classificação: 3.5 (em 5)

Título original: “Simon Killer”. 

Realizador: Antonio Campos.
Argumento: Antonio Campos, Brady Corbet e Mati Diop.
Elenco: Brady Corbet, Mati Diop, Nicolas Ronchi, Constance Rosseau, Yannis Calonec, Lila Salet.

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