26 abril 2013

Resenha Crítica: "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65"

 Não deixa de ser algo curioso ver os elementos da banda Rolling Stones a mostrarem alguma incerteza em relação ao seu futuro no início do documentário "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65". Como salienta o título, o documentário foi desenvolvido durante a digressão da lendária banda na Irlanda, em 1965, tendo sido realizado por Peter Whitehead e posteriormente ampliado e restaurado pelo realizador Mick Gochanour e pelo produtor Robin Klein. Em 1965, a banda formada inicialmente por Brian Jones, Keith Richards, Mick Jagger, Bill Wyman e Charlie Watts ainda não tinha a consciência da marca que viria a deixar no futuro. O primeiro disco, intitulado "The Rolling Stones", tinha sido lançado em Abril de 1964 e um dos seus maiores êxitos chegaria em 1965, a canção "(I Can't Get No) Satisfaction". Essa incerteza em relação ao futuro surge paradigmaticamente representada quando Mick Jagger salienta logo no início do documentário que quando o primeiro CD foi lançado pensou "Provavelmente vamos durar um ano, talvez um ano e meio e depois vai ser o fim".
 O resto já quase todos conhecemos, uma carreira recheada de êxitos, algumas polémicas e uma marca enorme na História da Música e da cultura popular contemporânea. A banda tem em "The Rolling Stones - Charlie is My Darling - Ireland' 65" um documentário recheado de interesse, que não envergonha os elementos do grupo e os pergaminhos dos Rolling Stones, enquanto estes falam sobre os seus objectivos, ambições, a forma como lidam com a fama recente, como lidam com o assédio do público (por vezes marcado por alguma violência dos fãs), sobre o modo de estarem nos concertos, entre outras questões. Ao vermos Mick Jagger a falar sobre o seu grande objectivo ser "entreter as pessoas", percebemos que este objectivo tem sido conseguido de forma paradigmática ao longo da carreira, tal como o documentário que estreou em Portugal no IndieLisboa 2013 consegue entreter e muito o espectador, contando com o condimento especial de ter como pano de fundo um grupo musical apaixonante. Essa paixão surge evidente quando o documentário apresenta breves questões a alguns dos fãs da banda e logo percebemos a loucura em volta dos Rolling Stones e o papel fulcral que estes tiveram para inspirar alguns dos seus seguidores e outros grupos musicais ao redor do Mundo.
 Entre concertos, ensaios, contacto com os fãs, depoimentos de elementos da banda, entrevistas a fãs, "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65" surge recheado de interesse para todos os seguidores dos Rolling Stones, tendo nos momentos da vida privada da banda os seus momentos mais relevantes e nos concertos os trechos mais poderosos. Nota-se toda uma preocupação de Peter Whitehead em expor não só a banda como grupo musical em ascensão e a vontade dos seus elementos em expressarem-se através da música, mas também de explorar a intimidade do grupo, deixando o espectador "aventurar-se" pelos bastidores, partilhar alguns momentos com os Rolling Stones e ficar a conhecer um pouco de Mick Jagger e companhia. É exactamente neste balancear entre os concertos e os bastidores, entre a reacção dos fãs e as reacções da banda em relação aos seguidores, que "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65" nos vai surpreendendo, mostrando não só os "animais de palco" mas também os seres humanos comuns que procuram conquistar um lugar no Mundo da música.
 Quando o documentário foi filmado os Rolling Stones ainda estavam a lançar-se na carreira. Hoje em dia, rara é a pessoa que pelo menos não ouviu falar da mítica banda de Mick Jagger, e caso não conheça, "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65" pode servir como uma boa introdução. Se já conhece os Rolling Stones e é fã da banda, o mais provável é que não queira perder um documentário recheado de momentos memoráveis, filmados de forma cirúrgica e seleccionados de forma certeira. Filmado a preto e branco, cheio de música, momentos marcantes e depoimentos interessantes, "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65" captura o espírito de uma época e homenageia uma banda lendária ao respeitar tudo aquilo que esta representa, um grupo incapaz de encontrar satisfação, mas capaz de protagonizar um documentário que satisfaz e entusiasma. A certa altura do documentário, os Rolling Stones tocam num concerto "(I Can't Get No) Satisfaction". Os fãs vibram, os elementos da banda exprimem os seus sentimentos e nós ficamos perante um vibrante momento, onde os Rolling Stones apoderam-se do grande ecrã, contagiam tudo e todos e mostram um pouco do porquê de se terem tornado verdadeiras lendas. 

Classificação: 4 (em 5). 

Título original: "The Rolling Stones – Charlie Is My Darling - Ireland '65".
Realizador: Michael Gochanour (2012), Peter Whitehead (1965).

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