25 abril 2013

Resenha Crítica: "Orléans"

Não falta mordacidade e algum humor negro a "Orléans", a primeira obra cinematográfica de ficção escrita e realizada por Virgil Vernier. Desde uma conversa entre strippers sobre os Estados Unidos da América terem provocado o atentado do 11 de Setembro, passando pelos anacronismos espalhafatosos dos festejos anuais em honra de Joana d'Arc e até pela própria sociedade, cultura, política francesa, nada parece passar ao lado desta obra cinematográfica exibida na secção "Competição Internacional" do IndieLisboa 2013. Sem esquecer o seu passado ligado ao documentário, Virgil Vernier tem em "Orléans" uma obra que deambula entre o documentário e a ficção, enquanto nos apresenta às festividades anuais em honra de Joana d'Arc, através do olhar de duas strippers, expondo a diametralidade entre a vida nocturna e diurna destas duas personagens. 
 Estas duas strippers são Joane (Andréa Brusque) e Sylvia (Julia Auchynnikava). Joanne chegou à pouco tempo a Orléans e espera não ficar por muito tempo nesta cidade e no clube de nocturno onde trabalha como stripper, esperando um dia ser dançarina de jazz. Sylvia domina a arte de seduzir os clientes, mas sonha angariar o dinheiro suficiente para ter o seu próprio negócio. De noite, estas utilizam o corpo para seduzir, enquanto Virgil Vernier adensa esse clima, deixando-as perante um cenário recheado de tons avermelhados nos momentos de strip, introduzindo uma enorme sensualidade e erotismo às cenas (ambas as actrizes são ou pelo menos eram strippers). Durante o dia, Joane e Sylvia saem e deparam-se com as comemorações do aniversário de Joana d'Arc, um conjunto de eventos espalhafatosos, que certamente fariam a homenageada revirar umas quantas vezes do seu túmulo, enquanto Virgil Vernier questiona a nossa relação com a história e o passado
 É nesta dicotomia entre a vida nocturna e a vida diurna das protagonistas que se centra grande parte da narrativa, ao mesmo tempo que Virgil Vernier procura exibir-nos um pouco do passado e do presente de Orléans e as alterações do espaço ao longo da história. Os castelos deram lugar a centros comerciais, os cavalos substituídos por metros e autocarros, o espaço sagrado do cemitério surge "violado" pela presença do metro e as próprias festividades são o exemplo de como a história é desrespeitada pelas entidades organizadoras. Os duelos de espada efectuados com trajes tradicionais são seguidos por concertos de música techno, a memória de Joana d'Arc é banalizada e tudo parece um circo. Enquanto a festa acontece, Joanne e Sylvia pensam nas suas vidas, sobretudo a primeira, enquanto o Mundo não parece saber que estas existem. Joane queria que soubesse e não deixa de ser curioso a admiração que esta sente em relação às festividades ligadas a Joana d'Arc, uma mulher admirada como esta pretende ser um dia.
 Este paralelismo entre a Joanne que protagoniza o filme e a Joana d'Arc surge com algum interesse, ou não fossem ambas jovens idealistas, que luta(ra)m pelos seus ideais e venceram num meio maioritariamente masculino (veja-se que Joanne ganha a vida com os homens a observarem o seu corpo). Porém, se todos conhecem Joana d'Arc, ninguém parece conhecer Joane e até Sylvia. Quem sabe que estas personagens existem é Virgil Vernier, que apresenta uma narrativa com algumas limitações a nível do argumento e do desenvolvimento das personagens, embora crie uma atmosfera envolvente que nos faz querer seguir tudo aquilo que tem para nos dar ao longo do filme.
  Recheado de planos estáticos, minimalista na história e nas interpretações dos elementos que povoam o elenco, "Orléans" beneficia das interpretações convincentes de Andréa Brusque e Julia Auchynnikava, duas strippers na vida real, que encarnam as suas personagens com enorme empenho dando uma enorme credibilidade às mesmas. A história pode não ser a mais elaborada e por vezes parece que Virgil Vernier pensa ter em mãos um filme mais inteligente do que este realmente é, mas nem por isso podemos afirmar peremptoriamente que estamos perante uma obra que não mereça a nossa atenção durante a sua hora de duração. Entre a sensualidade dos corpos que bailam pelo clube nocturno e o espalhafato que rodeia as celebrações do aniversário de Joana d'Arc, "Orléans" deambula entre o documentário e a ficção para nos dar uma obra que nunca alcança todo o seu potencial.

Classificação: 2.5 (em 5). 

Título original: “Orléans”.
Realizador: Virgil Vernier.
Argumento: Virgil Vernier.
Elenco: Andréa Brusque e Julia Auchynnikava.


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