15 abril 2013

Resenha Crítica: "Monsieur Lazhar" (Professor Lazhar)

 Numa das cenas iniciais de "Monsieur Lazhar", uma obra franco-canadense realizada por Philipe Falardeau, Simon, um aluno que se encontrava a tirar material do cacifo, depara-se com a sua professora enforcada no interior da sala de aula. O pânico é adensado pelos silêncios sufocantes, quebrados pela campainha da escola e pelo som dos seus sapatos a tocarem ferozmente no solo, traduzindo todo o seu pânico, enquanto corre em busca de alguém. Estamos no interior de uma escola primária de Montreal, no Canadá, o palco primordial da obra, onde muito se passa ao longo dos seus noventa minutos de duração. As crianças entram em choque, uma psicóloga é contratada, mas a contratação de um professor substituto prepara-se para ser um processo deveras complicado. É então que aparece Bachir Lazhar ( Mohamed Saïd Fellag), um indivíduo que se oferece para dar aulas, com o argumento de que leccionou ao longo de dezanove anos na Argélia. Sem ter que apresentar qualquer comprovativo das suas habilitações, este apresenta o seu currículo e começa rapidamente a dar aulas, tendo de lidar com um conjunto de crianças que aos poucos chocam de frente com o seu método de ensino.
 Se reparou na ênfase dada à não apresentação de qualquer comprovativo das suas habilitações, é porque esta situação é a maior pedra na engrenagem de "Monsieur Lazhar", uma obra bela e nostálgica, que conta com um conjunto de personagens agradáveis de acompanhar, mas fica algo limitada por esta situação que desafia o nosso lado mais pragmático. Seria possível uma escola contratar um professor primário sem analisar e comprovar o currículo do mesmo? Seria possível que Bachir começasse a dar aulas sem apresentar um certificado de habilitações? Tendo em conta que a narrativa tem como pano de fundo uma escola primária, é pouco credível que deixassem as crianças serem expostas a uma figura desconhecida, embora esta crie uma enorme empatia. E é nessa empatia criada por Lazhar (magnificamente interpretado por Mohamed Saïd Fellag), nas emotivas cenas nas salas de aulas que protagoniza ao lado dos seus alunos, na cumplicidade entre as crianças, na procura do protagonista em superar os traumas do seu passado, na procura das crianças e professor em ultrapassar o período de luto que "Monsieur Lazhar" nos conquista. 
 Lazhar é um refugiado da Argélia que procura abrigo no Canadá, tendo na notícia do suicídio de Martine a oportunidade de encontrar trabalho. Segundo Bachir, deu aulas durante vários anos, mas cedo percebemos que não é bem assim. Os primeiros momentos com os alunos não vão ser fáceis. Ele tem uma cultura diferente da maioria dos petizes e as crianças vêm de um trauma recente. O primeiro choque surge quando decide colocar os alunos perante um ditado a um texto de uma obra de Balzac. Aos poucos, o choque entre alunos e professores vai-se esbatendo, enquanto somos apresentados a vários alunos, que mais do que para fazer número estão no enredo para participar activamente na história. Essa situação é visível em Simon (Émilien Néron), um aluno algo problemático, que teve uma relação complexa com a sua anterior professora, que sofre o luto à sua maneira. Este é um dos alunos que sobressai, com Phillipe Falardeau a ter uma enorme felicidade nas escolhas dos actores que integram o elenco infantil, beneficiando de uma boa direcção de actores e de um argumento mais complexo do que inicialmente pode parecer. 
 Como poderão verificar, aquela pedra na engrenagem inicial facilmente foi esquecida por este que escreve o texto e essa situação deve-se não só ao desempenho do seu protagonista e ao argumento, mas também à delicadeza com que Phillipe Falardeau desenvolve as temáticas. O período de luto de ambas as partes é lento, duro e nem sempre agradável e até explicável. A morte é complicada e lidar com esta ainda mais. Os alunos necessitam de lidar com a dor da morte da professora. Lazhar precisa de superar o assassinato da esposa e dos filhos na Argélia. Ambos criam laços de amizade e respeito, enquanto a narrativa nos apresenta a um conjunto de episódios quotidianos na sala de aulas e nas escolas, que certamente prometem trazer alguma nostalgia ao mais sensível dos espectadores. Uma nostalgia que poderá também adivinhar-se nos professores devido à figura do Senhor Lazhar. Este é o professor fora do sistema (e como chegamos a saber nem é realmente professor), que procura despertar consciências nos alunos, fazê-los questionar, ensinar-lhes a lidar com a dor e a crescer, enquanto formam laços de respeito e amizade.
 Ao terminar de visionar "Monsieu Lazhar", a sensação de que o tempo passou rapidamente e que partilhámos a experiência com estes personagens é notória. Lazhar tornou-se no professor destas crianças, mas também na figura que nos guia ao longo de uma narrativa belíssima, preenchida por uma banda sonora melancólica e adequada, boas interpretações e uma história recheada de melancolia, dor e nostalgia, que nos transporta para uma fábula onde o professor não é apenas a figura que ensina, mas também aquela que guia e desperta as capacidades dos seus alunos. "Monsieur Lazhar" é uma obra bela e delicada, onde um simpático argelino conquista o respeito dos seus alunos e do espectador.


Classificação: 4 (em 5). 
 
Título original: “Monsieur Lazhar”.
Título em Portugal: “Professor Lazhar”.
Realizador: Philippe Falardeau.
Argumento: Philippe Falardeau.
Elenco: Mohamed Fellag, Sophie Nélisse, Émilen Néron, Danielle Proulx, Jules Philip.

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