28 abril 2013

Resenha Crítica: "Metamorphosen"

 Ao sairmos da sessão de "Metamorphosen", um documentário realizado por Sebastian Mez, não podemos dizer que saímos da sala enganados, mas também não podemos dizer que saímos completamente satisfeitos. É verdade que ficamos relativamente mais informados em relação a um acontecimento algo nebuloso da história contemporânea, mas também pensamos que este poderia ter sido apresentado de forma bem mais apelativa e intensa, com menos redundâncias e pretensiosismos. O documentário apresenta um ponto de partida interessante, tendo como material de estudo uma região do sul da Rússia (em particular Chelyabinsk Oblast), que permanece relativamente desconhecida, que foi afectada pelas radiações resultantes dos acidentes na central nuclear Mayak, ocorridos em Setembro de 1957. 
 Este acidente foi mantido em segredo durante mais de trinta anos, até chegar a Perestroika, sendo frequentemente comparado a desastres como Chernobyl e Fukushima, tendo contaminado a água, o ar, o solo com níveis de radiação brutais, afectando de forma dura a vida daqueles que habitam o território. "Metamorphosen" procura apresentar este território e os seus habitantes nos dias de hoje, explorando a forma como ambos estes elementos continuam a lidar com os efeitos secundários do evento desastroso. Sem apresentar um contexto histórico para esta produção nuclear em Mayak, nem em abordar com profundidade porque é que esta situação tem sido algo omitida na história, "Metamorphosen" procura abordar a temática através dos depoimentos de alguns dos habitantes locais e a exploração das imagens em movimento. Esta abordagem revela-se inicialmente interessante, embora se perca em redundâncias, alguns discursos pouco pertinentes e uma excessiva contemplação dos cenários quando se pedia algo mais.  
 No entanto, o documentário tem os seus méritos. Desde logo porque nos apresenta a um caso com o qual estamos pouco familiarizados, servindo como um importante ponto de partida para um estudo mais aprofundado pela temática. Mas este não é o seu único mérito. Filmado a preto e branco, com um trabalho de fotografia magnífico (contrastando de forma belíssima a neve branca com a negritude que a envolve), recheado de planos estáticos, "Metamorphosen" apresenta-nos a um conjunto de pessoas que aborda como lidou com o episódio, as consequências dos mesmos nas suas vidas e na dos seus descendentes, ao mesmo tempo que explora um pouco do território e das suas gentes anónimas. Todos estes elementos surgem de especial interesse, sobretudo se tivermos em conta que estamos perante um território quase abandonado, votado ao esquecimento, que conheceu um escândalo de proporções épicas que foi abafado a ponto de ainda hoje não ser um dos acidentes mais sugeridos quando se fala nos principais desastres nucleares. 
 Existe uma cena do filme particularmente memorável, quando junto do lago Karachay assistimos ao medidor a mostrar um nível de radioactividade fortíssimo. Quando o aparelho começa a ficar meio descontrolado, logo percebemos a dimensão destruidora do desastre. No entanto, tudo o resto é apresentado de forma demasiado mecânica, muito factual, embora esses factos nem sempre sejam esclarecedores, parecendo muitas das vezes que tínhamos saído mais esclarecidos sobre a questão se fôssemos fazer uma pesquisa rápida no Google. Claro que um documentário não tem de dar respostas, mas se atira com a informação em direcção ao espectador também poderia abordá-la de forma pertinente e perder-se menos em pretensiosismos de Sebastian Mez. Se não sobressai a nível da narrativa e da abordagem dos acontecimentos que apresenta, "Metamorphosen" sobressai pela beleza das suas imagens em movimento, sendo capaz de explorar de forma poética o território, ao mesmo tempo que nos apresenta os rostos dos seus intervenientes ao pormenor (com vários planos estáticos). Visualmente notável, "Metamorphosen" é um caso de um documentário que cumpre os requisitos mínimos, sem entusiasmar, sem procurar ser acutilante, parecendo quase sempre ter medo de ser relevante, acabando por gerar alguma indiferença.


Classificação: 2.5 (em 5)
Título: “Metamorphosen”.
Realizador: Sebastian Mez.
Fotografia: Sebastian Mez
Montagem: Catherine Fiedler
Produtor: Sebastian Mez


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