24 abril 2013

Resenha Crítica: "Leones"

 Primeira longa metragem realizada pela argentina Jazmín López, "Leones" surge como uma obra inquietante e surpreendentemente envolvente, que se revela como uma das agradáveis surpresas do IndieLisboa 2013. A premissa do filme é bastante simples, o seu desenvolvimento magnificamente executado e o seu desfecho surpreendente, com Jazmín López a revelar uma maturidade surpreendente para uma primeira longa metragem, deixando uma enorme curiosidade para sabermos o que pretende dar-nos a seguir a "Leones".  Com uma premissa e até uma estrutura a fazer lembrar a série "Lost", "Leones" apresenta-nos a um grupo de cinco adolescentes que se perdem num bosque, enquanto vagueiam pelos seus cenários e percebem que algo não está certo na sua jornada até um rumo aparentemente desconhecido. Nós também percebemos que algo não está bem. Os personagens parecem repetir os locais por onde outrora deambularam, o gravador de voz que utilizam indica que já estiveram em alguns dos sítios e toda a atmosfera inquietante criada por Jazmín López indica que algo não está bem. 
 Mas como é que estes adolescentes se perderam? Como é que se conheceram e decidiram encetar a viagem? Porque circulam pelos mesmos locais? O que se estará verdadeiramente a passar com estes jovens? Para onde se dirigem? Várias são as perguntas que efectuamos ao longo da narrativa, enquanto Jazmín López gradualmente nos vai dando algumas respostas e a certeza que o valor da sua obra não se esgota numa única e mera visualização. Sem desenvolver o passado dos seus protagonistas, explorando de forma belíssima os cenários da floresta, "Leones" apresenta-nos a um grupo de cinco adolescentes, dando especial atenção a Isa (Madalena del Corro), desenvolvendo os relacionamentos entre os diferentes personagens e os seus comportamentos, enquanto estes se embrenham pelo bosque e ficamos a saber mais sobre estes e os seus segredos.
 Muito poderia ser revelado sobre "Leones", mas pouco podemos comentar para não corrermos o risco de estragar o prazer do visionamento deste belíssimo filme ao nosso leitor. Filmado em 35mm, "Leones" beneficia do excelente trabalho de fotografia de Matías Mesa (que trabalhou em filmes como "Gerry" e "Elephant" de Gus Van Sant, embora não como director de fotografia), que é capaz de explorar e exacerbar os magníficos cenários e a luz natural do bosque por onde avançam os personagens, com esta contemplação e exploração dos cenários a fazer lembrar algumas obras de Terrence Malick. Desde os territórios verdejantes, a lagoa, as flores recheadas de cores, vários são os cenários por onde se embrenham os personagens de "Leones", um conjunto de locais de um bosque quase mágico, um local à parte do Mundo, onde o tempo parece ser diferente e um conjunto de jovens parece descobrir-se a si próprio e perder-se na imensidão dos seus seres. 
 Destes jovens sobressai Isa, interpretada de forma sublime por Madalena del Corro (os actores e actrizes apresentam um conjunto de interpretações minimalistas), uma adolescente que parece não ser ouvida pelos amigos, quase ignorada, sendo o paradigma de que algo vai mal no interior deste grupo. Este é um grupo recheado de idiossincrasias, que discute, dialoga, diverte-se (seja a jogar o jogo das frases com seis palavras imitando "For Sale, Baby Shoes, Never Worn" de Ernest Hemingway, seja a jogar voleyball imaginário), vive novas experiências enquanto nos guia para o interior de uma jornada cheia de questões e poucas respostas. Através destes adolescentes e do bosque por onde estes deambulam, "Leones" explora temáticas relacionadas com a mortalidade, a temporalidade, os comportamentos adolescentes, parecendo procurar evitar relembrar um passado que já está escrito nos seus destinos, ao mesmo tempo que as imagens em movimento se complementam na perfeição com os diálogos dos personagens. 
 Jazmin López teve a audácia de desenvolver uma obra que pode ser considerada de pretensiosa, mas consegue como muito poucas dar ao espectador um espectáculo bem diferente do habitual, contando com bons diálogos, um excelente trabalho de fotografia e som, criando uma atmosfera única e inquietante, transformando o bosque num espaço quase onírico, onde a câmara mostra saber mais do que os personagens e adensa a incerteza em volta dos mesmos (boa utilização dos travellings). Sem esconder as influências de cineastas como Michelangelo Antonioni e Robert Bresson, de autores como Júlio Cortázar e Jorge Luíz Borges, Jazmín López faz mais do que nos dar um pastiche inspirado nas suas referências, desenvolvendo uma obra estimulante e belíssima, que funciona como um regalo para os sentidos, enquanto é capaz de nos fazer pensar e questionar sobre aquilo que estamos a ver e a sentir. Menos preocupada em ter uma estrutura narrativa certinha do que em estimular o espectador com uma obra magnificamente elaborada, Jazmín López arrisca e conquista, sendo uma das agradáveis surpresas do IndieLisboa 2013 e um nome a ter em muita atenção.

Classificação: 4 (em 5).

Título original: “Leones”.
Realizador: Jazmín López.
Argumento: Jazmín López.
Elenco: Diego Vegezzi, Julia Volpato, Macarena del Corro, Pablo Sigal, Tomás Mckinlay.

2 comentários:

Sam disse...

Parabéns pelo excelente texto, sobretudo na forma como "preservas" as interessantes revelações deste LEONES.

Para mim, deveria estar aqui o grande vencedor do IndieLisboa 2013!

Cumps cinéfilos.

Aníbal Santiago disse...

Obrigado pelo comentário. Foi uma das agradáveis surpresas que tive no Indie (cada vez mais acho que fui forreta com a nota) a par do "The Act of Killing" (um filme desgastante do ponto de vista emocional) e do "Under African Skies".

Cumprimentos cinéfilos.