22 abril 2013

Resenha Crítica: "La Chica del Sur" (The Girl From the South)

 Pior do que ver um documentário desinteressante é encontrar um documentário que não sabe aproveitar o interessante material que utiliza. Pior ainda é quando a esta situação juntamos um realizador que parece partir para um projecto sem saber muito bem o que pretende abordar, ou pelo menos não consegue explanar a ideia que teve (ou não teve) para desenvolver a obra cinematográfica. Esta parece ser a realidade de "La Chica del Sur", um documentário argentino, que parte de um material interessante, mas esbarra em alguma incapacidade do realizador José Luís Garcia em dar rumo ao mesmo. Não que "Chica Del Sur" esteja desprovido de interesse, bem pelo contrário, mas fica sempre a ideia que nada é abordado com a pertinência que se pedia.
 A ideia para "La Chica del Sur" parte da procura do realizador José Luís Garcia em reencontrar e entrevistar Lim Sukyung, uma activista da Coreia do Sul que o marcou, quando o realizador esteve na delegação argentina do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes na Coreia do Norte, em 1989, um evento patrocinado pela União Soviética, que decorreu três semanas depois do massacre na Praça Tiananmen e quatro meses antes da queda do Muro de Berlim. Garcia foi acompanhado pela sua câmara de filmar em VHS, tendo captado vários dos locais e pessoas do território, algo que permite que tenhamos um pouco da noção do clima político, social e económico de uma Coreia do Norte que finalmente abria as portas ao Mundo, após a separação do Sul. Neste festival encontra-se a jovem activista Lim Sukyung, a voz dos estudantes da Coreia do Sul, que desafiou a proibição de viajar para o norte do seu país.
 Lim Sukyung causou um enorme alvoroço na época, ao procurar enfrentar as regras, exortando à união entre as Coreias e à reconciliação. Chamada de "flor da reunificação", Lim mais tarde virá a sofrer as consequências deste acto, tendo sido presa quando chegou à Coreia do Sul. A condenação foi de 10 anos, mas Lim apenas cumpriu 3,5 anos. José Luís Garcia procurou ao longo da sua vida acompanhar as notícias sobre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, mas perdeu o rasto de Lim. A primeira parte de "La Chica del Sur" surge recheada de interesse  e acompanhada por várias imagens de arquivo, narradas por José Luís Garcia, enquanto este nos apresenta a diversos momentos da sua passagem pela Coreia do Norte, um país muito fechado, que facilmente consegue despertar alguma curiosidade neste documentário. 
 Após alguns contactos, Garcia consegue contactar com Lim Sukyung, viajando em direcção à Coreia do Sul, tendo em vista a conseguir entrevistá-la, algo que se revela deveras complicado. Esta mudou, sofreu muito e conheceu um conjunto de episódios que a marcaram, tem um programa de rádio, lecciona na Universidade e parece pouco disposta a abrir-se em relação ao seu passado e à sua vida, questionando por vezes as motivações do cineasta e as questões colocadas por este. Quem também se questiona em relação a "La Chica del Sur" é o espectador, sobretudo a partir do momento em que surge Lim Sukyung. Teria custado muito estudar a entrevistada para não lhe fazer perguntas delicadas que quase chegam a roçar a ofensa? Qual o real objectivo do encontro com a "flor da reunificação"? Será que não poderia ter aprofundado mais as questões relacionadas com o passado de Lim?
 José Luís Garcia não consegue tornar este momento do reencontro intenso, não consegue criar interesse na coreana e esta parece muito pouco preocupada em agradar no que quer que seja. E esse é o problema fulcral de "La Chica del Sur", a "chica" parece estar muito pouco preocupada com o trabalho de José Luís Garcia, mostrando pouca disponibilidade física e emocional, tornando-se muitas das vezes uma figura repelente. Se tudo se tivesse mantido por aquele ideal que Garcia tinha de Lim Sukyung, aquela representação da jovem idealista e apaixonada pelos seus valores, certamente que a narrativa teria outro valor, mas como é possível interessarmo-nos por alguém que não quer falar, quer seguir em frente e, sejamos sinceros, parece ter perdido algum do idealismo selvagem apresentado no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes na Coreia do Norte. Essa situação é paradigmática na cena em que Lim viaja à Argentina, inserida numa jornada mais lata, e proporciona um momento caricato na entrevista, colocando o cineasta num papel no mínimo ridículo. Pode-se dizer que este é um momento genuíno, mas vale a pena também questionar a "genuinidade" da escolha destas imagens para dar essa situação. Compreende-se a ideia, e é bonita de ver toda a reverência do cineasta para com a "chica", o problema é que esta admiração claramente não é correspondida.
  Ao longo do tempo que tenho o Rick's Cinema tenho vindo a descobrir o quanto custa entrevistar um entrevistado pouco aberto a responder, algo que pode eventualmente destruir parte do que tínhamos planeado (por vezes por culpa minha), mas neste documentário, José Luís Garcia poderia ter avançado por outros caminhos e abordado temáticas mais interessantes do que as birras de Lim ou a mãe desta a ensinar receitas de culinária ao seu tradutor. Assim, toda a primeira parte que serviu para José Luís Garcia apresentar a sua jornada pessoal e adensar a nossa curiosidade em volta de Kim logo se perde quando esta surge nos dias de hoje. É como se estivéssemos a fazer um bolo, esperássemos uma obra de arte e, ao abrir o forno, reparamos que este se encontra queimado e com metade do tamanho esperado. José Luís Garcia poderia ter aproveitado para decorar essas "partes que queimam o seu bolo", mas ao invés pede para que raspemos essas partes queimadas e aproveitemos apenas uma ínfima parte do que o seu "bolo" poderia ter dado. Um documentário que sabe a pouco, quando poderia ter dado tanto ao espectador.

Classificação: 2 (em 5). 
Título original: "La Chica del Sur". 
Realizador: José Luís Garcia. 
Argumento: José Luís Garcia.


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