23 abril 2013

Resenha Crítica: "Homem de Ferro 3" (Iron Man 3)

 Numa entrevista recente Robert Downey Jr. confirmou que recebeu uma verba a rondar os 50 milhões de dólares para integrar o elenco de "The Avengers". Valores exagerados dizem uns, valores merecidos dizem outros, num debate muito semelhante aos salários das estrelas de futebol. Não sabemos se Robert Downey Jr. recebeu esse mesmo valor para protagonizar "Homem de Ferro 3", pois o que vale a pena realçar é que este merece cada cêntimo que lhe foi dado, elevando um blockbuster que não foge muito ao que se espera de um filme do género, embora seja demasiado irregular para nos convencer totalmente. Sem Jon Favreau no cargo de realizador, mas com Shane Black, "Homem de Ferro 3" procura exagerar nas doses de humor (algo que nem sempre resulta) e humanizar o personagem colocando-o perante uma ameaça terrena, ou seja, que não vem do espaço ou que não é constituída por um ou mais deuses, apresentando um grupo de antagonistas humanos (mas geneticamente alterados e com poderes que prometem colocar os EUA em perigo), de forma a distanciar a ameaça de "Homem de Ferro 3" em relação a "Os Vingadores".
 Joss Whedon colocou a fasquia elevada com "Os Vingadores" (Jon Favreau baixou-a em "Homem de Ferro 2") e "Homem de Ferro 3" teve a difícil tarefa de seguir esses acontecimentos e diga-se com algum sucesso. No terceiro filme a solo, Tony Stark (Downey Jr.) encontra-se com várias mazelas psicológicas em relação aos acontecimentos de "Os Vingadores", tendo como hobbie construir armaduras, de forma a proteger a sua amada Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) em caso de ameaça. Tony praticamente não dorme, apresenta claras sensações de ansiedade, procura evitar os fantasmas do passado, mas apenas parece afastar-se de Potts, agora no controlo da Stark Industries. Enquanto isso, somos apresentados a um flashback do seu passado, mais propriamente na Suíça, em 1999, onde este largou Maya Hansen (Rebbeca Hall) depois de uma noite de farra (e sexo) e deixou plantado à sua espera Aldrich Killian (Guy Pearce em modo antagonista e pronto a arrasar), um cientista que mais tarde fundou a Advanced Idea Mechanics, que pretendia vender um projecto (que mais tarde viria a resultar na tecnologia Extremis).
  O presente de Tony Stark promete ser deveras atribulado. Os Estados Unidos da América têm de lidar com a ameaça do terrorista (aparentemente do Médio Oriente, num estilo muito Osama bin Laden) Mandarim (Ben Kingsley), que promete colocar em perigo o país, algo que leva Tony Stark a agir em defesa da nação, sobretudo após um elemento próximo a si ter sido ferido por membros do grupo do referido criminoso. A notícia da presença de Mandarim no filme levou a que muitos fãs questionassem sobre como seria possível apresentar o mesmo de forma credível, e o melhor que podemos dizer é que inicialmente o filme até consegue, mas depois surge um twist que ridiculariza o personagem e arrasa com o mesmo. Shane Black, argumentista dos filmes da saga "Arma Mortífera" e realizador do divertido "Kiss Kiss Bang Bang" (também protagonizado por Downey Jr.), aposta no humor em doses generosas, algo que por vezes se revela excessivo, com o filme a entrar muitas das vezes em modo caricatural, que resulta de uma procura de exacerbar um dos elementos que resultaram nos dois primeiros filmes, algo que nem sempre acontece neste novo capítulo da franquia. 
 No entanto, Tony Stark não terá de lidar apenas com o Mandarim, mas também com o regresso de Aldrich e Maya, que contam com uma agenda própria que promete colocar o protagonista a lidar com os fantasmas que criou no seu passado e a ter de enfrentar os seus medos para salvar os Estados Unidos da América e a sua amada Pepper Potts. Se Tony tem de lidar com os fantasmas do seu passado, Shane Black tem de lidar com o legado que Jon Favreau e Joss Whedon lhe deixaram, respeitando uma certo conjunto de "regras" dos filmes produzidos pela Marvel, que têm de quase obrigatoriamente que ser seguidas entre que realizador entrar. É verdade que "Homem de Ferro 3" tem mais humor, mas segue a estrutura do herói que é colocado perante um perigo, enfrenta algumas dificuldades e o resto vocês já sabem, não faltando até a costumeira (e divertida) participação especial de Stan Lee. Quem já conhece os filmes de super-heróis sabe o que pode contar e "Homem de Ferro 3" promete não desiludir os fãs do género, introduzindo, ainda que levemente, alguns assuntos interessantes, tais como a abordagem ao receio norte-americano em relação à ameaça externa quando internamente podem ter ameaças tão ou mais perigosas (curiosamente e infelizmente os recentes atentados em Boston assim o comprovam), um conjunto de antagonistas mais fantasiosos e distantes do realismo de filmes como Batman (versão Nolan), entre outros elementos. 
 No entanto, "Homem de Ferro 3" também cai em excessos, sendo uma obra cinematográfica demasiado irregular, tendo em Gwyneth Paltrow o exemplo máximo daquele momento onde pensamos "por favor não vão por esse caminho". Não querendo colocar em causa o talento de Paltrow como actriz, a verdade é que a sua personagem e até a sua "persona" não se adequam por completo às cenas de acção nas quais a mesma aparece. É impossível acreditarmos que Paltrow é capaz de desancar alguém, defender Tony e libertar-se do estatuto de "donzela em perigo" (aquele momento do último terço é pedir muito sentimento de descrença, mesmo num filme fantasioso), não tendo perfil, talento e carisma para isso. A juntar a esta situação, temos ainda um conjunto de subtramas metidas a martelo, personagens secundários pouco desenvolvidos (veja-se o caso de Rebecca Hall), um argumento bastante simples e um Mandarim que pode causar alguns risos mas surge como degradante para o mítico vilão e para Ben Kingsley (que se entrega de corpo e alma ao papel e não merecia aquele twist). 
 Quem não falha é Robert Downey Jr. Este é a alma do filme, o coração que faz bater toda a trama. Downey Jr. assumiu o personagem, dá-lhe um estilo sardónico único e recheado de humor negro, capaz de explanar todo a complexidade de Tony Stark, mostrando ser um actor de excepção, acabando por abafar Guy Pearce nas cenas em que surgem juntos. Shane Black sabe dessa situação e procura ao máximo explorar o arsenal de recursos de Robert Downey Jr., enquanto o personagem se envolve nas mais perigosas confusões, procura salvar os Estados Unidos da América e a sua relação com Pepper Potts. Esta procura em salvar o seu país e a sua amada Pepper permitem algumas cenas de acção que causam algum impacto (embora nem sempre bem coreografadas), ao mesmo tempo que assistimos a alguns momentos que prometem fazer as delícias dos fãs do herói, não faltando o arsenal de armaduras, a presença do Iron Patriot e muito fogo de artifício (que é como quem diz, explosões). 
 "Iron Man 3" foi feito para fazer dinheiro e agradar aos fãs dos filmes anteriores. Nada contra esta estratégia da Marvel, que mais uma vez consegue apresentar um blockbuster capaz de entreter os espectadores e dar muito do que se espera de um filme do género. Claro que acaba por dar mais do mesmo, embora com um vilão novo e algumas nuances, mas tudo é algo previsível e pouco estimulante, embora consiga dispor bem o espectador. A entrada de Shane Black trouxe mais doses de humor à saga de "Homem de Ferro", um herói mais humanizado, menos dependente da sua armadura, mais complexo, numa saga que promete não ficar por aqui, pelo menos enquanto Robert Downey Jr. não se cansar de interpretar Tony Stark. Se valerá a pena continuar a seguir a saga? Apesar das suas limitações, "Homem de Ferro 3" diz-nos que sim.

P.S: Nesta crítica (ou algo que se pareça com uma crítica) está em análise o filme "Homem de Ferro 3" e não o arco da série de banda desenhada que inspirou parte do enredo do filme. 

Classificação: 3 (em 5). 

Título original: "Iron Man 3". 
Título em Portugal: "Homem de Ferro 3". 
Título no Brasil: "Homem de Ferro 3". 
Realizador: Shane Black. 
Argumento: Drew Pearce e Shane Black.
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Jon Favreau, Rebecca Hall.

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