28 abril 2013

Resenha Crítica: "Eles Voltam"

 "Eles Voltam" é uma obra muito peculiar. Capaz de jogar com as nossas expectativas, de nos surpreender umas vezes pela positiva e outras pela negativa, de cadenciar as revelações da narrativa e efectuar subtis comentários sobre o Brasil contemporâneo, "Eles Voltam" tem o condão de crescer dentro de nós algum tempo depois de vermos o filme e procurarmos "esquecer" a falta de fôlego no último terço. Com um trabalho de fotografia notável e um claro domínio da mise en scène, "Eles Voltam" apresenta-nos a história de Cris (Maria Luiza Barbosa), uma jovem de 12 anos de idade, que é deixada na beira da estrada com o irmão.
  Inicialmente não sabemos bem o que se passa, com um plano geral demorado a mostrar-nos uma estrada onde passa um conjunto de carros. Um veículo pára, deixa dois jovens e arranca. Estes jovens são Peu e a sua irmã Cris. Gradualmente, a câmara começa a aproximar-se do duo, ao mesmo tempo que a narrativa nos começa a dar detalhes sobre o que aconteceu aos irmãos e as razões para esta situação. Perante o facto dos pais não atenderem o telemóvel, nem aparecerem, Peu decide ir pedir ajuda a um posto de gasolina. Cris fica no local à sua espera. Os momentos de espera de Cris são angustiantes. Os silêncios são cortados pelas rodas dos carros que batem no asfalto, os close ups no rosto de Cris mostram a sua impaciência e as unhas sem parte do verniz mostram que o nervosismo está a tomar conta de si, tendo roído as mesmas (embora as imagens em movimento não mostrem).
  As unhas sem tinta são apenas um dos exemplos da atenção de Marcelo Lordello ao pormenor, numa obra que nem sempre nos dá tudo pelo diálogo. As imagens também falam e comunicam com o espectador, os corpos dos personagens transmitem as suas emoções, tudo apresentado de forma pertinentemente lenta e demorada, de forma ao filme apresentar-nos a Cris e às suas motivações, revelando-se uma obra que abre portas de interpretação muito interessantes. Antes que nos percamos, vale a pena salientar que Cris decide sair do local, acedendo a um convite de um estranho que a ajuda. Inicialmente esta reluta (estamos a falar de um estranho que a contacta no meio da estrada), mas acaba por aceder ao convite deste jovem que passava de bicicleta.
 É então que "Eles Voltam" revela a sua verdadeira identidade e mostra que o spoiler colossal no seu título não é assim tão importante quanto isso. Mais do que a procura de Cris em regressar a casa, a narrativa procura acompanhar a sua jornada de descoberta pessoal, ao mesmo tempo que esta descobre outro Brasil a que estava habituada e Marcelo Lordello revela uma forte consciência social, deixando mensagens subliminares fortes, maquilhadas por uma premissa algo enganadora. O cerne do filme não está na procura dos dois irmãos em encontrarem os pais, mas sim na jornada pessoal da sua protagonista e na descoberta que esta faz de si própria e do mundo que a rodeia, deparando-se pela primeira vez com uma realidade que até então desconhecia, ou seja a realidade das gentes desfavorecidas. Estamos muito longe de uma lógica narrativa artificial ou da pieguice telenovelesca, com Marcelo Lordello a revelar uma maturidade assinalável, procurando assumir escolhas, desenvolver as suas temáticas e vencendo na maioria das suas opções. 
 Cris é uma jovem branca, de classe média alta, que se depara pela primeira vez junto das gentes mais desfavorecidas e negras, fora da sua casa no Norte do Recife e da escola particular. "Eles Voltam" brinca com essa situação do peixe fora de água, mas acima de tudo procura explorar a mesma de forma a mostrar um crescimento de uma consciencialização por parte de Cris em relação a uma realidade que não é a sua. Diga-se que nunca chegamos verdadeiramente a conhecer Cris, esta personagem magnificamente interpretada por Maria Luiza Barboza, pois a própria está a procurar se conhecer, a lidar com novos mundos, enquanto procura regressar a casa. Na casa do jovem que a acolheu, onde também vivem a mãe e a irmã dele, Cris come, descansa, conhece uma nova realidade onde a electricidade e certas condições que damos como adquiridas não parecem fazer parte do quotidiano. 
 Posteriormente, Cris passa para a guarda de uma empregada de limpezas, com quem forma uma amizade com a filha, até finalmente deparar-se com a casa de férias dos seus pais, encontrando-se com a sua vizinha Pri (Irma Brown), uma jovem que está a tirar o mestrado, mas decidiu baldar-se às aulas para andar pela casa com piscina a "ficar" com o seu amigo. Pri promete levar Cris para casa. A partir daqui, preferimos não abordar mais nada da narrativa e deixar o caro leitor surpreender-se. É claro que o título da narrativa nos indica o desfecho, mas a jornada é muito mais complexa do que parece, embora perca um enorme fôlego no último terço. Esse fôlego mais abafado surge não só da falta de criação de impacto do elemento que deveria ser o clímax emocional, mas também da própria extensão das cenas, com Marcelo Lordello a revelar-se demasiado apaixonado pelo seu trabalho para travar. É óbvio que Lordello esteve apaixonado pelo que fez, só assim se explica a relevância que tenha dado à obra, construindo algo que é muito mais do que nos dá a sua premissa e até os seus diálogos. 
 "Eles Voltam" é um filme sobre a jornada de auto-descoberta de Cris e a sua procura de regressar a casa. No entanto, estes não são os únicos focos da narrativa. Marcelo Lordello quer mostrar as assimetrias do Brasil, as diferenças entre uma população que vive no limiar da pobreza e uma população que vive com todas as condições, a dicotomia entre os jovens que falam por MSN e os jovens que são obrigados a trabalhar, a dicotomia entre os jovens que estudam numa escola particular e aqueles que nem condições têm para isso, a dicotomia entre a praia aberta a todos e a piscina disponível apenas para alguns. Ou seja, Cris é o estertor da procura de consciencialização do espectador, com Marcelo Lordello a tentar que o público descubra ou redescubra uma realidade do Brasil ao lado de Cris. O paradigma dessa situação surge quando Cris ouve na televisão que os agricultores ilegais (como a primeira família que a acolheu) estão a ser expulsos dos locais abandonados que ocupam para sobreviver.
  Noutra altura, Cris poderia ficar indiferente, porém, depois de ter conhecido estas gentes, esta percebe que não estão ali criminosos, mas gente que precisa daquela actividade para sobreviver. Não existe aqui uma crítica às classes mais elevadas, nem uma apologia às classes desfavorecidas, mas sim uma procura de criar uma consciência colectiva, de mostrar estas diferentes facetas do Brasil e que estas não podem ser vistas como algo de separado. Ou seja, existe aqui uma certa utopia de que os seres humanos deveriam encarar-se uns aos outros como iguais e aceitar as suas diferenças, com Lordello por vezes a pecar em demasia por não tomar uma posição forte em relação ao que pensa sobre a situação. Ao escrever todo este "testamento" sobre esta procura de consciencialização parece que "Eles Voltam" é uma obra de pura pregação, mas não é. E aqui está uma das suas enormes qualidades. Marcelo Lordello desenvolve as suas temáticas com uma enorme subtileza, sabendo utilizar os clichés (sim, a obra não foge a alguns elementos estereotipados e clichés) e apresentar uma obra relevante. 
 Esta subtileza surge adensada pelo seu delicioso trabalho de fotografia de Ivo Lopes Araújo. Este é capaz de explorar os magníficos cenários de Pernambuco e as suas assimetrias (quer a nível do espaço, quer das suas gentes), ao mesmo tempo que capta toda a essência dos personagens, utilizando de forma cirúrgica os close-ups e os close-ups extremos e a iluminação. A juntar a todos estes pormenores técnicos deliciosos, o filme conta ainda com uma boa direcção de actores e uma protagonista que surpreende, sobretudo se tivermos em conta que é uma jovem estreante. Maria Luiza Barbosa surpreende, comove, emociona, enquanto interpreta uma jovem aparentemente mimada, pouco dada a risos, que aos poucos conhece algumas alterações subtis ao longo do filme. E subtil é mesmo o melhor adjectivo para descrever "Eles Voltam". É verdade que não desenvolve alguns personagens como esperamos, tem alguns plot holes, algumas temáticas são abordadas de forma muito generalista, é inverosímil que Cris apenas encontre pessoas sérias e simpáticas pelo caminho, e um último terço que deita muito do que de bom foi feito a perder, mas tem tantos elementos que nos encantam, que quase queremos esquecer aquilo que não apreciámos. 
 Recheado de momentos singulares e subtis, "Eles Voltam" marca a primeira longa metragem de Marcelo Lordello de ficção. Este poderia ter seguido caminhos mais genéricos, mas procura arriscar e dar ao espectador uma história profundamente humana, socialmente relevante, tudo apresentado com um belíssimo conjunto de imagens em movimento. Correndo o risco de me repetir. "Eles Voltam" é um caso singular ao crescer dentro de nós depois da sua visualização, quando começamos a pensar mais sobre o mesmo e aquilo que este nos deu e a rever os apontamentos incessantemente tirados durante a visualização. "Eles Voltam" não é um filme perfeito, nenhum filme o consegue ser, mas o seu conjunto de delicadas subtilezas indicam que estamos perante uma obra singular, que deixa marca e deixa a vontade de o revisitarmos no futuro.

Classificação: 3.5 (em 5). 
Título: “Eles Voltam”.
Realizador: Marcelo Lordello.
Argumento: Marcelo Lordello.
Elenco: Elayne de Moura, Georgio Kokkosi, Jéssica Silva, Jéssica Silva, Maria Luiza Tavares, Mauricéia Conceição.

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