27 abril 2013

Resenha Crítica. "Eat Sleep Die"

 Ao terminarmos de ver "Eat Sleep Die" é relativamente fácil ficarmos algo emocionados com a delicadeza que nos é apresentada a história de Rasa (Nermina Lukac), uma jovem na casa dos vinte anos de idade, muçulmana e oriunda dos Balcãs, que vive com o pai numa pequena vila no sul da Suécia. Esta procura cuidar do seu pai, é eficiente no trabalho, procura a todo o custo criar bom ambiente com os colegas. Rasa não é a pessoa mais educada ou letrada e até podemos dizer que não é a pessoa visualmente mais fascinante, mas surge apresentada com um enorme interesse, com o filme a explorar temáticas relacionadas com o desemprego, xenofobia e o ocaso dos espaços rurais, através da sua figura. Numa época em que trabalhar é cada vez mais um privilégio que não está ao alcance de todos, com países como Portugal e Espanha a conhecerem valores recordes de desemprego, "Eat Sleep Die" apresenta-nos a Rasa, um ser humano como qualquer um de nós, que inesperadamente foi despedida devido à sua empresa entrar em contenção de custos.
 Rasa trabalhava a embalar legumes numa fábrica, esta era das funcionárias mais eficientes, os seus chefes sabiam disso, mas, como lhe foi dito, nem sempre os mais eficientes é que permanecem nos postos de trabalho. Não deixa de ser irónico, mas este é um exemplo como muitos outros que podemos encontrar por aí, com a realizadora Gabriela Pichler a abordar com enorme humanismo esta nova situação de Rasa. Entre as reuniões junto da assistente responsável por tentar encontrar alguma alternativa na carreira dos desempregados, a procura de Rasa em ajudar o seu pai, as tentativas frustradas de encontrar emprego e as dificuldades em viver numa cidade do interior, "Eat Sleep Die" apresenta-nos a um drama comovente, onde Nermina Lukac encarna a sua personagem com uma intensidade notável. Esta é uma história que se desenrola numa cidade do interior da Suécia, mas poderia ser numa cidade do interior de Portugal, e arrisco-me a dizer que em quase todas as cidades do interior de qualquer país.
  O desemprego é um flagelo que afecta um número cada vez maior da população. Gabriela Pichler sabe disso e aborda este problema de forma assertiva e delicada, através de uma jovem comum, que poderia ser qualquer um de nós, mostrando uma sensibilidade notória para lidar com a temática, ao explorar a dificuldade da protagonista em lidar com a situação e o desespero que vai tomando conta de si. A juntar a isso, Rasa ainda tem de lidar com o facto de ser estrangeira, algo que em tempos de prosperidade económica de um país não é problema, mas em tempos de crise já resulta em alguma diferença na escolha, tendo ainda de lidar com um pai cujas condições para trabalhar já conhecerem melhores dias. Esta é uma história sobre gentes comuns, que procuram enfrentar o destino e as dificuldades que este coloca nas mesmas, procurando trabalho apenas para poderem comer, dormir descansados até um dia morrerem, enquanto procuram manter sempre um sorriso e a esperança.
 Rasa poderia tentar abandonar o seu pai e a sua cidade para tentar emprego noutra localidade da Suécia ou até no estrangeiro. Na verdade, por vezes não percebemos bem porque é que esta quer permanecer tanto num território onde não tem oportunidades, algo que entronca noutra situação da sociedade contemporânea onde os jovens se vêm cada vez mais na obrigação de emigrar. Quando não se sentem impelidos pela vontade própria, também podem ser convidados pelos seus políticos. Gabriele Pichler sabe destes problemas, não tem problemas em abordá-los e desenvolve uma obra relevante, que merece toda a atenção e reflexão. No entanto, não deixa de ser curioso que no nosso espaço público prefiramos dar destaque a indivíduos como Miguel Gonçalves, o embaixador do Impulso Jovem escolhido por Miguel Relvas, ao invés de filmes como "Eat Sleep Die". Enquanto o homem do "bater punho" considera que "É um mito muito grande as pessoas dizerem que não há trabalho" e "muitos estão desempregados porque querem, outros porque não querem trabalhar (...), ou um Primeiro Ministro que vê no desemprego uma oportunidade, "Eat Sleep Die" mostra o quão generalistas e pouco correctos podem ser estes comentários.
  À pouca sensibilidade que encontramos nos discursos de quem deveria ter mais responsabilidade, encontramos em contraste a capacidade de Gabriele Pichler em expor o problema de forma sensível. É verdade que esta não apresenta soluções para o problema, mas também os elementos da classe governativa andam com dificuldades em encontrá-los. Pichler tem em "Eat Sleep Die" a sua primeira longa metragem como realizadora e argumentista (tivera estas funções numa curta), e nota-se que tem alguma dificuldade em explorar algumas subtramas do filme, por vezes exagera num tom demasiado maternalista, mas apresenta uma enorme maturidade a explorar a história da sua protagonista, a abordar as temáticas relacionadas com o desemprego e os imigrantes, enquanto dá espaço para Nermina Lukac brilhar. 
 O desempenho da actriz sobressai ainda mais graças ao excelente trabalho de fotografia, ao registo próximo do documentário, ao mesmo tempo que os close ups frequentes adensam a expressividade dos seus sentimentos, do seu rosto e da sua alma. Delicado, simples e incrivelmente humano, "Eat Sleep Die" aborda temáticas relacionadas com alguns problemas da sociedade contemporânea com uma enorme sensibilidade, surpreendendo e conseguindo comover-nos de uma forma que não esperávamos inicialmente. A certa altura do filme, Rasa observa alguns dos seus colegas a serem chamados para serem despedidos. A câmara de filmar foca-se no seu rosto, nos gestos das suas mãos. Nota-se um enorme nervosismo. À volta de Rasa, ouve-se apenas o som das máquinas, incessantes e frenéticas, quase que substituindo o bater do seu coração em plena palpitação. Um momento sublime que anuncia um despedimento, numa obra que promete não despedir Gabriele Pichler do público e da realização cinematográfica.

Classificação: 3.5 (em 5)
Título em inglês: "Eat Sleep Die". 
Título original: Äta sova dö.
Realizador: Gabriela Pichler. 
Argumento: Gabriela Pichler.
Elenco: Jonathan Lampinen, Milan Dragišic, Nermina Lukac, Peter Fält, Ružica Pichler.

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