06 abril 2013

Resenha Crítica: "Deadfall"

 Addison (Eric Bana) e Liza (Olivia Wilde) são dois irmãos em fuga, após o roubo de um casino em Mount Pleasent não ter corrido como o esperado. Viajam de carro. Liza conta o dinheiro, Addison conduz, enquanto Theo acompanha a dupla. No entanto, tudo corre mal. Um despiste de automóvel leva a que Theo morra. Um polícia aparece de forma inesperada, algo que leva Addison a tomar o acto irreflectido de assassinar o agente. Sem meio de transporte, com uma tempestade de neve prestes a acontecer, estes são obrigados a separarem-se de forma a seguirem o plano de chegarem ao Canadá. Addison e Liza são os protagonistas de "Deadfall", o novo filme escrito e realizado por Stefan Ruzowitzky, um cineasta austríaco conhecido sobretudo por "Die Fälscher", o filme vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007. 
  Longe de poder ser considerado um filme candidato ao Óscar, ou até uma obra de excelência, "Deadfall" surge como um thriller salpicados com contornos noir, que é capaz de proporcionar alguns momentos de entretenimento, ao contar uma história recheada de tensão e violência, onde dois irmãos procuram a todo o custo fugir das autoridades, mas os seus planos acabam por não correr como o esperado. Liza logo encontra boleia quando se depara com Jay (Charlie Hunnam), um ex-presidiário que recebera ordem de soltura devido a bom comportamento, que se mete em problemas ao confrontar um dos seus antigos parceiros no crime. Quando encontra Liza, o ex-presidiário (e ex-boxeador) encontrava-se em direcção a casa de June (Sissy Spacek) e Chet (Kris Kristofferson), os seus pais, para passarem em conjunto o dia de Acção de Graças e tentarem resolver alguns problemas relacionados com o passado. 
 Por sua vez, Addison depara-se com um indivíduo meio louco que logo o tenta assassinar. Paralelamente à história de Liza e Addison, temos ainda as histórias dos pais de Jay, bem como a de Hanna (Kate Mara), uma polícia que é colocada de fora do caso da caça a Addison e Liza devido ao seu pai, o chefe da polícia, que não permite a sua presença por ser uma mulher. Quando Liza e Jay são forçados a parar num bar devido à neve, esta logo contacta o irmão a fornecer-lhe as coordenadas da casa de Jay, enquanto seduz facilmente este último, qual mulher fatal que inebria os sentidos e toda a desconfiança. O grande problema é quando Liza começa a nutrir sentimentos por Jay e o irmão desta procura seguir os seus planos, algo que promete correr mal, neste thriller violento, onde a morte parece estar sempre presente pelos gélidos cenários que permeiam a narrativa.
  Com a neve a permear os frios cenários povoados pelos sentimentos quentes daqueles que os habitam, "Deadfall" coloca-nos perante um thriller recheado de acção, violência e alguma sensualidade, onde todos parecem ter os seus pecados e estar prontos a utilizar a violência para resolverem os problemas. Logo na cena inicial de "Deadfall", o espectador é presenteado com um violento acidente de automóvel que provoca uma morte, seguido do assassinato de um polícia, um conjunto de momentos premonitórios do que aí vem no resto do filme. Ruzowitzky não poupa na acção, no sangue e na tensão, enquanto desenvolve as narrativas paralelas de Liza e Addison, num filme relativamente interessante, que é capaz de construir um certo sentimento de tensão junto do espectador, beneficiando do facto de contar com um elenco capaz de dar alguma dimensão à narrativa, sobretudo Eric Bana e Olivia Wilde. Bana surge como um indivíduo nihilista que cuida da sua irmã desde que esta é jovem, nutrindo sentimentos por esta que vão muito para além do amor fraternal, estando disposto a tudo para que nada nem ninguém se aproxime desta. Wilde interpreta um papel feito à sua medida, uma mulher jovem, enérgica, sedutora, que procura aproveitar-se do personagem de Hunnam, mas ao invés disso começa a nutrir sentimentos por este. 
 Os personagens de Olivia Wilde e Eric Bana não são os únicos a guardar esqueletos no armário. Veja-se que Jay acabou de sair da prisão, o pai de Hanna é um misógino do pior, entre outras figuras que povoam a narrativa. Os problemas com a figura fraterna não são exclusivos de Hanna. Grande parte dos personagens têm em comum o facto de lidarem com uma figura paterna abusiva ou com a qual mantêm uma relação familiar complicada: Hanna é filha do chefe do departamento da polícia que a descrimina por ser uma mulher, Addison salva uma jovem do padrasto abusivo, Liza e o irmão lidaram com um pai violento, Jay lida com um pai que o recrimina pelos erros do passado. Ou seja, estamos perante um conjunto de relações complexas mas que infelizmente nunca são devidamente desenvolvidas, sendo atiradas para a narrativa para dar uma artificial dimensão humana que surge reveladora das incoerências e lacunas do argumento do estreante Zach Dean. Se os personagens lidam com figuras paternais complicadas e vários esqueletos no armário, também não deixa de ser verdade que "Deadfall" conta com alguns problemas com o seu criador, ou melhor, o realizador Stefan Rutzowski, que desenvolve uma obra irregular que se destaca pelo tom negro que o cineasta atribui ao filme, apostando nos clichés e nos lugares-comuns, numa obra que fica muito aquém do seu potencial.
  Apesar dos vários clichés (filmes como "Key Largo" e "The Desperate Hours" abordam momentos semelhantes ao último terço da narrativa mas de forma muito superior), vale a pena realçar que "Deadfall" conta com alguns momentos de relativo interesse, entre os quais, o tom negro incutido à narrativa por Stefan Rutzowsky, a procura de estabelecer toda uma teia narrativa problemática em volta dos relacionamentos dos personagens, a sua capacidade para criar uma enorme tensão no último terço, entre outros aspectos deste thriller com salpicos neo-noir. Este tom negro que permeia a narrativa é adensado não só pela história, mas também pelo eficaz trabalho de fotografia, capaz de explorar os cenários interiores e exteriores, ao mesmo tempo que os coaduna ou contrasta com os personagens. Veja-se o caso da escolha dos cenários exteriores selvagens e recheados de neve em fúria, que se coaduna muitas das vezes com os sentimentos obscuros que contaminam os corpos e almas dos personagens. Com um elenco recheado de nomes talentosos, entre os quais Eric Bana, Olivia Wilde, Kate Mara, Kris Kristofferson, Sissy Spacek que claramente contribuem para dar uma certa credibilidade aos seus personagens, “Deadfall” revela-se um thriller violento e relativamente agradável de acompanhar, que surge como uma escolha adequada para uma tarde dedicada ao mais puro escapismo.


Classificação: 2.5 (em 5)

Título: “Deadfall”. 
Título em Portugal: "Deadfall - A Sangue Frio". 
Título no Brasil: "A Fuga" 
Realizador: Stefan Ruzowitzky.
Argumento: Zach Dean.
Elenco: Olivia Wilde, Eric Bana, Charlie Hunnam, Sissy Spacek, Kate Mara, Kris Kristofferson, Jason Cavalier.

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