27 abril 2013

Resenha Crítica: "The Act of Killing"

 "The Act of Killing" é um filme desgastante. Esta situação não se deve pela sua falta de relevância, ou pela incompetência de alguns dos seus envolvidos, mas sim por nos confrontar de forma crua e arrasadora com uma realidade que gostamos de fingir que não existe. É simplesmente arrasador ver o lado negro do ser humano a ser exposto de forma tão clarividente e paradigmática, através desta perturbadora obra realizada por Joshua Oppenheimer. "The Act of Killing" resulta da ida de Joshua Oppenheimer à Indonésia em 2002, para filmar os sobreviventes do massacre anticomunista de 1965-1966, que é como quem diz, centrando-se num conjunto de mercenários da pior espécie que mostram um orgulho grotesco por terem assassinado milhares de pessoas. Ao longo de mais de duas horas e meia, Oppenheimer consegue o impossível e hipnotiza-nos para o interior deste recital de violência física, psicológica e emocional, enquanto deambula pelos territórios da Indonésia e mostra o lado vencedor do massacre, com Sukarno a ser destronado por Suharto.
 O Governo de Suharto foi instituído graças a muita violência, mortes e violações dos direitos humanos, estabelecendo uma governação muito dependente da repressão, dos militares, dos grupos paramilitares e dos gangsters, dando espaço à ascensão de elementos como Anwar Congo, o foco principal da narrativa. Não se deixe enganar pelo aspecto aparentemente frágil deste senhor de idade avançada. Este cometeu vários assassinatos durante o massacre, orgulha-se disso e ainda apresenta de forma bastante gráfica como desenvolveu alguns dos seus crimes hediondos, sendo algo caricato quando este revela que passou a asfixiar as suas vítimas de forma a não sujar tudo de sangue. Poderíamos estar no interior de um filme de terror, mas estamos em algo ainda mais assustador: a realidade. Curiosamente estas figuras, incluindo o líder paramilitar Herman Koto, gostam bastante de cinema e diga-se que finalmente conseguiram ter o seu espaço, orgulhando-se dos seus actos ao ponto de pretenderem encenar algumas das execuções do genocídio. 
 "The Act of Killing" coloca-nos assim entre a realidade de Anwar Congo, Herman Koto e companhia, enquanto estes falam sobre os seus feitos sanguinários, gravam o seu filme como se estivessem em Hollywood, enquanto somos aos poucos invadidos por um sentimento de mal-estar tremendo. Como é possível a humanidade ter permitido tudo isto? Como será possível que nunca ninguém travou estas figuras diabólicas que eliminaram cerca de um milhão de vidas? Oppenheimer faz o favor a estas figuras e mostra-as em todo o seu esplendor e glória, numa Indonésia que os trata como heróis. E isso ainda é o mais insultuoso. Como é possível estes senhores considerarem-se e serem considerados como heróis? Com tantas questões que levanta, mal-estar, revolta e um enorme desgaste, "The Act of Killing" revela-se uma aposta ganha da parte de Joshua Oppenheimer, um documentário recheado de interesse, coeso, criativo, bem estruturado, cuja visualização se revela quase obrigatória para quem gosta de obras do género.
 Essa "obrigatoriedade" resulta não só desses elementos, mas também da capacidade do documentário em nos surpreender, seja nos depoimentos dos seus intervenientes, nas suas representações do filme que elaboram (onde não falta imitações de obras noir, musicais bizarros e homenagens a Al Pacino, Marlon Brando e Sidney Poitier), na violência das torturas, na forma como controlam partes do território Indonésio, entre outros elementos. Quem também surpreende são os seus intervenientes, que não têm problemas em expor a sua visão pervertida da política e sociedade, expor o seu passado sanguinolento, ao mesmo tempo que percebemos a conivência que os seus actos tiveram. No campo político, Anwar e companhia são idolatrados, na comunicação social são vistos com respeito (o dono de um dos principais jornais da Indonésia é uma figura odiosa), e até por alguns meios da comunidade internacional, ou seja, Joshua Oppenheimer leva-nos a visitar o Inferno na Terra, onde a liberdade é uma utopia, os direitos humanos uma brincadeira de 1 de Abril e a Guerra uma justificação para a perpetração de actos pervertidos.
 O indivíduo mais exposto a tudo isto é Anwar, um assassino da pior espécie, que na televisão local até foi apresentando com simpatia por ter encontrado um meio "mais humano" de assassinar outros seres humanos. Este é um fã de Hollywood, dos seus filmes, das suas estrelas, embora tenha assumido na realidade um papel como vilão. Anwar sente um notório orgulho no projecto cinematográfico que protagoniza, onde não falta muita violência, sangue, torturas, presença dos paramilitares, incluindo o Pancasila Youth, o grupo militar mais influente do país. Este projecto é um convite aberto ao espectador para entrar no Mundo degenerado destes homens, ao mesmo tempo que assistimos a alguma consciencialização dos seus actos por parte de Anwar, sobretudo quando repara que a cena de um massacre não é tão bonita de ver como se lembrava. Isso não impede que os gangsters (como os personagens tanto gostam de se chamar) não tirem um enorme prazer deste espectáculo meio surreal. 
Para além das representações para o filme que gravam a convite do realizador (e onde recriam os acontecimentos) e a todos os eventos já sugeridos, o documentário exibe que a paz é algo que ainda não existe na Indonésia contemporânea, enquanto os "gangsters" extorquem o dinheiro a cidadãos indefesos, como por exemplo os chineses, mostrando mais uma vez o seu lado mais negro, um lado que Oppenheimer mostra de forma crua e revoltante. Essa revolta pode ser adensada se tivermos em linha de conta que esta acção dos protagonistas do documentário não está assim tão distante do massacre efectuado aos índios (e destruição da sua cultura) nos Estados Unidos da América, como os "gangsters" chegam a salientar. A história é feita pelos vencedores dos conflitos, no caso da Indonésia esta está a ser escrita por um grupo de sanguinários, cuja comparação com a actuação norte-americana no Iraque, Afeganistão e afins pode ser efectuada (e a respectiva impunidade junto da comunidade internacional), embora com muita parcimónia. Oppenheimer esboça essa comparação através da exibição da influência da cultura norte-americana nestes indivíduos, mas raramente a explora de forma "ácida", embora seja notório que a crítica do cineasta não fica pela Indonésia e mostra que devemos ter uma atitude atenta e interventiva contra os crimes cometidos contra os Direitos Humanos.
 Não deixa de ser curioso que Anwar e companhia tenham pretendido que a história dos seus feitos fosse exposta no grande ecrã. Com "The Act of Killing" estes conseguiram chegar ao espectador deste magnífico e intenso documentário, não como os heróis que estes pensam ser, mas como um conjunto de assassinos do pior, cuja humanidade parece ter fugido da alma e sido contaminada pelos seus ideais extremistas que apenas servem para justificar o seu carácter louco. Parabéns Anwar Congo, é uma estrela de cinema. Perde a humanidade por nada ter feito contra os seus actos. "The Act of Killing" revela-se um documentário duro, desgastante e violento, que mostra a humanidade no seu lado mais negro, enquanto Joshua Oppenheimer revela uma sagacidade, maturidade e criatividade, que resultam numa obra que fica na memória muito tempo depois da sua visualização.

Classificação: 4.5 (em 5) 

Título original: "The Act of Killing" 
Realizador: Joshua Oppenheimer. 
Elenco: Anwar Congo, Herman Koto, Sakhyan Asmara, Syamsul Arifin

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