25 março 2013

Resenha Crítica: "Tutto Parla Di Te"

Regra geral a gravidez e o acto de ter um filho é visto como algo quase sagrado, um momento de beleza única e indescritível. Esta felicidade é desmistificada em "Tutto Parla Di Te", a primeira longa-metragem de ficção realizada por Alina Marazzi, um filme que aborda a história de Pauline, uma mulher que inicia uma pesquisa sobre as experiências e os problemas das mães modernas no Centro de Maternidade de uma amiga. Estamos longe daquela felicidade efusiva que muitas vezes encontramos nas conversas dos casais ou nos "feel good movies", com um conjunto de mulheres a mostrar os problemas causados por terem um filho, em particular Emma, uma jovem bailarina que frequenta o Centro de Maternidade onde se encontra a protagonista.
  Solitária e introspectiva, Pauline conta com alguns fantasmas no seu passado, que procura exorcizar ao estudar os vídeos das mães que frequentam o Centro, enquanto procura ajudar Emma a superar o trauma da maternidade, uma bailarina que viu os seus sonhos serem destruídos e os seus receios exponenciados pelo nascimento do filho. Recheado de silêncios dolorosos, momentos introspectivos, um bom trabalho de sonoplastia, "Tutto Parla Di Te" apresenta um duro retrato dos momentos que precedem a maternidade e os momentos posteriores à gravidez. Adensado por um belíssimo trabalho de fotografia, que raramente encontra paralelo na narrativa, o filme perde-se em constantes e excessivas redundâncias para expor o "lado negro" da maternidade, que nem sempre funcionam, com o passado de Alina Marazzi ligado à realização de documentários a ser visível neste conjunto excessivo de depoimentos individuais das mulheres que expõem a sua desilusão e problemas em relação ao acto de ter um filho.
 Entre discursos isolados de mães desiludidas, a relação de amizade quase maternal entre Pauline e Emma, a introspecção da protagonista, "Tutto Parla Di Te" procura lidar com as questões da ausência/presença maternal, o lado menos apolíneo de ter um filho, ao mesmo tempo que exibe um conjunto de mulheres deprimidas pelo nascimento dos seus filhos. Choro de bebés, sacrifícios profissionais e pessoais, várias são as temáticas relacionadas com o acto de ter um filho que são abordadas ao longo do filme, embora tudo seja sempre demasiado maniqueísta, ficando sempre a sensação de que se leva esta questão da maternidade a um extremo melodramático que tira alguma potência à mensagem transmitida. O que não falha é a belíssima estética do filme: as cenas a preto e branco do passado gerador de pouco orgulho da protagonista, as cenas filmadas com uma luz mais clara e intensa durante a gravidez de Emma, as cenas esporádicas em stop-motion que incutem alguma criatividade à forma de apresentar a narrativa, ou seja, é uma delícia poder apreciar o trabalho estético do filme, que incrementa quase sempre ao serviço da narrativa. 
 Apesar das suas limitações, "Tutto Parla Di Te" deveria ser uma obra de visionamento obrigatório a todos aqueles que desejam ser pais. Sim, apesar do filme apenas abordar o lado feminino da questão e ser algo redutor, a verdade é que explana algo de muito relevante: ter um filho não é a mesma coisa que comprar um peixinho vermelho que se alimenta duas vezes por dia, lava-se o aquário uma vez ou duas por semana e não se precisa de dar grande atenção. Muito pelo contrário. Ter um filho exige sacrifícios, é um compromisso para toda uma vida e promete não trazer apenas alegrias pelo caminho. Mérito para Charlotte Rampling e a surpreendente Elena Radonicich, cujos desempenhos atribuem uma dimensão extras às suas personagens, numa obra narrativamente limitada mas pedagógica, que surge acompanhada por uma estética belíssima, uma boa banda sonora e interpretações de bom nível, que chegam e sobram para dar uma oportunidade a "Tutto Parla Di Te". 


Classificação: 3.5 (em 5).

Título: “Tutto Parla Di Te”.
Realizador: Alina Marazzi.
Argumento: Alina Marazzi, Dario Zonta e Daniela Persico.
Elenco: Charlotte Rampling, Elena Radonicich,Valerio Binasco, Maria Grazia Mandruzzato.

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