27 março 2013

Resenha Crítica: "Promised Land" (Terra Prometida)

 Projecto pessoal de Matt Damon e John Krasinski, "Promised Land" surge como um drama sobre a redenção de um indivíduo, acompanhado por uma forte mensagem pedagógica contra as grandes corporações, ao mesmo tempo que procura expor um lado menos conhecido dos possíveis efeitos secundários da extracção de gás natural (a fracturação hidráulica). No entanto, não deixa de ser irónico que um filme onde está sempre presente um lado menos apolíneo do gás natural seja financiado, em parte, pela Image Nation Abu Dhabi, dos Emiratos Árabes Unidos, cujos interesses no mercado petrolífero agradecem a elaboração de uma obra que exibe um lado nem sempre positivo e com alguns erros da extracção deste combustível. Realizado por Gus Van Sant, um cineasta que sabe filmar como poucos, "Promised Land" acompanha Steve Butler (Matt Damon), um funcionário da Global Crosspower Solutions, hábil na arte de vender, que é destacado para uma pequena cidade rural da Pennsylvania ao lado de Sue Thomason (Frances McDormand) para conseguir convencer os cidadãos desta comunidade rural a venderem os direitos de exploração de gás natural dos terrenos.
 Steve é o típico bom falante, capaz de vender o que as pessoas querem e o que não querem. A sua arte na oratória surge acompanhada pelo seu suposto conhecimento dos cidadãos rurais, devido ao facto de ter nascido numa pequena comunidade rural no Iowa, sabendo o que é viver de forma miserável quando a terra deixa de render. Este poderia ser um vilão oportunista, mas, como o próprio salienta, não é, embora os seus actos sejam muitas das vezes questionáveis. Entre a procura de Steve em convencer os habitantes da cidade a assinarem os contratos de exploração do território ao lado da espirituosa Sue, o início de uma relação de amizade com Alice (Rosemarie DeWitt) e a quezília com o ambientalista Dustin Noble (John Krasinski), o filme acompanha a jornada redentora do protagonista, um indivíduo que procura não ser um vilão, embora durante parte do filme assuma essas funções.
 Habilmente filmado por Gus Van Sant, "Promise Land" apresenta uma forte crítica aos grandes conglomerados e empresas capitalistas que olham aos lucros e não às pessoas, em particular às empresas de extracção de gás natural. Apesar do seu ritmo excessivamente lento e de uma excessiva diabolização do processo relacionado com a extracção de gás natural, o novo filme de Gus Van Sant revela-se quase sempre agradável de acompanhar, contando com um magnífico trabalho de fotografia e um elenco recheado de talento, do qual sobressaem Matt Damon, Frances McDormand (magnífica), Hal Holbrook (como um dos habitantes que se opõe às ideias de Steve) e Rosemarie DeWitt. Capaz de atribuir uma grande credibilidade e carisma ao seu personagem, Damon revela dinâmicas muito interessantes, quer com McDormand, quer com DeWitt, interpretando um personagem mais complexo do que inicialmente pode parecer, enquanto a narrativa acompanhe a sua jornada de redenção numa pequena cidade rural, onde nada e muito parece acontecer.
 Representado de forma aparentemente idílica, com uma pureza que contrasta com o cinismo urbano dos grandes conglomerados, este território surge belissimamente representado pelo trabalho de fotografia de Limus Sandgren, que procura criar todo um ambiente que seja capaz de nos convencer que o território e as suas gentes são capazes de despertar uma mudança no protagonista, uma transformação gradual, enquanto somos apresentados a esta pequena e agradável cidade recheada de longos terrenos verdejantes, às suas casas e habitantes. Apesar da beleza da sua fotografia e das boas interpretações, "Promised Land" raramente consegue entusiasmar, parecendo tudo sempre muito certinho, muito comedido, até ao twist do último terço que promete dividir opiniões. Se comprar a ideia vendida pelo twist, a experiência do visionamento do filme será certamente mais gratificante. Se não comprar a ideia desta reviravolta pertinente mas inserida “às três pancadas” por um argumento pouco imaginativo, o mais provável é que saia da sala algo desiludido com o novo filme de Gus Van Sant.
 "Promised Land" está longe de ser um dos trabalhos mais entusiasmantes de Gus Van Sant, mas também está longe de ser mais um filme entre os muitos que estreia em sala. Eficaz a desenvolver a crítica aos grandes conglomerados e a expor a crítica ao processo de extracção de gás natural, menos hábil no melodrama que rodeia a mudança de comportamento do protagonista, "Promised Land" não nos leva a uma terra prometida, mas sim a um drama agradável, composto por um bom trabalho de fotografia, boas interpretações e uma magnífica banda sonora.


Classificação: 3 (em 5).

Título original: “Promised Land”.
Título em Portugal: “Terra Prometida”.
Realizador: Gus Van Sant.
Argumento: Matt Damon e John Krasinski.
Elenco: Matt Damon, Frances McDormand, Rosemarie DeWitt, Scoot McNairy, Titus Welliver, Hal Holbrook, John Krasinski.

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