23 março 2013

Resenha Crítica: "Milano Calibro 9"

As cenas iniciais de "Milano Calibro 9" dão o mote para o que podemos encontrar ao longo do filme: uma banda sonora inconfundível e cheia de ritmo, muita violência, suspense, intriga e confusão. Filme marcante do subgénero poliziottesco e da carreira do cineasta Fernando Di Leo, "Milano Calibro 9" surge como um belíssimo pontapé de saída para a chamada trilogia del milieu, uma trilogia que pode, deve e merece ser redescoberta. Recheada de reviravoltas, traições e violência, "Milano Calibro 9" acompanha Ugo Piazza (Gastone Moschin), um criminoso que é liberto da prisão após ter cumprido uma pena de três anos e logo se envolve numa série de problemas, quando os seus antigos companheiros e a polícia pensam que Ugo ficou com os trezentos mil dólares de um assalto que correu mal, no qual este participou antes de ser detido. 
 Por detrás desta aparente simplicidade narrativa relacionada com a descoberta da identidade do assaltante, "Milano Calibro 9" aborda temáticas que derivam muito da sua época, com este subgénero, herdeiro de um spaghetti western em declínio, a surgir não só da cópia e subversão de vários filmes policiais e da máfia norte-americanos, mas também de um olhar para o interior do país por parte do cinema italiano no início dos anos 70. Não falta a máfia (representado na figura do Americano), os atentados, a violência, a referência a uma população empobrecida que pode vir a se tornar criminosa, a crítica social, uma figura da polícia algo abusiva, temáticas que marcam a actualidade italiana deste período e surgem relativamente bem representadas em "Milano Calibro 9", um filme que tem o condão de nos surpreender e manter sempre presos à narrativa. Mérito para Fernando Di Leo, que cria uma atmosfera de incerteza onde raro é o personagem que é inocente ou de boa índole, ao mesmo tempo que nos apresenta a uma teia de traições e reviravoltas centradas no personagem interpretado por Gastone Moschin, um criminoso solitário pronto a envolver-se em confusões. 
  Duro, inteligente, aparentemente impassível, quase desprovido de emoções, Ugo tem de lidar com Rocco (Mario Adorf), o psicótico ex-companheiro e o chefe deste último, o Americano (um imponente Lionel Stander), um polícia implacável (Frank Wolf), um amigo assassino (Philippe Leroy) que também não morre de amores pelo italiano, bem como a sensual Nelly Bordon (Barbara Bouchet), uma bailarina que namora com o anti-herói. A forma como a personagem de Bouchet é apresenta ao espectador é paradigmática das qualidades a nível de fotografia e de montagem do filme (expressas desde logo nos minutos iniciais), com esta a surgir numa dança extremamente sensual (o uso e abuso do corpo da mulher é normal no poliziottesco), que destoa com a brutalidade que rodeia toda a narrativa, onde o crime paira por todos os poros do enredo. Com um conjunto de cenas de acção frenéticas e bem elaboradas, uma banda sonora electrizante de Louis Balacov, muita violência, crítica social, uma história simples e capaz de surpreender, "Milano Calibro 9" é daquelas obras que nos faz questionar: Como é que só descobri este filme agora?

Classificação: 4 (em 5)

Título: "Milano Calibro 9". 
Realizador: Fernando Di Leo.
Argumento: Fernando Di Leo.
Elenco:
Gastone Moschin, Mario Adorf, Philippe Leroy, Barbara Bouchet, Frank Wolf, Lionel Stander.

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