26 março 2013

Resenha Crítica: "La Leggenda Di Kaspar Hauser"

  Durante a apresentação de "La Leggenda Di Kaspar Hauser", Stefano Savio, o director artístico do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, não se despediu dos espectadores com um "bom filme", mas sim com um "boa experiência". Esta expressão não poderia ser mais acertada. "La Leggenda Di Kaspar Hauser" não é um filme para ser compreendido, mas sim sentido e experienciado. Este coloca-nos fora das nossas zonas de conforto, apresenta uma narrativa algo desconexa, confusa e surreal, enquanto se revela uma experiência sensorial única. O novo filme realizado por Davide Manuli é livremente inspirado na lenda de Kaspar Hauser, uma criança abandonada que foi encontrada na praça Unschlittplatz em Nuremberga, na Alemanha, durante o Século XIX, com alegadas ligações com a família real de Baden. Supostamente, Hauser passou os primeiros anos de sua vida preso numa cela, algo que o impediu de aprender a expressar-se num idioma.
  Esta história deu origem a "O Enigma de Kaspar Hauser" de Werner Herzog e tem peripécias que dão "pano para mangas", mas Davide Manuli tem nesta lenda apenas um ponto de partida para um espectáculo cinematográfico extravagante, louco, meio surreal e pretensioso que logo se descola da lenda e promete não nos deixar indiferentes. Ao som da electrizante banda sonora recheada dos ritmos techno de Vitalic, com um belíssima fotografia a preto e branco, uma história desconcertante e uma atmosfera hipnótica, "La Leggenda Di Kaspar Hauser" coloca-nos no interior de um território desconhecido, num tempo incerto, habitado por estranhas gentes que vêm as suas vidas mudarem quando o príncipe Kaspar Hauser (Silvia Calderoni) surge do mar. Não falta um xerife DJ (Vincent Gallo) que considera Kaspar uma espécie de "Messias"; Pusher (Gallo em duplo papel), um criminoso que mantém uma relação com uma Grã-Duquesa (Claudia Gerini) com vestes à dominatrix; uma psíquica muito sensual (Elisa Sedanoui); um padre muito peculiar; um indivíduo bizarro pouco capaz de articular frases e um homem acompanhado por uma mula.
 Há que elogiar a audácia de Davide Manuli e o seu engenho para elaborar uma obra cinematográfica que parece directamente saída de uma pintura surrealista. Se "Holy Motors" desafia o espectador até ao limite, "La Leggenda Di kaspar Hauser" promete simplesmente deixá-lo às aranhas perante a onda de loucura que ataca o grande ecrã, onde uma narrativa algo desconexa e extravagante revela-se poderosa ao ponto de não querermos deixar de a seguir, mesmo quando tudo está uma incrível confusão. Grande parte do valor de "La Leggenda di Kaspar Hauser" advém exactamente da sua capacidade única de despertar sentidos e sensações, onde música e imagem surgem aliadas a uma história desconcertante, algo que se revela uma experiência e tanto, onde o melhor é mesmo não procurar compreender tudo, pois Davide Manuli parece constantemente procurar o limite no qual o espectador se pode fartar e abandonar a sala.
  O próprio protagonista é uma figura que nunca chegamos totalmente a perceber. Com headphones na cabeça, o nome de Kaspar Hauser na cabeça, o momento em que este acorda é paradigmático de todo o clima do filme: louco. Numa espécie de jaula, ao ritmo techno, esta (sim o Kaspar Hauser de Manuli é uma mulher) abana a cabeça como se fosse um DJ de uma discoteca, enquanto sente a batida, mostra a sua loucura e enche de bizarria um cenário, que por si só já era estranho o suficiente. Tudo é centrado nas sensações e emoções, algo que advém não só do magnífico trabalho de fotografia, capaz de explorar o território da Sardenha onde é filmado "La Leggenda di Kaspar Hauser", mas também da música ritmada de Vitalic, do clima surreal e hipnotizante, e das excelentes interpretações do elenco. 
 Vincent Gallo tem um papel de extrema importância com o seu duplo papel, dois indivíduos loucos, cujos diálogos que proferem não fazem grande sentido. O seu xerife é um louco que venera Kaspar, que constantemente exibe a sua paixão pela música techno e por terminar as frases em "yeh", enquanto Pusher é um criminoso especialista em estranhos movimentos de dança. A juntar a Vincent Gallo temos uma magnífica Silvia Calderoni, que surpreende com o louco (ou louca) Kaspar Hauser. Se as interpretações dos actores e actrizes podem ser avaliados com relativa facilidade, o mesmo não se pode dizer da coerência da história. Exemplo de um cinema experimental que desafia as barreiras narrativas, "La Leggenda Di Kaspar Hauser" brinca com as convenções, atira o espectador para fora da sua zona de conforto e surpreende-o com um espectáculo cinematográfico hipnotizante, que mais do que entendido deve ser sentido. Com um excelente trabalho de fotografia, uma banda sonora electrizante, uma história louca, "La Leggenda Di Kaspar Hauser" é daqueles filmes que não se deve perder, nem que seja pela experiência de ver algo tão desafiante e pouco convencional.


Classificação: 3.5 (em 5)
Título: “La Leggenda Di Kaspar Hauser”.
Realizador: Davide Manuli.
Argumento: Davide Manuli.
Elenco: Vincent Gallo, Elisa Sednaoui, Claudia Gerini, Silvia Calderoni, Fabrizio Gifuni.

2 comentários:

Hassan disse...

Olá, você tem algum link aonde eu possa fazer o download do filme para que eu possa vê-lo. Abraços, Has.

Aníbal Santiago disse...

Vi o filme numa mostra de cinema italiano, mas já se encontra pela torrent. Cumprimentos