27 março 2013

Resenha Crítica: "Il Futuro"

 Baseado no livro "Una Nuvelita Lumpen" de Roberto Bolaño, "Il Futuro" apresenta-nos a uma obra cinematográfica recheada de sensualidade onde as poderosas imagens em movimento têm o condão de ficarem gravadas na nossa memória. Com um notável trabalho de fotografia, onde as cores saturadas e a iluminação criam uma atmosfera belíssima, "Il Futuro" acompanha a história da jovem Bianca (Manuela Martelli) e o seu irmão Tomás (Luigi Ciardo), cujo futuro não parece muito brilhante. Os pais morreram recentemente num acidente de viação, pelo que Bianca tem de ficar com o irmão, ainda menor, a seu cargo. A pensão recebida pela morte do pai mal dá para a alimentação, enquanto a pensão da mãe é inexistente pois esta estava num trabalho precário.
 O efeito da morte dos pais não é paradigmaticamente representado pelas palavras, mas sim pelos gestos e pelos cenários. A casa continua por arrumar, o copo com o batom da mãe e as luvas de lavar a loiça continuam no mesmo local, o cinzeiro com o formato de um coliseu romano continua com os cigarros apagados que devem ter pertencido a algum dos progenitores. Um conjunto de objectos reveladores do facto que a morte dos pais dos protagonistas decorreu num tempo recente, ao mesmo tempo que evidenciam a notável atenção de Alicia Scherson aos cenários e aos objectos que os povoam para expressar o que pretende, algo que neste caso se traduz numa morte que ainda está por arrumar na cabeça dos jovens, um sentimento de imobilismo e dificuldade em aceitar a nova condição, que raramente surge explanado nas palavras.
 Perante as dificuldades financeiras, Bianca torna-se numa ajudante de cabeleireira, enquanto Tomás consegue um part-time a ajudar a limpar num ginásio onde conhece dois delinquentes que prometem mudar as vidas dos irmãos. Estes dois indivíduos instalam-se na casa dos dois irmãos e cedo arrasam com o seu quotidiano. Os dois demonstram grande interesse por Bianca, não só a nível sexual, mas também por terem um plano em mente, que passa por utilizar a jovem de 19 anos para seduzir e roubar Maciste (Rutger Hauer), uma ex-estrela de cinema, cego e de idade algo avançada, que guarda a sua suposta fortuna no interior da sua casa. Convencida pelos dois falsos amigos para conquistar a confiança de Maciste e satisfazer os desejos sexuais da antiga estrela, Bianca envolve-se num jogo de sedução, mentiras e intrigas, que prometem trazer resultados inesperados, sobretudo quando esta começa a formar uma amizade com o musculado Maciste.
 Drama visualmente potente, onde a sensualidade rodeia os corpos dos personagens e as imagens em movimento, "Il Futuro" cria uma atmosfera envolvente e hipnotizante, que desperta sensações e emoções enquanto nos apresenta de forma pertinentemente lenta a história de dois jovens em busca de um futuro. Bianca procura uma figura paternal e um futuro junto de Maciste e a sua casa. Tomás procura uma figura que o guie nos dois amigos de índole duvidosa. Enquanto isso, o espectador é guiado pelas imagens em movimento criadas por Alicia Scherson, um conjunto imagético belíssimo, recheadas de cores saturadas, planos estáticos e uma sensualidade perturbadora, ao mesmo tempo que homenageia o cinema e a arte de fazer filmes.
 Esta homenagem vem não só das hipnotizantes imagens em movimento, mas também da própria figura do Maciste, das frequentes passagens da protagonista pelo Cinecittá e claro está pelos filmes antigos que Bianca assiste que evocam o clássico personagem Maciste. Este é um personagens recorrente da história do cinema italiano, tendo atingido uma grande popularidade na década de 50 e 60, uma espécie de homem mitológico muito parecido com Hércules, que utilizava sua descomunal força para realizar feitos heroicos e surgia em filmes B. Aqui, Maciste é interpretado por Rutger Hauer, numa actuação assombrosa, peculiar, onde é possível ver todo o cansaço e insegurança, que encontram na bela Bianca o estertor para o estimular da sua vida sexual e pessoal. A casa de Maciste é um local sui generis. Algo obscura e tenebrosa, próxima de um castelo assombrado onde a luz pouco penetra, esta casa, recheada de mistérios e segredos por descobrir, quer do seu proprietário, quer das suas divisórias, é o local primordial onde a protagonista toma algumas das suas decisões mais importantes para o futuro e se envolve num jogo sensual e erótico hipnotizante.
 A cena em que Maciste banha a jovem com óleo é paradigmático de toda a sensualidade e erotismo que rodeia algumas das cenas entre Maciste e Bianca. Ele com aspecto bruto, envelhecido pelo tempo e pela vida, cujos momentos gloriosos são sombras do passado. Ela é frágil e sensual, com um futuro pela frente. Maciste procura na jovem Bianca recuperar as suas glórias passadas. Bianca procura em Maciste uma resposta para o seu futuro. Os dois descobrem-se, mas não se conhecem, enquanto o filme aborda a estranha relação destes personagens, iniciada numa procura da jovem em levar a cabo um golpe que o arruinaria, mas logo se desenvolve em algo de diferente. O que é mesmo diferente é "Il Futuro", um filme que nos momentos futuros ao seu visionamento nos deixa a pensar sobre o mesmo, suscitando o debate, despertando os nossos sentidos e ficando gravado na nossa memória. Mesmo que a sua história nunca atinja a potência gloriosa das suas imagens em movimento, com o seu último terço a nunca parecer ficar devidamente resolvido, "Il Futuro" revela a capacidade da chilena Alicia Scherson em desenvolver uma obra cinematográfica que não se vê todos os dias nas salas de cinema.
 Primeira co-produção entre produtoras do Chile e de Itália, "Il Futuro" confirma ainda os bons resultados que estas co-produções trazem para o cinema chileno (algo aprofundado aqui). Obra cinematográfica de rara beleza, "Il Futuro" expressa com imagens e sentimentos aquilo que nem sempre as palavras conseguem dar, enquanto apresenta um drama competente que surge abafado pela sua beleza imagética. Com excelentes interpretações de Manuela Martelli e de um inesquecível Rutger Hauer, uma fotografia belíssima, um domínio magnífico da mise en scène, "Il Futuro" é um deleite a nível visual, uma obra de arte sensual e de rara beleza, que deixa marca na nossa memória.

Classificação: 4 (em 5)

Título: "Il Futuro".
Realizador: Alicia Scherson.
Argumento: Alicia Scherson.
Elenco: Manuela Martelli, Rutger Hauer, Luigi Ciardo, Nicolas Vaporidis, Alessandro Giallocosta.

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