28 março 2013

Resenha Crítica: Ferrugem e Osso ("De Rouille et D'os")

“Ferrugem e Osso” (ou “De rouille et d’os), a nova incursão do prestigiado Jacques Audiard na direcção de filmes após a realização do aclamado “Um Profeta”, é um drama intenso e envolvente do início ao fim da narrativa. Esta intensidade é visível desde logo pela história de Stéphanie (Marion Cotillard), uma treinadora de baleias Orcas que, no decorrer de um espectáculo, a meio de uma coreografia ao som de uma música da Katy Perry e diante de centenas de espectadores, sofreu um acidente quando uma baleia subitamente perdeu o controlo, atacou a plataforma onde dançavam os treinadores e a lançou inconsciente para o meio da água. Depois desta cena Stéphanie vai acordar, supomos que uns dias depois, na cama de um hospital quase desértico, escuro e triste. Olha para as pernas, mas não as vê. Audiard mostra-nos, ao invés, um plano da água da piscina tingida de sangue, e percebemos que foram devoradas ou simplesmente arrancadas por uma baleia. A treinadora vai entrar em pânico, gritar e atirar-se da cama a chorar, em desespero.
 Tinham-me contado, a priori, que “Ferrugem e Osso” é “aquele filme em que a Marion Cotillard perde as pernas”, o que me levou a pensar que estava prestes a ver umas duas horas de película particularmente deprimentes, centradas no sofrimento de uma personagem destinada a desesperar durante dias e meses e a levar consigo todos os familiares e amigos. Pela forma como descrevi a cena ali em cima, o leitor poderá ter pensado o mesmo. Tudo não passou, porém, de um falso alarme, pois Stéphanie (tal como o espectador) vai ser poupada a tal destino graças à amizade que vai formar com Alain (Matthias Schoenaerts), um homem grande e atlético com um passado meio misterioso, que em vez de demonstrar pena pela mulher como todos os outros o fazem vai tratá-la com alguma naturalidade, independente do seu estado físico. Vai-se criando, deste modo, uma relação entre os dois que se irá fortalecer com o tempo, enquanto estes, sem o saberem, se vão apaixonando um pelo outro.
 Com esta premissa por base, o filme vai assentar na consolidação da relação entre Stéphanie e Alain, e na procura inglória de cada um em estabilizar ou apenas prosseguir com as suas atribuladas vidas. Um dos pontos fortes do filme é, efectivamente, o facto de as duas personagens formarem um par muito interessante, e apesar de à primeira vista pouco terem em comum, vamos notando que parecem partilhar uma infelicidade constante e uma sensação de que mesmo nos momentos mais felizes, nem tudo está bem.
Alain, bem interpretado por Matthias Schoenaerts, é-nos apresentado no início do filme ao trazer consigo uma criança de ar simpático com cerca de dez anos (o filho), e deduzimos que não tem muito dinheiro quando o vemos a vasculhar um caixote do lixo à procura de comida ou a sair a correr de uma loja de rua com uma bela máquina fotográfica na mão, deixando a criança à espera num canto do passeio. Desconhecemos o seu passado, mas supomos que não está habituado a conviver com o filho, apesar de parecer gostar dele, e é-nos também dado a entender que tem alguns anos de experiência em artes marciais. O seu futuro, esse passa por viver durante algum tempo em casa da irmã, num bairro pobre, mas com árvores e um pátio com cães para Sam (o filho) brincar, enquanto vai ganhando algum dinheiro a trabalhar como segurança. Pelo lado, vai ganhar alguns trocos em lutas de rua organizadas por um bando de indivíduos de aspecto pouco amigável, que afinal até nem vão ser tão maus quanto isso.
 A personagem de Stéphanie não é tão complexa e não foi tão desenvolvida, mas as circunstâncias vão exigir de Marion Cotillard um desempenho à primeira vista mais exigente do que o do colega. As repercussões do acidente não vão ser particularmente surpreendentes, e Stéphanie vai sofrer uma depressão inicial que aos poucos vai sendo ultrapassada à medida que aquela se vai habituando, com moderação e sem medo, a um novo estilo de vida, contando quase sempre com o apoio de Alain, que a par da sua irmã, que pouco aparece, é o único que se preocupa com o seu bem estar.
 A essência do filme baseia-se nas atribulações desta relação pouco convencional, e parece-me que o trunfo de Jacques Audiard e Thomas Bidegain (argumentista, a par de Audiard) é a incerteza e a tensão criadas do início ao fim da narrativa. Desde o acidente, claro, até às referidas lutas de rua, e passando pelas cenas tensas protagonizadas por Alain e pelo filho, vamos estar num constante estado de ansiedade, aligeirado por vezes graças a alguns momentos de maior descontracção e, por vezes, de humor. Não interessa, assim, que Stéph comece a conseguir lidar com a sua nova condição física, ou que a vida de Alain pareça começar a ganhar uma maior estabilidade, pois temos a certeza de que se aproxima uma catástrofe, e sabemos também que quanto mais felizes forem as personagens, mais desastrosas vão ser as repercussões do acontecimento.
Para esta ideia resultar, logicamente, há que dar mérito ao argumento e à realização, que nunca perdem uma oportunidade para solidificar a empatia entre as personagens e o espectador, utilizada com saber de forma a aumentar o impacto e a intensidade das cenas mais perturbadoras, que beneficiam por sua vez de um bom trabalho de fotografia. Uma palavra ainda para a banda sonora, que não se evidencia apenas nas cenas mais intensas do filme, sobressaindo também nas mais descontraídas, que fazem uso do talento do grande Bruce Springsteen e de Bon Iver.
 “Ferrugem e Osso” é, como tal, um filme que deve ser visto por aquele que acabou de perder alguns minutos a ler estas divagações. É triste sem o ser demasiado, é cativante e deveras interessante, e tem excelentes desempenhos de Mathias Schoenaerts e sobretudo de Marion Cottilard. Até é possível que aquele filme deprimente que cheguei a imaginar, centrado no sofrimento de Stéphanie, fosse mais memorável – para mim, claro - por ser mais pesado e intenso, mas a ideia não terá passado pela cabeça de Audiard, que evidencia mais uma vez o seu talento para desenvolver obras intensas protagonizadas por indivíduos meio à margem da sociedade. Desta forma, o acidente no parque aquático não foi uma cena definidora da narrativa, mas sim uma entre outras cenas de grande relevância. É o que é, e a meu ver resultou. E não tendo a certeza se “De rouille et d’os” chegará ao final do ano como um dos melhores filmes a ter estreado em Portugal em 2013, há que reconhecer que, pelo menos para já, estamos muito bem servidos.

Pontuação: 4 (em 5)

Título original: De Rouille et D'os
Título em Portugal: Ferrugem e Osso
Realização: Jacques Audiard
Argumento: Jacques Audiard, Thomas Bidegain e Craig Davidson
Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero, Bouli Lanners e Jean-Michel Correia.

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