26 março 2013

Resenha Crítica: "Bellas Mariposas"

 Nos últimos anos, Itália tem sido noticia pelos escândalos de Silvio "Bunga Bunga" Berlusconi, crise financeira, turbulência política e já nem no futebol dão cartas como outrora. Estamos longe dos tempos de prosperidade do Império Romano. 'Bellas Mariposas' convida-nos a entrar na Itália das margens, em particular de um bairro desfavorecido de Cagliari, através de Cate (Sara Podda), uma pré-adolescente rebelde, que vive de forma miserável com os pais e os vários irmãos. O pai (Luciano Curreli) vive da pensão de invalidez, embora não seja inválido, tendo como hobbies fazer filhos e ver pornografia. A mãe (Marina Loy) também vive da pensão de invalidez, embora seja mesmo inválida e seja obrigada a fazer limpezas para trazer fundos extra para dar alguma dignidade à família. Cate tem o sonho de ser uma estrela de rock, tendo no gosto de nadar uma abstracção à sua dura realidade e em Luna (Maya Mulas) a sua melhor amiga.
 Baseado no livro homónimo da autoria de Sergio Atzeni, "Bellas Mariposas", o novo filme realizado por Salvatore Mereu, desenrola-se num bairro degradado, nos seus edifícios e nos seus valores, através do quotidiano de uma adolescente problemática. Existe todo um clima sufocante a rodear os personagens e os cenários de 'Bellas Mariposas': A casa da protagonista surge degradada nos seus alicerces e nos valores daqueles que a habitam; o bairro da cidade de Cagliari está recheado de figuras obscuras de índole duvidosa parecendo um beco sem saída, onde quem lá habita vê os seus sonhos serem asfixiados por este mundo de privações, violência, crime, poucos valores morais, embora exista um certo optimismo em relação ao futuro por parte da protagonista. Vale a pena realçar o mérito de Salvatore Mereu ao conseguir desenvolver de forma sublime este drama leve e bem construído, que aborda um conjunto de temáticas problemáticas relacionadas com os bairros sociais, enquanto acompanha a passagem de uma rapariga para a idade adulta. 
 Cate não é uma rapariga comum, ou melhor, até apresenta características como muitas outras, embora viva num meio que parece servir mais para brutalizar as pessoas do que para lhes prestar dignidade ou integrar na sociedade. Esta é uma pré-adolescente rebelde, que pragueja, tem sonhos e hobbies, gosta de fumar, é tudo menos inocente, tendo de lidar com um horda de irmãos e irmãs, que raramente conseguem igualar a cumplicidade que Cate tem com Luna. Ao lado de Luna, Cate deambula por vários locais de Cagliari, passeia pela praia, envolve-se em confusões, enquanto ambas crescem, enfrentam a realidade e deparam-se com a vida e diga-se que esta nem sempre é agradável, tal como as temáticas apresentadas por 'Bellas Mariposas' nem sempre são as mais fáceis de se ver. Violência, prostituição, pedofilia, degradação de valores, falta de acompanhamento paternal e escolar, vários são os elementos que rodeiam o mundo de Cate, uma protagonista relativamente simpática, que constantemente quebra a quarta parede para dirigir-se ao espectador. 
 A decisão de colocar a protagonista a falar com o espectador é inteligentemente colocada ao serviço da narrativa. Salvatore Mereu não se limita a querer mostrar a jornada de Cate, mas também a levar o espectador para junto da protagonista, com esta última a saber que está a ser vista, uma técnica que não é uma inovação, mas surge aplicada de forma certeira ao serviço da história. Uma das razões para esta situação funcionar advém da boa interpretação da jovem Sara Podda, que consegue criar uma personagem rebelde, capaz do melhor e do pior, que mantém sempre um tom optimista em relação ao seu futuro. Ao ver a personagem brilhantemente interpretada por Sara Podda é praticamente impossível não me recordar de Nick Romano, o delinquente defendido pelo personagem de Humphrey Bogart em "Knock on Any Door" de Nicholas Ray. Nick era um jovem bem comportado e de boa índole, até que a sua vida entra numa espiral negativa com o falecimento do pai e a mudança para um bairro social, algo que poderia acontecer a Cate. Não estamos aqui a dizer que um bairro social é o propulsor da falta de valores ou da marginalidade, mas sim que existe toda uma falta de atenção para as populações das margens, que raramente visam a integração das mesmas na sociedade, algo que surge bem representado neste filme que procura acima de tudo apresentar a história de uma adolescente que cresce num meio adverso. 
 Mais do que estar preocupado em criar um dramalhão denso, Salvatore Mereu procura desenvolver a história da sua protagonista de forma algo optimista, ao mesmo tempo que nos apresenta ao meio que esta habita e à amizade desta com Luna, algo que dá espaço a Sara Podda e Maya Mullas para sobressaírem, com a câmara de filmar a dar a devida atenção às suas personagens, duas adolescentes com grande química que são tudo menos inocentes. Poucos são verdadeiramente inocentes ao longo do filme. Não faltam menores a falarem abertamente de sexo, adultos a utilizarem subsídios estatais por puro parasitismo, miséria, prostituição, pedofilia, entre outras temáticas, num drama bem elaborado, onde uma adolescente cheia de sonhos procura crescer num ambiente pouco recomendável e contrariar o pessimismo do meio que a rodeia. Com um bom trabalho de fotografia, excelentes interpretações de Maya Mullas e Sara Podda e um argumento bem construído, “Bellas Mariposas” revela o engenho de Salvatore Mereu na realização cinematográfica ao desenvolver um drama agradável cujas temáticas são universais e merecem ser alvo de reflexão. 

Classificação: 4 (em 5). 

Título: "Bellas Mariposas". 
Realizador: Salvatore Mereu.
Argumento: Salvatore Mereu.

Elenco: Sara Podda, Maya Mulas, Davide Todde, Simone Paris, Luciano Curelli.  

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