23 março 2013

Resenha Crítica: "A.C.A.B. - All Cops Are Bastards"

 A.C.A.B., ou “All Cops are Bastards” é um acrónimo utilizado como um protesto contra a polícia, quer por skinheads, hooligans, presidiários, ou protestantes revoltados com a acção violenta das autoridades. "ACAB - All Cops Are Bastards", o primeiro filme realizado por Stefano Sollima, o filho de Sergio Sollima, exibe logo de início este sentimento anti-polícia numa manifestação popular, na qual encontramos um grupo de pessoas prontas a utilizar a violência no protesto e as forças da autoridade prontas a responder de maneira ainda mais agressiva. Está dado o mote para "A.C.A.B.", um filme que procura apresentar o quotidiano de um grupo de polícias de intervenção pública, sem julgar ou tomar partido por estes, mas claro está que este desiderato benemérito nem sempre resulta, com o filme a procurar fazer uma apologia da violência das autoridades em situações extremas.
 Eficaz a demonstrar o espírito de equipa e os hábitos e acções codificadas por regras internas de um grupo da polícia de choque, "A.C.A.B." começa desde logo a apresentar em grande estilo a preparação para uma intervenção numa manifestação. Toca a música "Seven Nation Army" dos White Stripes, os polícias vestem-se a rigor, preparam os bastões, escudos, armas, entre outros objectos, que visam não só a defesa, mas também o ataque. Os escritos efectuados pelo Tenente Cobra na parede são bem claros: "Além do dever com a pátria e a honra de defendê-la, o espírito que une um esquadrão após uma batalha será para sempre inseparável", um lema que parece ser seguido a rigor, mesmo quando algum dos elementos transgride a lei. Um dos elementos que desperta a atenção em "A.C.A.B. - All Cops Are Bastards" passa exactamente pela sua capacidade de desenvolver a dinâmica no interior do esquadrão recheado de idiossincrasias liderado por Mazinga (Marco Giallini), bem como a vida pessoal da maioria dos seus elementos, ao mesmo tempo que nos apresenta a uma Itália mais obscura, onde a violência apenas parece ser possível de combater com violência.  
 É exactamente ao procurar exibir esta violência policial que combate a violência criminosa, com a acção dos polícias a fugir bastante à lei, que o filme acaba por nunca ser tão imparcial como pretende, acabando quase sempre por "justificar" actos mais violentos cometidos pelas autoridades. A partir daqui encontramos a maior qualidade do filme: fazer-nos pensar sobre as suas temáticas. Será que os actos da polícia são justificados? A lei deve ser respeitada mesmo quando se está a combater ser um criminoso violento? Deve-se ser violento a cumprir a lei, mesmo que esta seja imoral? A verdade é que se torna complicado ver o filme e não defender a atitude das autoridades quando encontramos skinheads, claques prontas a partir tudo, agressões sobre os polícias, entre outros elementos. E aqui "A.C.A.B." remete para algo também interessante que passa pela temática da violência cometida sobre a polícia. Quem defende os polícias? A verdade é que ninguém, são eles que têm de se defender a si próprios, daí uma necessidade de um espírito de grupo forte, algo também apresentado ao longo do filme realizado por Stefano Sollima. 
 O filme é particularmente incisivo neste desenvolvimento do espírito de grupo, ao mesmo tempo que Stefano Sollima procura exibir as idiossincrasias e a vida pessoal de cada um. Cobra (Pierfrancesco Favino) é o elemento que mais se destaca, um polícia duro, violento, com um sentido de espírito de grupo ímpar, mas com uma conduta violenta questionável. Mazinga é o líder do esquadrão, um indivíduo de meia-idade que tem lidar com o facto do filho pertencer a um grupo xenófobo que se envolve em vários desacatos. Negro (Filippo Nigro) é um indivíduo algo instável, cujo divórcio com Miriam e a impossibilidade de ver a filha Carolina levam a que nem sempre seja capaz de manter o discernimento no trabalho (Nigro protagoniza uma cena emocionalmente muito poderosa quando perde a guarda da filha e questiona sobre quem o protege a si). Por fim, temos ainda Adriano (Domenico Diel), um agente novato, cujo passado nas ruas leva a que tenha algumas amizades questionáveis, embora pareça sempre o que menos consegue lidar com as situações à margem da lei cometidas pelo seu grupo.
 É neste balançar constante entre a vida privada e laboral do grupo que a narrativa do filme baseado no livro homónimo de Carlo Bonini se desenvolve, ao mesmo tempo que exibe uma Itália em erupção, onde o crime e a violência parecem fazer parte da ordem do dia. Quem acompanha futebol sabe que a violência e a xenofobia no interior de algumas claques extremistas italianas não são novidade (e quem diz de Itália pode dar exemplos de outros países), "A.C.A.B. - All Cops Are Bastards" exibe isso mesmo, ao mesmo tempo que mergulha no interior dos movimentos xenófobos, na corrupção política, nos grupos criminosos, um Mundo onde a lei nem sempre parece conseguir actuar. A partir do momento em que Mazinga é esfaqueado por um tiffosi adepto do Roma disfarçado de apoiante da Lázio, logo a narrativa acrescenta este elemento da busca pelos criminosos, com o realce da pouca relevância social dada ao crime cometido sobre o elemento da polícia, com Stefano Sollima, a fazer jus ao seu apelido e a desenvolver um filme violento, onde a ténue linha que separa a legalidade da ilegalidade é frequentemente ultrapassada.
  Apesar de raramente atingir o seu desiderato de imparcialidade, "A.C.A.B. - All Cops Are Bastards" revela-se uma agradável surpresa, sendo capaz de nos fazer questionar, de incitar debates e problematizar uma temática que regra geral gera quase sempre situações extremistas, num filme que surge como um legítimo herdeiro de alguns dos poliziottesco dos anos 70. Com um bom trabalho de fotografia, capaz de expressar a instabilidade que rodeia todos os personagens, uma banda sonora electrizante, um conjunto de boas interpretações por parte do elenco principal (Pierfrancesco Favino é um actor com A grande), "A.C.A.B. - All Cops Are Bastards" marca uma estreia muito interessante de Stefano Sollima na realização de longas-metragens, onde o estilo surge aliado ao conteúdo narrativo.

Classificação: 4 (em 5).

Título: “A.C.A.B. - All Cops Are Bastards”.
Realizador: Stefano Sollima.
Argumento: Daniele Cesarane, Barbara Petronio, Leonardo Valenti.
Elenco: Pierfrancesco Favino, Filippo Nigro, Marco Giallini, Andrea Sartoretti, Domenico Diele.

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