25 março 2013

Entrevista a Stefano Savio, director do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

Aviso prévio: Entrevista a Stefano Savio (o director artístico do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano) originalmente publicada na Take Cinema Magazine. Foto da autoria de Joana Linda.

Aníbal Santiago: O 8 1/2 Festa do Cinema Italiano chega este ano à sua sexta edição permitindo aos cinéfilos assistirem a boas obras cinematográficas italianas, algo raro de acontecer em circuito comercial. Pode falar um pouco sobre as principais linhas de força da programação? 

Stefano Savio: A programação deste ano (tal como nos anteriores) procura dar uma visão completa e complexa das produções italianas. O nosso festival apesar de ser focado na Itália é também um festival "generalista". Temos algumas obras mais apelativas para o grande público (os grandes sucessos de bilheteira em Itália), algumas obras mais conceptuais, outras quase experimentais, procuramos dar uma abertura máxima de uma riqueza produtiva italiana, que neste momento é muito grande. Estamos a falar de 140 longas-metragens produzidas por ano, muitos documentários, muitas curtas. Digamos que Itália tem uma indústria cinematográfica que merece ser descoberta, apesar de nem tudo conseguir sair comercialmente da Itália. O nosso festival tem essa honra e obrigação de mostrar o que se passa no país.

AS: Portugal encontra-se afectado por uma enorme crise económica e social. Essa crise reflectiu-se na preparação da sexta edição da Festa do Cinema Italiano?

SS: Existiram algumas influências no financiamento e na preparação do festival. Nem tudo o que nós queremos fazer é possível. Mas devo dizer que este festival nasceu num ano de crise e conseguiu crescer de ano para ano. É difícil montar um orçamento numa época como esta, mas temos de admitir que no final de cada ano nós estamos a crescer. Convém dizer que o nosso festival é bastante diferente de muitos outros porque, a maioria do financiamento é privado. É claro que estamos muito ligados à crise económica, mas ao mesmo tempo não estamos dependentes do financiamento público. Isto permite que se as coisas correrem mal nós tenhamos outras alternativas para "fechar os buracos". Lembro-me que no primeiro ano tínhamos uma proposta minúscula em relação a esta edição e foi muito mais fácil de arranjar o dinheiro. Mas quem se quer esforçar encontra.

AS: Na edição de 2013, a Festa do Cinema Italiano mudou-se para o Cinema São Jorge. Quais as razões para esta mudança? 

SS: Chegou a hora. O Festival cresceu o suficiente para entrar na Casa do Cinema. O EGEAC acolheu-nos com muito prazer. Era o único festival que lá faltava entrar. A sala é maior. Permite desafios maiores e ao mesmo tempo estamos bem acompanhados. Estamos a oficializar o nosso festival como um dos grandes festivais do cinema em Lisboa e Portugal.

AS: Outra das novidades passa ainda pela extensão da Festa do Cinema Italiano para Loulé e até Angola. Como surgiu a decisão de incluir Angola no itinerário do 8 ½? 

SS: O nosso festival está em completa expansão. Não há outra hipótese. Queremos crescer mais em cada ano. Uma das apostas que tem dado resultados positivos passa pelas extensões. Somos nós que temos de procurar o público. A proposta que temos vindo a fazer tem tido sucesso. Muitas cidades têm mostrado interesse em levarmos para lá a Festa do Cinema Italiano. É claro que o primeiro passo foi cobrir o Portugal inteiro. Com a extensão de Loulé chegámos de Norte a Sul até às a Ilhas, embora ainda falte os Açores. O passe seguinte são os países lusófonos. Já temos marcado Angola, que foi o primeiro passo. Posteriormente vamos para Cabo Verde e provavelmente para Maputo (Moçambique). Depois talvez consigamos chegar ao Brasil, mas aí é mais complicado porque já existe uma estrutura mais montada.

AS: O Brasil é um passo enorme...

SS: Seria um passo enorme. Trocava completamente a dimensão. Este festival é uma empresa quase familiar, temos de crescer para tornarmos isto num projecto sustentável durante todo o ano. 

AS: Sente que estão a fazer serviço público ao tentarem levar o cinema italiano para junto dos espectadores e abrir novos horizontes cinematográficos? É raro encontrarmos filmes italianos em circuito comercial em Portugal...

SS: Para a Itália estamos a fazer um bom trabalho agradecem muito o nosso trabalho. O Ministério da Cultura e a Embaixada agradecem sempre pelo nosso trabalho. Existe sempre um gosto muito pessoal. Claro que temos um compromisso com o nosso público, de levar obras representativas do cinema italiano para cada tipo de espectador. Mas para nós isto é um grande laboratório. Fundamentalmente experimentamos fazer coisas que gostamos, tais como, os eventos paralelos, as músicas, os concertos, as retrospectivas a autores menos conhecidos, a secção Altre Visione dedicada ao cinema de autor, isto envolve gosto pessoal. Temos liberdade para fazer o que gostamos. Depois é o público que recebe ou não recebe, mas admito que existe um compromisso para com o público de mostrar o que se faz em Itália, mas também tem algo de muito pessoal.

AS: A abrir o 8 1/2 temos 'Romanzo di una Strage' de Marco Tullio Giordana. A fechar temos 'La Migliore Oferta' de Giuseppe Tornatore. Porquê estas duas escolhas? 

SS: O filme de abertura é uma obra italiana muito importante. Conta uma página muito sombria da História de Itália, ao longo dos anos 70 [o Atentado da Piazza Fontana]. Foi o primeiro passo, que abriu aquela época do terrorismo político no território. Nós falamos que hoje em dia a situação política em Itália é muito confusa, mas convém perceber que esta sempre foi confusa (risos). O filme exibe bem a situação. Vamos ter por cá o realizador, o Marco Tullio Giordana, que aceitou o nosso convite. Em Portugal é sobretudo conhecido por ter realizado 'A Melhor Juventude'. Poucos são os realizadores que conseguem retratar a história da Itália como Marco Tullio Giordana, quase todos os seus filmes tratam da história do país, mas sempre de forma muito empolgante e apaixonante, que chega a qualquer tipo de público. O enredo [de Romanzo di una Strage] é contado através das histórias pessoais dos protagonistas. É um filme forte, que conta com um clima de thriller político. Achamos que foi um bom filme para ancorar o festival. 
 'La Migliore Oferta' é realizado por um dos mais internacionais dos nossos autores, é um filme que pode ser considerado um passo atrás em relação ao Tornatore do 'Baaria'. É uma história mais pequena, uma espécie de thriller, que se desenrola no mundo das artes, que conta com um elenco internacional. A história supostamente desenrola-se em Viena, mas o filme foi filmado em Trieste, em Itália. O filme é distribuído em Portugal pela Pris Audiovisuais, também convém ajudarmos as distribuidoras portuguesas a divulgar as obras.

AS: Na secção competitiva encontra-mos várias obras promissoras, entre as quais, o popular 'All Cops Are Bastards' de Stefano Sollima, o filho de Sergio Sollima. O que podemos esperar deste filme? 

SS: É um filme muito interessante. Na época saíram vários filmes italianos sobre o assunto, tais como o 'Díaz' de Daniele Vicari, sobre os acontecimentos que rodearam o G8, em Génova, em 2001. Foi um período no qual se falou muito em Itália da violência ligada à acção da polícia. O 'A.C.A.B. - All Cops Are Bastards' é um óptimo filme di genere, tem um grande ritmo e sobretudo procura não fazer juízos. Fala de uma situação particular, de uma realidade particular que o público geralmente desconhece, procurando não julgar positivamente ou negativamente os personagens. Mostra que as pessoas que estão por trás do capacete são pessoas completamente normais, que são levadas a uma situação maior do que elas, ou levadas a acreditar em algo que fundamentalmente nem acreditam. Dá um ponto de vista muito particular, o espectador fica interessado, ficando muitas das vezes em dúvida sobre aquilo que acreditava anteriormente.

AS: Na secção competitiva nota-se ainda a presença de várias outras obras promissoras, tais como 'Il Futuro' de Alicia Scherson, 'Io Sono Li' de Andrea Segre, 'Bellas Mariposas' de Salvatore Mereu. Sente que conseguiram reunir um conjunto de obras bastante sólidas? Quais os seus destaques? 

SS: Esses três filmes provavelmente são os que acertam melhor em nível de qualidade a selecção competitiva. 'Io Sono Li' é provavelmente o filme mais conhecido da secção, já venceu vários prémios, entre os quais o Prémio Lux, é um dos filmes mais completos [da secção]. Um drama romântico, com uma bela fotografia, tem um grande director de fotografia [Luca Bigazzi]. É um filme que está a ter um grande sucesso internacional. As outras duas são duas obras mais independentes na sua estrutura. O 'Il Futuro' é a primeira co-produção italiana e chilena. É um filme muito bonito, muito bem realizado, muito indie. O Rutger Hauer como Maciste é uma figura que dificilmente se consegue esquecer. Quanto ao 'Bellas Mariposas', foi uma grande surpresa, o realizador [Salvatore Mereu] vem a Portugal apresentar o filme. É um filme cheio de vida, o autor consegue quase pintar o Mundo de uma adolescente que está a descobrir a vida. O lado pessoal, social e por vezes sério da vida, sempre com uma grande capacidade de criação linguística. Esperamos que a tradução consiga alcançar esta linguagem. É baseado em dois livros e esperamos que a tradução seja bem sucedida a transmitir a história. 

AS: É praticamente impossível para qualquer cinéfilo não ficar entusiasmado com a secção Focus deste ano onde encontramos spaghetti westerns e poliziottesco. Porquê a escolha destes dois subgéneros?

SS: A produção cinematográfica italiana nos anos 70 foi de uma riqueza e amplitude impressionante. Os spaghetti western foram nos anos 60. Uma produção que na altura era considerado B-Movie, um subgénero, apesar de ter um enorme sucesso de bilheteira em Itália e que agora finalmente está a ser redescoberto. É um tesouro de criatividade e fantasia, de capacidade artesanal enorme para contar as histórias. Este ano desenvolvemos um projecto em colaboração com a revista Nocturno, a "Bíblia" do cinema di genere em Itália e no Estrangeiro. Gostávamos de continuar esta colaboração nos anos seguintes e dedicarmos todos os anos a um género na secção focusEste focus é dedicado ao spaghetti westerns e ao poliziottesco, com especial incidência neste último. O poliziottesco não é um género tão conhecido no estrangeiro como os outros. Foi uma adaptação do spaghetti western. As histórias, os autores e os actores são quase sempre os mesmos. Digamos que surgiu quando a Itália começou a fazer as contas com a sua realidade, como a máfia, o terrorismo político, a criminalidade. O spaghetti western mudou para a cidade. Quase todos são "revenge movies", é o xerife que faz justiça, neste caso é o polícia que faz justiça sozinho numa cidade de corruptos. Claro que lá dentro tens a fantasia e a criatividade de artesãos muitos bons. Vamos mostrar a "Trilogia del Milieu", formada por 'Milano Calibro 9', 'La Mala Ordina' e 'Il Boss' de Fernando Di Leo, um dos grandes nomes do género, do policial italiano.

AS: A próxima pergunta que lhe temos para fazer é exactamente sobre a “Trilogia del Milieu” de Fernando Di Leo. Espera que o público adira a este evento cinematográfico? Não é todos os dias que temos poliziottesco nas salas de cinema. É um evento cinematográfico...

SS: Jogámos muito com isso, mesmo com o poster do Festival. O desenho foi efectuado de propósito pelo desenhador de 'Milano Criminal', uma banda desenhada italiana, lançada há poucos anos, que era baseada no policial italiano. O spot do festival também é inspirado no policial. Estamos a puxar bastante nesse sentido. O cinema italiano tem um bom público, é uma escolha diferente, mas muito atractiva.

AS: No caso do spaghetti western temos obras como 'Keoma', um marcante filme do género. Qual foi o critério seguido para a escolha dos western spaghetti? 

SS:  Não foi possível dar uma visão completa, talvez nos próximos anos consigamos dar mais espaço a este subgénero. O 'Keoma' é um filme importante. É uma obra crepuscular do spaghetti western, que fecha aquela epopeia. Achámos que fosse um bom filme para mostrar como um exemplo de spaghetti western, um subgénero que depois se torna no policial. Existe uma transição entre um género e outro.

AS: Pensa que o sucesso recente de “Django Unchained” pode ter despertado a atenção e a curiosidade do grande público em relação ao spaghetti western? 

SS: Claro. Sem dúvida que Tarantino ajudou a tudo isto. Deu nova vida e nova força a este subgénero. Apesar de tudo convém salientar, que este é um processo estranho. O cinema di genere italiano era uma cópia muito mais extrema, quer a nível de violência, quer a nível estético do cinema do género italiano. Os italianos apanhavam, faziam à sua própria maneira e depois saía um produto final muito próprio. Agora são os americanos que copiam algo que foi copiado deles mesmos, é um processo que foi sempre muito activo. Neste momento existe mais atenção, porque temos grandes nomes ligados ao subgénero.    

AS: Na secção Amarcord temos duas pérolas e uma obra muito promissora. Como é para si contar na programação com duas obras tão marcantes como 'Il Gattopardo' de Luchino Visconti e 8 ½ de Federico Fellini? 

SS: É o 50º aniversário dos dois filmes. Foi um ano muito interessante a nível cinematográfico em Itália. Nós depois descobrimos que ainda estrearam em 1963, 'I Mostri' do Dino Risi, 'Le mani sulla città' [de Francesco Rosi], entre outros filmes. Foi um ano fabuloso. Um festival chamado de 8 ½ não poderia deixar de homenagear desta maneira a película de Fellini. Um filme que não envelheceu, que ainda mantém um poder evocativo bastante actual. É interessante verificar como muito provavelmente foi um dos primeiros filmes a questionar a natureza do cinema. Um filme que questiona a inspiração de um realizador, sobre o papel do realizador em fazer fantasias numa fita. Vai colocar em crise toda a estrutura do cinema. É incrível como o filme passado cinquenta anos ainda tem esta capacidade crítica e iluminante sobre a realidade de fazer cinema. 
  'Il Gattopardo' foi uma escolha para Portugal. Sempre me contaram que é um dos filmes italianos mais reconhecidos em Portugal. O filme foi restaurado digitalmente há cerca de ano e meio, com a colaboração da Film Foundation de Martin Scorsese e dos laboratórios da Cinemateca de Bolonha. É uma cópia de uma beleza única que merece ser visto no ecrã grande do São Jorge.

AS: Ainda na secção Amarcord encontra-mos uma obra muito promissora: 'La Guerra dei Vulcani' de Francesco Patierno. O que podemos esperar deste filme? 

SS: Esse filme é uma grande surpresa. Eu não conhecia bem a história do que realmente tinha acontecido. Parece uma ficção, mas aconteceu tudo a sério no set cinematográfico. É uma história real, um documentário que utiliza o material da época e conta a guerra entre três personalidades vulcânicas da época. O Rossellini tinha uma relação com Anna Magnani, uma grande actriz italiana daquela época. Rossellini começou a ter sucesso internacional e Ingrid Bergman tinha visto alguns filmes dele nos Estados Unidos da América. Bergman enviou uma carta a pedir a Roberto Rossellini para protagonizar um filme do cineasta. Vale a pena realçar que Bergman era naquela altura uma grande estrela de Hollywood.
 No ano anterior, Rossellini estivera nas Ilhas Eólias, onde foi contactado por uma jovem produtora de cinema, que tinha um argumento (que viria a ser o de 'Stromboli') de um projecto para Rossellini realizar, mas o cineasta disse que não estava interessado. No entanto, ao receber a carta de Bergman resolveu desenvolver o filme sem a ajuda da produtora. Conseguiu arranjar outro produtor e chamou Bergman. Os dois começaram a namorar. A Magnani ficou passada com essa situação e falou com a produtora para ter a história original que Rossellini tinha roubado. Resolveu contratar um realizador para fazer um filme semelhante ao de Rossellini, mas com proporções grandiosas. O documentário desenrola-se nos dois sets cinematográficos, com um set a desafiar o outro. A Magnani supostamente queria fazer um filme muito maior que o do Rossellini para desvalorizar o trabalho de Bergman. A história é um grandioso drama sentimental que não me parece datado.

AS: Virando a conversa para a secção Altre Visioni. Esta secção apresenta um conjunto de obras promissoras, entre as quais, o intrigante 'La Leggenda di Kaspar Hauser' de Davide Manuli. Pode falar-nos um pouco sobre esta obra? 

SS: Em 2009, quando o festival ainda era pequeno, exibimos a obra anterior de David Manuli, o 'Beket'. O nosso público ficou um bocado traumatizado com o filme (risos). Nós continuamos a adorar os filmes dele. Este filme esteticamente tem tudo a ver com o 'Beket'. Neste caso o filme foi filmado na Sardenha, a terra de Davide Manuli e conta com uma história bem forte, a lenda de Kaspar Hauser. Temos no elenco o Vincent Gallo, que foi uma aposta da produção. Davide Manuli contou-me que foi muito complicado fazer um filme com Vincent Gallo neste momento, mas admite que o filme mudou muito com a visão criativa do actor, que conta com um duplo papel no filme. 
 A obra cinematográfica tem este fio condutor que é a lenda de Kaspar Hauser, que inspirou "The Enigma of Kaspar Hauser" de Werner Herzog. 'La Leggenda di Kaspar Hauser' não é uma cópia do filme do Herzog, mas sim uma adaptação da lenda de Kaspar Hauser, uma criança que viveu toda a vida fechada numa cave, um indivíduo que podia ser o herdeiro do trono. O filme é sobretudo uma enorme experiência audiovisual. Visualmente lindo, quase todas músicas são de Vitalic, então temos um techno house muito forte, é uma experiência completamente surreal. Voltamos a ter o prazer do cinema como o objecto fílmico, como história, como texto, como interpretação, algo que torna uma experiência quase onírica do filme. Uma das coisas positivas do filme é que este podia ser uma seca, mas não é, tem um grande poder. É visualmente tão apelativo e tão inventivo, que facilmente desperta a atenção do público.

AS: Para além de várias obras cinematográficas, a sexta edição da Festa do Cinema Italiano conta com vários eventos paralelos, entre os quais, o concerto de Calibro 35. Como se deu a escolha desta banda para a festa de encerramento do certame em Lisboa?

SS: Foi o seguimento lógico a nível da programação numa perspectiva sobre o policial. A nível de imagem temos o cartaz baseado no filme policial, no spot musicado pelos Calibro 35, temos o policial em destaque. Na Itália e no resto do Mundo não existe uma banda que consiga recrear aquele ambiente [do policial dos anos 70] como os Calibro 35. O reportório deles é o policial dos anos 70, música de Ennio Morricone, de Travaioli, música de grandes autores da música italiana, mas com muito funk, muito groove. É uma banda que é distribuída em 25 países. Já participaram em bandas sonoras de filmes americanos. É um concerto claramente imperdível e insere-se numa linha transversal no interior do festival.

AS: Existe alguma obra que não tenha conseguido exibir na edição de 2013 da Festa do Cinema Italiano? 

SS: Infelizmente existem várias. Em Lisboa existe boa competição entre festivais de cinema, algo que também é positivo. Claro que o festival procura proteger-se e ter os filmes italianos mais interessantes, mas nem sempre é possível, alguns festivais chegaram antes. Imagino que para uma produtora seja mais aliciante ter o filme a ser exibido num festival internacional, do que na Festa do Cinema Italiano. No entanto, muitas das vezes, esses filmes que estrearam noutros festivais não tiveram a atenção merecida. Por vezes passa às 16h a meio da semana. Tudo bem, podes estar no IndieLisboa, num festival internacional, mas apenas cinquenta pessoas viram o filme. O Festival de Cinema Italiano escolhe poucas obras, sabe o que escolher e cada obra tem o merecido destaque. Claro que existem quatro ou cinco obras que já estrearam em festivais e que não conseguimos colocar na nossa programação. Existe um filme que pretendíamos apresentar mas não ficou terminado a tempo. 

AS: Uma última pergunta. Cada vez mais assiste-se a uma proliferação de blogues, sites e revistas online sobre cinema. Considera estes meios, tais como a Take Cinema Magazine, importantes para a divulgação de certames como a Festa do Cinema Italiano? 

SS: Claro que é fundamental. Não só na divulgação do nosso festival, mas em todos os festivais. É a mesma coisa que aconteceu com o cinema, quando conseguiram construir equipamentos ligeiros para filmar, logo conduziu a uma democratização, a que mais gente conseguisse fazer cinema. Podemos fazer uma divulgação do festival com uma estrutura ligeira, já não precisamos de fazer um investimento tão pesado para divulgar. Claro que temos o lado positivo, mas também o negativo, pois temos muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e muita coisa para ser divulgada em simultâneo. Percebe-se que é complicado encontrar uma hierarquização dos conteúdos e das propostas culturais. Tudo passa, tudo é visível, é difícil perceber o que é oficial, o que é verdadeiramente de interesse. Claro que depende dos programadores e de quem faz cultura ter uma programação que se destaca em relação às restantes. 

Sem comentários: