20 fevereiro 2013

Resenha Crítica: "Quarta Divisão"

 Um dos nossos primeiros contactos com a subcomissária Helena Tavares (Carla Chambel) e com o seu colega (Sabri Lucas) é quando estes intervêm num caso de violência doméstica, com esta a desferir a sua fúria no agressor. Estes fazem parte da Quarta Divisão, uma equipa da polícia que dá título ao novo filme realizado por Joaquim Leitão, um cineasta de créditos firmados, que tem no seu novo trabalho uma obra que mescla elementos de filme policial com drama familiar, onde um grupo de polícias investiga o desaparecimento de uma criança, um caso que se revela bem mais intrincado do que inicialmente poderia parecer.
 A criança desaparecida é Martim Cabral e Melo (Martim Barbeiro), o filho de Filipe Cabral e Melo (Paulo Pires) e Olga Cabral e Melo (Cristina Câmara). A última vez que Martim foi visto foi quando a sua ama o deixou perto da porta da escola. A mãe aparece aflita na esquadra perante o desaparecimento do petiz. O pai, outrora juiz e um banqueiro poderoso, cedo começa a tentar utilizar o seu poder para avançar mais rápido com a investigação, embora atrapalhe mais do que ajuda. É então que a Quarta Divisão, através da subcomissária Helena, procura descobrir o paradeiro de Martim, investigando não só os locais circundantes à escola, mas também os pedófilos, acabando por envolver-se numa teia de pistas que conduzem a equipa a descobertas surpreendentes, numa obra onde todos parecem ter segredos por revelar, incluindo o pequeno Martim.
 As expressões "cinema comercial" e "cinema de autor" são sempre muito subjectivas e devem ser utilizadas com parcimónia, mas à falta de melhor é o que podemos utilizar. Se tivéssemos um cinema nacional saudável e pujante (algo que não temos), o ideal seria aumentar a produção tanto do cinema dito "comercial" como do chamado "cinema de autor". Em 2012 tivemos esse exemplo quando encontrámos nas nossas salas filmes de tom mais autoral como "Tabu", "O Gebo e a Sombra", "Deste Lado da Ressurreição" e obras mais comerciais como "Linhas de Wellington", "Balas & Bolinhos 3", "Morangos Com Açúcar - O Filme", que procuravam claramente despertar a atenção das massas. No final, ganha o público e o cinema nacional, com mais diversidade cinematográfica. "Quarta Divisão", o novo filme de Joaquim Leitão, é uma obra que promete e pretende chegar facilmente ao grande público, contando com uma história que facilmente prende a atenção, num filme policial que apesar de se perder em excessivas reviravoltas tem o mérito de conseguir manter o nosso interesse durante grande parte da narrativa.
 Apesar das excessivas reviravoltas que apenas tiram ritmo e pertinência à narrativa, "Quarta Divisão" revela-se uma obra emotiva, capaz de despertar a curiosidade e atenção do espectador, que conta com um conjunto de boas interpretações por parte do elenco principal, cujos elementos surpreendem e muito, mostrando que o nosso cinema conta com bons talentos na arte da representação que podiam e deviam ser mais reconhecidos. Um desses casos é Carla Chambel, que tem na subcomissária Helena Tavares uma personagem feminina forte, obstinada, com fortes valores morais, onde pode explanar grande parte do seu talento, embora a sua personagem exceda e muito as incumbências de uma subcomissária. Esta surge acompanhada por um bom elenco, onde não falta um Sabri Lucas como uma das agradáveis surpresas, ao interpretar um agente cuja ex-mulher está sempre no seu encalço, uma Cristina Câmara como a aparentemente fria mãe de Martim. Vale a pena ainda realçar Paulo Pires como o soturno Filipe Cabral e Melo. Depois de interpretar um indivíduo que cometeu violência sobre a namorada em "Médico de Família", Paulo Pires volta a interpretar um personagem que agride a sua cara metade, embora aqui tenha o requinte do personagem interpretar um indivíduo poderoso, que parece estar acima de tudo e todos, incluindo da lei, simbolizando o que de pior tem a nossa sociedade.
 Se o elenco surge em bom nível, o mesmo não se pode dizer do argumento. Não faltam reviravoltas desnecessárias, um último terço que exige um sentimento de descrença enorme por parte do espectador, plot holes, um conjunto de diálogos para encher que nada acrescentam à narrativa (seria mesmo necessário andar a recordar tantas vezes o espectador da Manifestação?), para além de uma enorme leveza na forma como algumas temáticas são abordadas, em particular (SPOILER) na forma como a criança é descoberta (fim do SPOILER). No entanto, vale a pena realçar o mérito de abordar temáticas relacionadas com a pedofilia, violência doméstica, corrupção, e a forma como estes crimes passam muitas das vezes impunes na nossa sociedade, com a história a procurar abordar temáticas relevantes e polémicas.
 A temática da violência doméstica não é uma das mais habituais no nosso cinema, bem como a pedofilia, e diga-se que nem são as mais agradáveis de encontrar. No entanto, é de elogiar a chamada de atenção que "Quarta Divisão" faz para estes dois problemas, tocando em duas feridas particularmente dolorosas da nossa sociedade. No caso da pedofilia, a investigação a um dos suspeitos chega mesmo a causar repugnância no espectador, com Joaquim Leitão a revelar uma grande habilidade para criar a tensão necessária na investigação à casa de um pedófilo, para a seguir pura e simplesmente arrasar-nos com os hediondos crimes cometidos por tal figura. O trabalho de Joaquim Leitão deve ser realçado não apenas nesta cena, mas pelo todo do filme. Com um orçamento relativamente baixo para um filme de grandes ambições, o cineasta aproveita alguns cenários bem conhecidos do público (não falta uma perseguição em plena Praça de Espanha), sabe criar os elementos de tensão, despertar a curiosidade para o que vem a seguir enquanto a câmara de filmar acompanha inquieta os personagens e os close-ups abundam não só por razões artísticas, mas também porque o orçamento do filme assim parece ter exigido.
 No final, ficamos com a sensação de que "Quarta Divisão" poderia ter dado muito mais ao espectador. O último terço não funciona como a primeira metade do filme, as reviravoltas revelam-se excessivas, não dinamizando a narrativa, mas sim atabalhoando a mesma, numa história que poderia ser um episódio de longa duração de CSI ou outra série televisiva sobre investigações policiais. "Quarta Divisão" não é o filme perfeito. Tem alguns problemas a nível do argumento, a história nem sempre consegue ser credível, mas as suas qualidades acabam por fazer esquecer muitos destes problemas, com Joaquim Leitão a revelar a sua capacidade em fazer filmes que conseguem chegar ao espectador, numa obra recheada de momentos de tensão, boas interpretações, em particular de Carla Chambel, uma actriz que explana o seu talento, entusiasma, dá credibilidade e dimensão à sua personagem, uma agradável surpresa, ou se preferirmos, uma agradável confirmação. Ambicioso, cheio de ritmo, com algumas boas interpretações, "Quarta Divisão" procura chegar ao público, entusiasmá-lo, criar tensão e acima de tudo fazer valer o preço do bilhete, algo que consegue de forma bastante satisfatória.  

Classificação: 3 (em 5).
Título: “Quarta Divisão”.
Realizador: Joaquim Leitão.
Argumento: Joaquim Leitão.
Elenco: Carla Chambel, Paulo Pires, Sabri Lucas, Filipe Vargas, Ana Lopes, Heitor Lourenço, Tino Navarro, Luís Lucas.

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