26 fevereiro 2013

Resenha Crítica: "House of Flying Daggers"

Existe toda uma beleza ímpar a rodear "House of Flying Daggers", um wuxia brilhantemente realizado por Zhang Yimou, cuja elegância das imagens em movimento parecem saídas das mais belas pinturas contaminadas pelas mais vigorosas das poesias épicas, uma obra de arte sublime, onde o drama, romance, aventura, acção, surgem em doses harmoniosas. Acompanhado por um conjunto de momentos cinematográficos simplesmente notáveis, que apelam aos nossos sentidos como pouco filmes conseguem fazer, "House of the Flying Daggers" resulta daquelas felizes conjunções onde tudo parece dar certo, com Zhang Yimou a sobressair como um poeta das imagens.
 Com argumento de Peter Wu, Bing Wang e Zhang Yimou, a narrativa de "House of Flying Daggers" desenrola-se na China, em 859 d.C., um período no qual a outrora poderosa Dinastia Tang se encontra em decadência, revelando uma enorme incapacidade para travar os insurgentes. Entre os grupos rebeldes mais conhecidos encontra-se o "Clã das Adagas Voadoras", conhecido por roubar aos ricos para dar aos pobres. Perante a ascensão deste grupo, Jin (Takeshi Kaneshiro) e Liu (Andy Lau), dois oficiais das autoridades, são enviados para capturar Xiao Mei (Zhang Ziyi), uma bailarina cega, que se encontra na "casa de entretenimento" denominada de Pavilhão Peónia, que suspeitam ser a filha do anterior líder do Clã das Adagas Voadoras.
  No local, Jin logo actua de forma disfarçada como cliente para que a dona do Pavilhão lhe traga Mei, a rapariga nova do ornamentado estabelecimento. Encantado inicialmente com a rapariga, este tira parte da roupa da jovem cega, deixando-a com um sensual e exótico vestido dominado pelos tons azulados e o dourado, pedindo para que esta dance e mostre o que a torna especial, algo que resulta num momento simplesmente arrebatador. Som, imagem, representação, emoção, arte, tudo parece conjugar-se para algo de divino. A música toca, Zhang Ziyi mostra as suas habilidades na dança, hipnotiza-nos enquanto toca "Beauty Song" e baila pelo cenário ornamentado do templo. A beleza do momento surge cadenciada pela música, coreografia, cenários, maquilhagem, guarda roupa, num momento paradigmático de um filme visualmente e narrativamente arrebatador.
 O que se segue não é menos maravilhoso, com Liu a intervir e desafiar Mei para o jogo do eco, com esta a ter de acertar nos mesmos tambores para os quais o personagem de Andy Lau atirou feijões, com o longo tecido das mangas do seu vestido a bailarem sobre os objectos, momentos recheados de poesia, beleza, sensualidade e emoção, até a jovem ser capturada. Com Mei a seu cargo, logo os dois elaboram um plano que consiste em Liu fingir que é um elemento secreto do clã da jovem, de forma a ganhar a sua confiança enquanto esta a guia até ao esconderijo do grupo. Pelo caminho, Mei e Jin vão ter de lidar com ameaças inesperadas, mesmo no interior das autoridades, enquanto brota um amor inesperado entre os dois, um sentimento tão inesperado como muitas das reviravoltas que a narrativa vai conhecer, com o amor a influir nas mudanças destes personagens que escondem muitos segredos. Contar mais sobre a história seria tirar o prazer ao leitor da primeira vez em que encontra todos os acontecimentos deste filme, marcado por algumas reviravoltas, uma maior preocupação no desenvolvimento do romance do que no contexto histórico, que permite a Andy Lau, Takeshi Kaneshiro e Zhang Ziyi sobressaírem, em três papéis desafiantes e bem mais complexos do que poderíamos esperar.
 Lutas e danças magnificamente coreografadas, emoção, sentimento, Zhang Yimou quando quer sabe filmar como poucos, beneficiando do magnífico trabalho de fotografia de Zhao Xiaoding, algo que resulta numa obra visualmente extasiante, onde a beleza das imagens em movimento surge magnificamente associada à pungente narrativa. Desde os cenários verdejantes cobertos de bambu, passando pela pureza da neve marcada pelo sangue e tragédia do poderoso momento final, a profusão de cores e a forma como estas jogam e combinam com os elementos da narrativa é algo de demonstrativo de todo o cuidado colocado ao longo da obra cinematográfica. Nos cenários verdejantes dos bambus, encontramos os personagens maioritariamente vestidos de verde, nos cenários cobertos de neve esta surge para adensar o sangue e momento de tensão que estamos a visionar, entre muitos outros exemplos, de um filme belíssimo.
 Com um domínio exímio da mise en scène, um guarda roupa cuidado resultante de estudos sobre as vestimentas da época, cenários belíssimos, "House of Flying Daggers" surge acompanhado por uma história cheia de emoção, onde não falta romance, acção, aventura, drama, tragédia, emoção e espaço para o elenco principal brilhar. Zhang Ziyi esbanja sensualidade, fragilidade e talento, enquanto interpreta de forma credível uma cega, capaz não só de combater de igual para igual com os homens, mas também protagonizar as mais belas coreografias de dança e expor os seus sentimentos, uma personagem que não é quem inicialmente parece ser e forma um triângulo amoroso com os seus dois colegas do elenco principal. Carismático, Kaneshiro interpreta Jin, um indivíduo que finge ser "Vento", um elemento do Clã de Mei, um indivíduo sedutor, que aos poucos se deixa conquistar por Mei, com os dois a formarem uma dupla peculiar, num triângulo amoroso proibido, que ainda mete ao barulho o personagem de Andy Lau. Sem precisar de grandes apresentações, Lau interpreta com grande intensidade um agente da autoridade com uma agenda dúbia, cujos sentimentos pela protagonista prometem muitas surpresas.
 Marcada por algumas reviravoltas, a narrativa coloca estes três personagens como meros peões dos grupos que representam e do amor, esse motor de combustão que lhes aquece os sentimentos, tolda os sentidos e promete conduzi-los ao abismo, enquanto Zhang Yimou leva-nos para o interior de um magnífico e belo pedaço de cinema, onde tudo parece ganhar uma poesia muito própria. Nas lutas, as espadas bailam pelos ares, as adagas voam dançantes, os personagens exibem os seus dotes nas artes marciais, enquanto as emoções voam pelo vento, a banda sonora inebria os nossos sentidos e algumas imagens em movimento revelam-se um autêntico deleite visual. Apaixonante, intenso, incapaz de gerar indiferença, "House of Flying Daggers" emociona, prende a nossa atenção, revela-se um regalo para os nossos sentidos, num filme belíssimo pelo qual é tão fácil nos apaixonarmos. 


Classificação: 5 em 5
Título original: “Shí Miàn Mái Fú”.
Título em Inglês: “House of Flying Daggers”.
Título em Portugal: “O Segredo dos Punhais Voadores”.
Realizador: Zhang Yimou.
Argumento: Zhang Yimou, Peter Wu, Bin Wang.
Elenco: Andy Lau, Takeshi Kaneshiro, Zhang Ziyi, Dandan Song.

1 comentário:

Anónimo disse...

Um filme lindíssimo, que não me canso de rever.