Quando "Harry Potter and
the Philosopher's Stone" estreou nas salas de cinema no ido ano
de 2001, logo iniciou uma franquia de sucesso que levou a várias
adaptações cinematográficas de obras literárias do género, de
forma a emular o sucesso da franquia do famoso feiticeiro.
O problema é que poucas adaptações atingiram o sucesso de "Harry
Potter", com "Eragon" e "The Golden Compass"
a serem exemplos de dois fracassos e as adaptações de "As
Crónicas de Narnia" a estarem longe do esplendor dos filmes do
mágico. Um fenómeno semelhante ao sucedido com "Harry Potter"
está a acontecer com "Twilight", algo que justifica a
adaptação de obras como "I Am Number Four", "The
Hunger Games", "Beautiful Creatures", "The Mortal Instruments", obras literárias
de temática adolescente, das quais apenas "The Hunger Games"
parece capaz de se bater ou até ultrapassar o êxito da saga de
Edward e Bella. No caso de "Beautiful Creatures", o filme
em análise, o resultado da bilheteira norte-americana indica que
quem quiser saber o final da saga terá de ler os livros, a não ser
que a bilheteira internacional consiga salvar um projecto que carrega
consigo o "estigma" da saga "Twilight", algo
injusto visto este romance a namoriscar o gótico estar quase sempre
a um nível superior da saga dos vampiros.
Baseado
na obra literária homónima da autoria de Kami Garcia e Margaret
Stohl, "Beautiful Creatures" tem como grande mérito
conseguir entreter-nos, procurando apresentar uma certa frescura em
relação a dramas adolescentes como "Twilight", embora
nunca se consiga descolar totalmente dos mesmos. Não falta o tom
fatalista entre o casal de protagonistas, a relação impossível e
os sacrifícios que são efectuados por amor, seres sobrenaturais, ao
mesmo tempo que o casal lida com uma série de contratempos, embora
conte com um conjunto de personagens secundários interessantes, um
estilo de humor que casa
bem com a narrativa, uma
história capaz de captar a nossa atenção e uma procura de fazer
uma crítica social, que incrementam a obra cinematográfica. O casal
de protagonistas do novo filme realizado por Richard LaGravenese é
formado por Ethan Wate (Alden Ehrenreich) e Lena Duchannes (Alice
Englert), dois adolescentes muito peculiares, que cedo formam uma
relação impossível, entre uma caster (ou se preferirem bruxa) de bom coração e um humano
sonhador, no interior de uma cidade sulista dos Estados Unidos da
América, que surge representada com alguma mordacidade, com os seus
habitantes a partilharem a intolerância e o conservadorismo com
muitos dos Estados sulistas (e não só) dos EUA.
Ethan tem na literatura um meio de evasão à realidade modorrenta da
pequena cidade de Gatlin, na Carolina do Sul, um local no qual pouco ou nada
acontece, onde grande parte dos livros foram censurados, a maior
diversão passa por encenarem episódios gloriosos da Guerra Civil e
os filmes apenas estreiam com grande atraso e com os títulos
trocados. Após a morte da mãe, Ethan vive com o seu pai, que pouco
sai do quarto e conta com a companhia da bibliotecária da cidade,
Amma (Viola Davis), uma mulher que esconde largos segredos. A vida de
Ethan muda quando no primeiro dia de aulas do 11º ano chega à sua
turma Lena Duchannes, que logo é perseguida pelos colegas e
familiares (incluindo Mrs. Lincoln, interpretada por Emma Thompson)
pelo facto de ser sobrinha do sombrio Macon Ravenwood (Jeremy Irons),
um dos fundadores da cidade cuja família é associada à bruxaria.
Sarcástica, algo isolada da sociedade, fã dos livros de Charles
Bukowski e de boa literatura, Lena é uma jovem bruxa que procura
lidar com o facto de quando completar 16 anos a sua alma poder pender
para o lado da Luz ou das Trevas, ou não fosse esta um elemento dos
"casters". Aos poucos, Lena forma uma relação que supera
a amizade com Ethan, com os dois jovens a partilharem não só o amor
pela literatura, mas também um pelo outro, enquanto este procura
lidar com a família de Lena, incluindo o seu tio Macon e a maléfica
Ridley (Emmy Rossum), uma força da natureza que promete colocar tudo
e todos em perigo, enquanto vários segredos do passado dos
personagens e das suas famílias são revelados, remetendo para os
tempos da Guerra Civil.
Não
é só Lena Duchannes que corre perigo de cair para o lado negro,
também "Beautiful Creatures" ameaça largamente cair para
o dramalhão adolescente açucarado que pode ser encontrado com
relativa facilidade num episódio das séries do CW ou num filme da
saga "Twilight", embora consiga muitas das vezes superar
essa situação graças a um conjunto interessante de personagens
secundários, algum humor mordaz, uma procura de criar uma mitologia
própria, uma capacidade de prender a atenção em relação ao
mistério que rodeia a protagonista e à boa química entre os
protagonistas. A química entre Alice Englert e Alden Ehrenreich é
parte fundamental para a narrativa funcionar (estamos perante um
romance, se o casal de protagonistas não funciona, o filme não
resulta), com a dupla a surgir relativamente credível como um casal que
procura lutar contra tudo e contra todos, apesar de quem se destacar
mais ao longo do filme são os elementos secundários do elenco, com
Jeremy Irons, Emma Thompson e Emmy Rossum a sobressaírem em relação
aos protagonistas.
Se Emmy Rossum surge em doses homeopáticas com o seu estilo sensual,
agradavelmente diabólico como a bruxa maligna Ridley, uma “criatura
maravilhosa” que adoramos odiar, já Jeremy Irons mostra que é o
actor mais talentoso e carismático deste elenco, sobressaindo pela
aura misteriosa que incute no seu personagem, enquanto Emma Thompson
mostra a sua versatilidade, ao interpretar uma personagem sulista
conservadora que é possuída e transforma-se numa "sacana"
de primeira, que influi na história dos "casters" um dos
elementos relativamente interessantes da narrativa, que beneficia
exactamente do carisma do elenco secundário. O problema é quando o
filme resolve seguir o caminho do romance impossível e das dores dos
adolescentes, caindo nos clichés do género, ao mesmo tempo que a
narrativa nos "presenteia" por repetidas exposições em
relação à maldição de Lena (no caso do espectador não ter
percebido à primeira, nem à segunda que esta está amaldiçoada),
remetendo para uma maldição na Guerra Civil norte-americana que
surge representada com pouca emoção e revelando um dos problemas do
filme, uma estrutura narrativa incoerente que nem sempre parece saber
bem para onde ir.
As
colagens entre a saga "Twilight" e "Beautiful
Creatures" não são ingénuas e foram utilizadas não só
durante a campanha de marketing do filme (o romance do casal de
adolescentes foi sempre a pedra basilar da campanha), mas também na
própria narrativa, que nunca se descola do fatalismo do drama
adolescente. No entanto, é notório que existe uma procura de
"Beautiful Creatures" em dar mais do que um simples romance
de adolescentes, não faltando um conjunto de personagens secundários
interessantes, uma procura em fazer uma crítica aos valores de uma
sociedade conservadora que teima em não aceitar a diferença,
adensado por uma mitologia muito própria, vários elementos que nem
sempre correm da melhor maneira mas revelam alguma ambição para um
filme do género. Charles Bukowski, uma lenda da história da
literatura, é referido e citado com alguma frequência ao longo do
filme, ou não tivesse uma frase de um poema da sua autoria dado
origem ao título da obra literária homónima na qual "Beautiful
Creatures" é baseado. A
Bukowski é atribuída a frase "If you're losing your soul and
you know it, then you've still got a soul left to lose".
"Beautiful
Creatures" sabe quando está a perder a "sua alma",
procurando mesclar o romance adolescente com uma mitologia própria,
um conjunto de personagens secundários relevantes, algum humor e
crítica social, conseguindo que não dêmos por totalmente perdidas as duas
horas de duração de um filme que não perde a sua alma.
Classificação: 2.5 (em 5).
Título original: “Beautiful Creatures”.
Título
em Portugal: “Criaturas Maravilhosas”.
Título
no Brasil: “Dezasseis Luas”.
Realizador:
Richard LaGravenese.
Argumento:
Richard LaGravenese.
Elenco:
Alice Englert, Alden Ehrenreich, Jeremy Irons, Viola Davis, Emmy
Rossum, Thomas Mann, Emma Thompson.






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