27 fevereiro 2013

Resenha Crítica: "Beautiful Creatures" (Criaturas Maravilhosas)

 Quando "Harry Potter and the Philosopher's Stone" estreou nas salas de cinema no ido ano de 2001, logo iniciou uma franquia de sucesso que levou a várias adaptações cinematográficas de obras literárias do género, de forma a emular o sucesso da franquia do famoso feiticeiro. O problema é que poucas adaptações atingiram o sucesso de "Harry Potter", com "Eragon" e "The Golden Compass" a serem exemplos de dois fracassos e as adaptações de "As Crónicas de Narnia" a estarem longe do esplendor dos filmes do mágico. Um fenómeno semelhante ao sucedido com "Harry Potter" está a acontecer com "Twilight", algo que justifica a adaptação de obras como "I Am Number Four", "The Hunger Games", "Beautiful Creatures", "The Mortal Instruments", obras literárias de temática adolescente, das quais apenas "The Hunger Games" parece capaz de se bater ou até ultrapassar o êxito da saga de Edward e Bella. No caso de "Beautiful Creatures", o filme em análise, o resultado da bilheteira norte-americana indica que quem quiser saber o final da saga terá de ler os livros, a não ser que a bilheteira internacional consiga salvar um projecto que carrega consigo o "estigma" da saga "Twilight", algo injusto visto este romance a namoriscar o gótico estar quase sempre a um nível superior da saga dos vampiros.
 Baseado na obra literária homónima da autoria de Kami Garcia e Margaret Stohl, "Beautiful Creatures" tem como grande mérito conseguir entreter-nos, procurando apresentar uma certa frescura em relação a dramas adolescentes como "Twilight", embora nunca se consiga descolar totalmente dos mesmos. Não falta o tom fatalista entre o casal de protagonistas, a relação impossível e os sacrifícios que são efectuados por amor, seres sobrenaturais, ao mesmo tempo que o casal lida com uma série de contratempos, embora conte com um conjunto de personagens secundários interessantes, um estilo de humor que casa bem com a narrativa, uma história capaz de captar a nossa atenção e uma procura de fazer uma crítica social, que incrementam a obra cinematográfica. O casal de protagonistas do novo filme realizado por Richard LaGravenese é formado por Ethan Wate (Alden Ehrenreich) e Lena Duchannes (Alice Englert), dois adolescentes muito peculiares, que cedo formam uma relação impossível, entre uma caster (ou se preferirem bruxa) de bom coração e um humano sonhador, no interior de uma cidade sulista dos Estados Unidos da América, que surge representada com alguma mordacidade, com os seus habitantes a partilharem a intolerância e o conservadorismo com muitos dos Estados sulistas (e não só) dos EUA.
  Ethan tem na literatura um meio de evasão à realidade modorrenta da pequena cidade de Gatlin, na Carolina do Sul, um local no qual pouco ou nada acontece, onde grande parte dos livros foram censurados, a maior diversão passa por encenarem episódios gloriosos da Guerra Civil e os filmes apenas estreiam com grande atraso e com os títulos trocados. Após a morte da mãe, Ethan vive com o seu pai, que pouco sai do quarto e conta com a companhia da bibliotecária da cidade, Amma (Viola Davis), uma mulher que esconde largos segredos. A vida de Ethan muda quando no primeiro dia de aulas do 11º ano chega à sua turma Lena Duchannes, que logo é perseguida pelos colegas e familiares (incluindo Mrs. Lincoln, interpretada por Emma Thompson) pelo facto de ser sobrinha do sombrio Macon Ravenwood (Jeremy Irons), um dos fundadores da cidade cuja família é associada à bruxaria. Sarcástica, algo isolada da sociedade, fã dos livros de Charles Bukowski e de boa literatura, Lena é uma jovem bruxa que procura lidar com o facto de quando completar 16 anos a sua alma poder pender para o lado da Luz ou das Trevas, ou não fosse esta um elemento dos "casters". Aos poucos, Lena forma uma relação que supera a amizade com Ethan, com os dois jovens a partilharem não só o amor pela literatura, mas também um pelo outro, enquanto este procura lidar com a família de Lena, incluindo o seu tio Macon e a maléfica Ridley (Emmy Rossum), uma força da natureza que promete colocar tudo e todos em perigo, enquanto vários segredos do passado dos personagens e das suas famílias são revelados, remetendo para os tempos da Guerra Civil.
 Não é só Lena Duchannes que corre perigo de cair para o lado negro, também "Beautiful Creatures" ameaça largamente cair para o dramalhão adolescente açucarado que pode ser encontrado com relativa facilidade num episódio das séries do CW ou num filme da saga "Twilight", embora consiga muitas das vezes superar essa situação graças a um conjunto interessante de personagens secundários, algum humor mordaz, uma procura de criar uma mitologia própria, uma capacidade de prender a atenção em relação ao mistério que rodeia a protagonista e à boa química entre os protagonistas. A química entre Alice Englert e Alden Ehrenreich é parte fundamental para a narrativa funcionar (estamos perante um romance, se o casal de protagonistas não funciona, o filme não resulta), com a dupla a surgir relativamente credível como um casal que procura lutar contra tudo e contra todos, apesar de quem se destacar mais ao longo do filme são os elementos secundários do elenco, com Jeremy Irons, Emma Thompson e Emmy Rossum a sobressaírem em relação aos protagonistas.
  Se Emmy Rossum surge em doses homeopáticas com o seu estilo sensual, agradavelmente diabólico como a bruxa maligna Ridley, uma “criatura maravilhosa” que adoramos odiar, já Jeremy Irons mostra que é o actor mais talentoso e carismático deste elenco, sobressaindo pela aura misteriosa que incute no seu personagem, enquanto Emma Thompson mostra a sua versatilidade, ao interpretar uma personagem sulista conservadora que é possuída e transforma-se numa "sacana" de primeira, que influi na história dos "casters" um dos elementos relativamente interessantes da narrativa, que beneficia exactamente do carisma do elenco secundário. O problema é quando o filme resolve seguir o caminho do romance impossível e das dores dos adolescentes, caindo nos clichés do género, ao mesmo tempo que a narrativa nos "presenteia" por repetidas exposições em relação à maldição de Lena (no caso do espectador não ter percebido à primeira, nem à segunda que esta está amaldiçoada), remetendo para uma maldição na Guerra Civil norte-americana que surge representada com pouca emoção e revelando um dos problemas do filme, uma estrutura narrativa incoerente que nem sempre parece saber bem para onde ir.
 As colagens entre a saga "Twilight" e "Beautiful Creatures" não são ingénuas e foram utilizadas não só durante a campanha de marketing do filme (o romance do casal de adolescentes foi sempre a pedra basilar da campanha), mas também na própria narrativa, que nunca se descola do fatalismo do drama adolescente. No entanto, é notório que existe uma procura de "Beautiful Creatures" em dar mais do que um simples romance de adolescentes, não faltando um conjunto de personagens secundários interessantes, uma procura em fazer uma crítica aos valores de uma sociedade conservadora que teima em não aceitar a diferença, adensado por uma mitologia muito própria, vários elementos que nem sempre correm da melhor maneira mas revelam alguma ambição para um filme do género. Charles Bukowski, uma lenda da história da literatura, é referido e citado com alguma frequência ao longo do filme, ou não tivesse uma frase de um poema da sua autoria dado origem ao título da obra literária homónima na qual "Beautiful Creatures" é baseado. A Bukowski é atribuída a frase "If you're losing your soul and you know it, then you've still got a soul left to lose". "Beautiful Creatures" sabe quando está a perder a "sua alma", procurando mesclar o romance adolescente com uma mitologia própria, um conjunto de personagens secundários relevantes, algum humor e crítica social, conseguindo que não dêmos por totalmente perdidas as duas horas de duração de um filme que não perde a sua alma. 

Classificação: 2.5 (em 5).

Título original: “Beautiful Creatures”.
Título em Portugal: “Criaturas Maravilhosas”.
Título no Brasil: “Dezasseis Luas”.
Realizador: Richard LaGravenese.
Argumento: Richard LaGravenese.
Elenco: Alice Englert, Alden Ehrenreich, Jeremy Irons, Viola Davis, Emmy Rossum, Thomas Mann, Emma Thompson.

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