05 janeiro 2013

Resenha Crítica: "Silver Linings Playbook"

Pat: You have poor social skills. You have a problem.
Tiffany: I have a problem? You say more inappropriate things than appropriate things

 Muitas das vezes costumamos falar da química entre os actores nos vários romances, dramas, comédias, entre outros géneros. Quando a dupla de protagonistas apresenta uma dinâmica soberba, a história ganha uma dimensão extra. Quando a química é inexistente, tudo se complica. "Silver Linings Playbook", o novo filme realizado por David O. Russell, é o exemplo paradigmático do filme que beneficia imenso daquela "coisa" a que muitas das vezes chamamos de "química" entre o casal de protagonistas, com Jennifer Lawrence e Bradley Cooper a colocarem em prática a dita química, ao terem desempenhos notáveis.
 Bradley Cooper interpreta Pat Solitano. Quando nos deparamos pela primeira vez com Pat, este encontra-se prestes a abandonar o hospital psiquiátrico onde se encontra internado há oito meses, após ter apanhado a mulher no chuveiro a ter sexo com outro homem, algo que lhe provocou um violento acesso de fúria, tendo agredido violentamente o amante de Nikki (Brea Bree). Diagnosticado com desordem bipolar, este abandona a clínica acompanhado pela mãe, tendo em vista a "reconstruir-se", algo que parece ser complicado quando às três da manhã resolve partir o vidro da janela ao ter um acesso de raiva a ler "Farewell to Arms" de Ernest Hemingway, ou a ter um ataque de histeria que o leva a acordar todos os seus vizinhos e agredir involuntariamente a sua mãe por não encontrar a cassete do seu casamento. A acompanhá-lo regularmente está o doutor Patel (Anupam Kher), um médico que procura fazer ver ao seu doente que tem de aprender a lidar com os seus problemas, incluindo enfrentar a música 'My Cherie Amour', a música que tocou no dia do seu casamento e que estava a tocar na rádio quando apanhou a sua mulher em pleno acto de traição.
 Entre várias corridas pela rua com o saco de lixo a fazer de camisola, um relacionamento complicado com o pai, várias promessas de procurar recuperar a confiança de Nikki e vários momentos constrangedores, percebemos que o personagem interpretado por Bradley Cooper está simplesmente arrasado a nível emocional. Quando recebe um convite para jantar a casa do seu amigo Ronnie e da esposa deste, Veronica (Julia Stilles), um casal amigo de Nikki, este pensa que é uma boa oportunidade para mostrar que está mentalmente estável e que estes podem contar isso à esposa. No entanto, o jantar revela-se um momento caricato, no qual Pat conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), a irmã de Veronica. Tiffany ficou recentemente viúva e desempregada, tendo vários distúrbios que a levam a não ter o melhor relacionamento com a família. A primeira conversa entre Tiffany e Pat é estranha, constrangedora, mas dá o mote para o que aí vem, ou seja, uma faísca que se acende, com os dois a serem explosivos, apresentando uma química notável. Depois do jantar, onde trocam um diálogo "romântico" sobre os anti-depressivos e calmantes que tomam, Pat leva Tiffany a casa. A partir daqui os dois começam a ver-se regularmente, ou melhor, Tiffany persegue Pat enquanto este pratica as suas habituais corridas para manter-se saudável, acabando por prometer ajudá-lo com Nikki, se este participar num concurso de dança ao seu lado.
 Estes dois personagens vulneráveis, quebrados pelas tragédias experienciadas no passado, são o motor da narrativa. É sobre estes dois que tudo se desenrola e acontece, enquanto David O. Russell pega na velha fórmula dos romances para desenvolver um filme recheado de romantismo, magnificamente executado, onde a excelente química entre a dupla de protagonistas surge acompanhado por uma boa história. Sejamos sinceros, a história da dupla de protagonistas vulneráveis que aos poucos supera as adversidades graças à companhia um do outro não é propriamente uma novidade, tal como a estrutura narrativa do filme não surpreende (a não ser que nunca tenha visto um romance). O que surpreende em "Silver Linings Playbook" é como esta "fórmula" das comédias românticas é utilizada na perfeição para dar ao espectador um espectáculo cinematográfico agradável, recheado de momentos ternos, românticos, sempre sem estupidificar o espectador, ao mesmo tempo que apresenta uma interessante construção dos personagens, que "exige" a nomeação de Bradley Cooper e Jennifer Lawrence para os Oscars.
 Bradley Cooper tem aquele que é muito provavelmente o melhor desempenho da sua carreira. Em "Limitless" surpreendeu pela positiva, na série "Alias" teve um papel secundário mas com alguma relevância, em "The Hangover" ganhou uma popularidade considerável e com "The Words" elevou o filme da mediania.  Pelo caminho esteve nos péssimos "Case 39" e "All About Steve", mas em "Silver Linings Playbook" surpreende pela intensidade e carisma que dá ao seu personagem e à química que tem com Jennifer Lawrence. Vulnerável, quebrado pelos acontecimentos passados, com uma personalidade complicada, o personagem de Cooper apresenta um conjunto de transformações que vão desde o espírito selvagem e incorrecto do início do filme, onde apresenta uma constrangedora e comovente obsessão pela mulher que o traíra, até encontrar Tiffany. A cena onde Pat e Tiffany conversam sobre os medicamentos que tomam, não só é relevadora da química brilhante entre os dois personagens, mas também do quão destruídos emocionalmente se encontram estes dois. Pat foi traído pela ex-mulher. Tiffany cometeu erros atrás de erros depois da morte do marido. Ambos estão um caco e encontram na estranha relação que mantêm a "cola invisível" que recupera as suas almas. A dinâmica entre os dois surge adensada não só pela boa interpretação de Bradley Cooper, mas também da da belíssima Jennifer Lawrence, que surge neste filme simplesmente fantástica. Deixando o físico da actriz de lado. Quando a encontramos na parte de fora de um café a fazer manguitos para o personagem de Cooper sabemos que esta não interpreta a angelical Katniss Everdeen, mas sim uma mulher aparentemente passada da cabeça, que contém muito mais no seu interior do que pode parecer. A relação destes personagens é fundamental, David O. Russell sabe disso, e constrói toda a adaptação cinematográfica do livro de Matthew Quick em volta destes dois. As acções de Pat e Tiffany afectam todos e acima de tudo a eles próprios, e diga-se que os actos cometidos por estes nem sempre são os mais adequados e previsíveis, com o argumento a explorar a dinâmica destes dois e como estes se relacionam com os diferentes personagens secundários.
 É exactamente na interacção dos protagonistas com os personagens secundários e na construção destes últimos que notamos a habilidade de David O. Russel em articular toda esta narrativa aparentemente simples numa obra cinematográfica acima da média, onde o amor pode surgir nos lugares mais profundos das almas feridas pelo destino. A importância aos personagens secundários surge visível sobretudo através da relevância que Robert De Niro (finalmente de regresso a um filme à altura do seu talento) tem na narrativa, como o pai do protagonista, um indivíduo fanático pelos Eagles, que ganha a vida a fazer apostas. Para além de De Niro, vários são os actores que têm a oportunidade de se destacar, tais como Jacki Weaver como a mãe de Pat, Chris Tucker (hilariante como um amigo de Pat que insiste em fugir do hospital para doentes mentais),  Anupam Kher como o médico de Pat, entre outros, que sobressaem graças ao argumento bem escrito de David O. Russell.
 Vale a pena recordar que o argumento de "Silver Linings Playbook" foi muitas das vezes ignorado ao longo das gravações, com David O. Russell a preferir deixar os seus actores improvisarem, darem tons próprios e naturais aos seus personagens, criando uma dinâmica que resulta de forma surpreendente, enquanto este mostra mais uma vez que as melhores surpresas surgem a partir de momentos simples. Simples é provavelmente um dos adjectivos que se pode aplicar a "Silver Linings Playbook", mas também magnificamente elaborado, chegando facilmente ao espectador, despertando sentimentos, num filme que mescla elementos de drama, romance e comédia de forma harmoniosa, tendo tudo para dispor bem o espectador e aquecer as suas almas nestes frios dias de Inverno.
 Inteligente, com humor afiado, composto por personagens bem construídos, "Silver Linings Playbook" apresenta uma estrutura aparentemente conservadora, típica de muitos romances, ou das chamadas "dramédias", para dar ao espectador um romance magnificamente elaborado, que provavelmente vai voltar a colocar David O. Russell na rota dos Oscars e dos vários prémios ligados à indústria cinematográfica. Os personagens do filme parecem adequar-se à altura do realizador. Com alguns percalços no caminho, David O. Russell parece ter encontrado em "The Fighter" o seu "guia", não para um final feliz, mas sim para uma carreira de sucesso, que tem em "Guia Para um Final Feliz" uma estupenda adição, que promete fazer esquecer de vez a novela em volta de "I Heart Huckabees". Em "Guia Para um Final Feliz" estamos perante um filme inteligente, que sabe de lidar de forma sensível e ao mesmo tempo afiada com temáticas tão díspares como  doenças mentais, depressões, a morte de um ente querido, infidelidade, vício do jogo, fanatismo desportivo, amor, problemas no casamento, tudo de forma homogénea, nunca perdendo a enorme humanidade das suas temáticas, sempre mantendo a narrativa no limbo do romance, drama e comédia, tanto capaz de causar o riso, como o constrangimento e até as lágrimas. Este limbo é visível na cena em que os personagens de Lawrence e Cooper conversam durante o jantar num café, no qual o ritmo da conversa deambula entre o dramático, o cómico, o romântico, o constrangedor e o terno, conseguindo despertar as mais diferentes sensações do espectador. Estas diferentes sensações, não são fruto do acaso. Russell joga com os elementos que tem à disposição, sendo capaz de conduzir os momentos com a devida mestria, mesmo em alguns momentos menos interessantes da obra (aquela fantochada a anteceder o jogo de futebol americano era dispensável), mantendo o espectador agarrado ao ecrã durante as suas curtas duas horas de duração, um período de tempo no qual nunca damos o nosso tempo por desperdiçado, no qual a vida de dois personagens por vezes parece tornar-se tão próxima das nossas. 
 Na citação colocada no topo desta longa crítica, encontramos duas frases proferidas pelos personagens de Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Esse trecho do diálogo resume muito do que estas duas figuras são no início do filme, ou seja, duas pessoas problemáticas, com problemas para se socializarem que falam muitas das vezes antes de pensarem. Cheios de erros, profundamente devastados, vulneráveis, Pat e Tiffany são dois exemplos de pessoas que aos poucos caíram num abismo e tardam em sair da onda de negativismo que contaminou as suas vidas, procurando a todo o custo descobrirem a utópica felicidade. Essa busca pela felicidade vem acompanhada por muitos contratempos, momentos tensos, alguns dramáticos, outros cómicos, enquanto dois personagens procuram sarar feridas abertas na alma e no coração, feridas que tardam em sarar, num filme surpreendente, onde Jennifer Lawrence e Bradley Cooper enchem o ecrã com uma química sensacional. "Guia Para um Final Feliz" pode ser um título enganador para o filme. Este não vai dar ao espectador um guia para a felicidade, mas sim mostrar como dois personagens procuram esse final feliz. Pelo caminho, acompanhamos esses personagens, descobrimos as suas incertezas, fragilidades, vulnerabilidades e apaixonamo-nos pelos mesmos. David O. Russell pode não dar um "Guia Para um Final Feliz", mas oferece um romance magnificamente elaborado onde duas almas destruídas pelo destino procuram ser felizes na altura mais improvável das suas vidas e apaixonar o espectador para o interior desta obra simples e apaixonante.

Classificação: 4 em 5 (ou ide ver sem qualquer reserva).
Título original: “Silver Linings Playbook”
Título em Portugal: “Guia Para um Final Feliz”.
Título no Brasil: “O Lado Bom da Vida”.
Realizador: David O. Russell.
Argumento: David O. Russell.
Elenco: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert DeNiro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Julia Stiles.

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