30 janeiro 2013

Resenha Crítica: "Lincoln"

"Lincoln" é um filme que claramente promete dizer mais ao público norte-americano do que aos restantes espectadores ao redor do Mundo. Apologia desta figura marcante da história dos Estados Unidos da América, "Lincoln" destaca-se por todo o cuidado colocado nos cenários e no guarda-roupa, que surgem acompanhadas por uma boa direcção de actores, um argumento elaborado de Tony Kushner, enquanto apresenta momentos marcantes dos últimos meses da vida de Abraham Lincoln, em particular, a procura em abolir a escravatura e a união de um país em conflito. Recheado de intrigas políticas e jogos de poder (no interior do "seu" Partido Republicano e com os Democratas), "Lincoln" desenrola-se em grande parte nos gabinetes, nas salas escuras onde decorrem as discussões políticas, quer da Casa Branca, quer do Congresso, que revelam o engenho de Abraham Lincoln em ultrapassar as adversidades, a sua habilidade diplomática e os seus ideais, enquanto procura fazer aprovar a décima terceira emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, acreditando que esta é essencial para conseguir alcançar a paz num país marcado pela Guerra da Secessão, num pastelão bem elaborado, que raramente consegue prender a nossa atenção. 
  Tudo parece estar no sítio. Óptima fotografia, o trabalho de Steven Spielberg na realização está bastante satisfatório, John Williams desenvolve uma banda sonora adequada, Daniel Day-Lewis tem mais um personagem marcante, o jogo de luz e sombras em momentos de maior reclusão do protagonista (sobretudo nas cenas de gabinete) ajuda a todo um impacto nos diálogos dos personagens, num filme bem estruturado, mas pouco entusiasmante, para não dizer, entediante. Entre longos discursos e comentários de Lincoln, povoados com algumas piadas e momentos que pouco acrescentam à narrativa, o filme procura nunca tocar em pontos que possam melindrar o público, apresentando uma história para "não causar dor" aos espectadores norte-americanos, cujo desfecho já conhecemos antes do filme começar.
  Com treze nomeações para os Oscars, "Lincoln" arrisca-se a arrebatar umas quantas estatuetas douradas, naquele que é o "mais americano" dos filmes em competição, ao procurar esmiuçar de forma apologética a história de uma figura icónica dos Estados Unidos da América. A justiça ou não das nomeações não será abordada nesta crítica, mas é de realçar a quantidade de gente talentosa que surge em grande nível. No elenco, Daniel Day-Lewis surge assombroso e imponente como Abraham Lincoln, não só pela sua postura física, mas também pela expressividade e voz (capaz de expressar todo o desgaste da guerra e dos vários conflitos políticos), sendo muito bem acompanhado por Sally Field como Mary Todd Lincoln, um Tommy Lee Jones a roubar as atenções como o anti-esclavagista e defensor da igualdade entre os seres humanos Thadeus Stevens, um republicano radical. Estes são vários dos nomes que sobressaem num filme que convida o espectador a entrar nos meandros da política norte-americana deste período, em particular no debate gerado pela tentativa de terminar com a escravatura, algo visto como inaceitável para alguns sectores democratas mais conservadores, e nos intrincados jogos efectuados para a aprovação da emenda.  
  Não deixa de ser curioso a forma como a escravatura surge abordada de forma tão dicotómica em relação a "Django Unchained" de Quentin Tarantino (e sim por aqui sabemos que o cinema não começou em Tarantino, mas o exemplo serve para comparar duas obras estreadas originalmente em 2012). Em "Lincoln", a escravatura é sugerida, mas raramente apresentada, enquanto em "Django Unchained" a escravatura e racismo foram representadas de forma violenta e desumana, não tendo um Abraham Lincoln arauto da liberdade dos escravos, mas sim um Calvin Candie pronto a criar os seus escravos na luta de mandingos. Não que a versão de Tarantino esteja historicamente correcta, mas a verdade é que "Lincoln" também não está e o primeiro consegue fazer uma crítica da escravatura que o filme de Spielberg nunca consegue. 
  Esse é um dos elementos chave para "Lincoln" nunca conseguir entusiasmar. Falta-lhe nervo, falta tentar problematizar um passado fervilhante dos Estados Unidos da América, falta sair mais dos gabinetes e das salas de estar (o conflito militar raramente surge representado), desenvolver mais a vida pessoal do protagonista (a relação com o filho mais velho nunca convence) e apresentar menos revisionismos históricos, num filme certinho, bem filmado, com um notável trabalho de fotografia (boa utilização do chiaroscuro), composto por guarda-roupas e cenários elaborados, mas que raramente tem a argúcia de problematizar a temática da escravatura e do personagem que aborda. Steven Spielberg realiza "Lincoln" como se estivesse a arrumar uma loja de porcelanas caras, procurando arrumar tudo cuidadosamente nos seus locais, sempre com receio de que algo saia do sítio e se possa partir, surgindo como o anti-Tarantino, algo que resulta numa biopic sensaborona, com bons diálogos, boas interpretações, mas com nada que entusiasme, que problematize, que arrisque a fazer partir uma porcelana. Em "Django Unchained", Tarantino resolveu pegar nas porcelanas caras dos tabus norte-americanos e partir tudo, não tendo problema em poder chocar e dividir opiniões, apresentando a escravatura como aquilo que ela era: desumana. Em “Lincoln”, Spielberg resolve dar um filme certinho e arrumadinho, que procura melindrar o menos possível, acabando apenas por causar indiferença.


Classificação: 3 em 5

Título original: “Lincoln”.
Realizador: Steven Spielberg.
Argumento: Tony Kushner.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Josep Gordon-Levitt, James Spader, David Strathairn, Hal Holbrook, Lee Pace.

Sem comentários: