08 janeiro 2013

Resenha Crítica: "Django Unchained"

- Django (Jamie Foxx): "Django. The D is silent".

  O D de Django pode ser silencioso, mas os tiros das suas balas são ruidosos e letais, prontos a causar a morte no opositor, enquanto procura recuperar a sua amada. Quentin Tarantino tem em "Django Unchained" a sua homenagem aos westerns spaghetti, atribuindo ao filme o seu estilo inconfundível, numa obra violenta, frenética, recheada de humor negro e anacronismos, onde o sangue jorra com a mesma facilidade com que é proferida a palavra "nigger". O uso e abuso da palavra "preto" ao longo do filme, bem como a forma como a escravatura e a tortura surgem representadas ao longo de "Django Unchained" têm levado a alguma comoção em alguns sectores da sociedade norte-americana, com nomes como Spike Lee a mostrarem-se adversos ao trabalho de Tarantino (apesar de ainda não o ter visto). Percebe-se toda essa "raiva" em volta de "Django Unchained".
 O filme sabe utilizar a história norte-americana e do cinema como poucos, subverte os seus mitos e ataca em todas as frentes, não faltando uma representação do ideal de pertença de terra associada à escravatura, ao racismo, à tortura, à violência, a actos desumanos, ao tráfico de seres humanos, com os estereótipos e o humor negro a servirem para uma crítica pungente, que solta gargalhadas com a mesma facilidade com que desperta consciências.
 Tarantino é inteligente quando subverte não só a história, mas o próprio género que homenageia, povoando o filme de anacronismos, de músicas que aparentemente não se encaixam mas adequam-se maravilhosamente, ao mesmo tempo que ataca alguns filmes de Hollywood, entre os quais "Birth of a Nation", na representação da entrada em cena do Ku Klux Klan. É verdade. Os membros deste grupo xenófobo podem aparecer inicialmente em todo o seu esplendor, com os planos a enquadrarem um possível momento épico, mas logo surgem ridicularizados pelo humor viperino de Quentin Tarantino, que submete estes ao ridículo de não se conseguirem coordenar devido aos buracos nos sacos que enfiam na cabeça não terem o espaço correcto para os olhos, enquanto dialogam de forma deliciosa nos preparativos para assassinar Django e Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Com um conhecimento notório do género cinematográfico que homenageia e da história norte-americana, Quentin Tarantino pretende subverter mitos antigos e brincar com assuntos sérios, algo que resulta numa crítica fortíssima ao passado norte-americano, onde não falta a representação da escravatura, uma sociedade marcada por uma forte segregação social, racismo (mesmo entre negros), crime e até lutas de escravos, com o cineasta a cumprir aquilo que prometeu em entrevista "to do movies that deal with America's horrible past with slavery and stuff but do them like spaghetti westerns, not like big issue movies".
 O escravo em grande destaque em "Django Unchained" é Django (voltamos a recordar que o D é silencioso), um indivíduo que se encontra no início do filme acorrentado a mais uns quantos negros que se preparam para serem negociados como se fossem gado, pelos irmãos Speck. Django foi vendido como escravo num leilão, tendo sido separado da sua esposa Bromihlda von Shaft (Kerry Washington). Estamos nos Estados Unidos da América, dois anos antes da Guerra Civil, algures no Texas. Quando o Dr. King Schultz surge no seu caminho, estaria longe de pensar que o seu quotidiano iria mudar tão rapidamente. Com uma voz aparentemente calma e suave, este alemão é um caçador de recompensas que procura a todo o custo encontrar os irmãos Brittle, um grupo criminoso procurado, que actua com nomes falsos, tendo uma facilidade enorme em agir devido a ninguém conhecer as suas faces, com excepção de... Django. Travado o conhecimento com Django, Schultz logo liberta o escravo e assassina um dos irmãos Speck e parte em busca do trio de criminosos. Pelo caminho estes ainda passam por uma cidade, apanham um criminoso que foi eleito xerife (a lei a ser gozada por Tarantino, com um criminoso a estar num lugar de poder) e logo traçam o plano para capturar os Brittle, enquanto Schultz promete ajudar Django a recuperar Bromihlda, que se encontra como escrava na Candyland, a propriedade do esclavagista extravagante Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).
 Depois de realizar "Inglorious Basterds", Quentin Tarantino decidiu realizar "Django Libertado", uma obra que pretende abordar um passado mais negro dos Estados Unidos da América, através de um western spaghetti "à Tarantino". Porquê este género de filmes? Porque Tarantino é fã e apeteceu-lhe. Basicamente por estas duas razões. Mais do que pensar nas bilheteiras, Tarantino faz filmes que gosta, pensando sempre naquilo que quer e gostava de ver. Assim foi com "Kill Bill", com "Inglorious Basterds" e agora com "Django Unchained", entre outros filmes da sua carreira. Para desenvolver "Django Libertado", Tarantino tira inspiração dos westerns spaghettis, em particular de "Django", de Sergio Corbucci, contando com a participação especial do protagonista desse filme, Franco Nero, uma presença em jeito de homenagem, enquanto o cineasta desenvolve uma obra recheada de falas afiadas, magníficos arcos narrativos, um "bromance" carismático entre os personagens de Christoph Waltz e Jamie Foxx, uma fotografia magnífica, num filme que se afasta do género que homenageia e transforma-se num "western à Tarantino".
 O velho oeste apresentado não é aquele que estamos habituados a ver em westerns "clássicos", surgindo sempre recheado de anacronismos e de uma violência muito elevada. A violência que paira pelo ar é brutal, surgindo acompanhada por diálogos bem escritos (e muitas das vezes corrosivos), com Tarantino a respeitar muitas das vezes a estrutura do "blá, blá, blá" e posterior tiroteio desenfreado. Se a violência e as cenas de acção surgem soberbas, os diálogos proferidos pelos actores ainda as superam mais, com Christoph Waltz e Jamie Foxx a apresentarem uma dinâmica soberba e Leonardo DiCaprio a surgir intenso e extravagante como o antagonista, Calvin Candie.
 Christoph Waltz é um dos pontos altos do filme, ao interpretar um alemão bem diferente do seu Hans Landa. Longe de ser um nazi sanguinário, Waltz surge como King Schultz, um dentista convertido em caçador de recompensas cujas falas em tom suave são dicotómicas da ferocidade dos tiros da sua pistola. Este apresenta uma dinâmica muito interessante com Jamie Foxx, com o arco narrativo dos dois antes de chegarem a Candyland a apresentar todos os pontos fortes do filme: bons diálogos, humor, acção, violência e muito sarcasmo. Foxx surge como Django, o personagem do título, um indivíduo que procura recuperar a sua amada e aos poucos envolve-se numa jornada violenta, onde a morte e o sangue parecem estar sempre presentes. Foxx aparece intenso e carismático como Django, um escravo marcado pelas cicatrizes dos chicoteamentos e pelos acontecimentos que marcaram o seu passado, um negro que tem a oportunidade de ser livre ao lado de um caçador de recompensas. Se Schultz é um anti-escalavagista assumido (embora, segundo este, se aproveite um pouco da situação de Django), o mesmo não se pode dizer de Calvin Candie, o personagem interpretado por DiCaprio. Aqueles que pediam que Leonardo DiCaprio interpretasse algo de diferente, têm em "Django Unchained" a oportunidade de ver o actor como um antagonista odioso, que olha para os negros como animais domesticados, um vilão com roupas aparentemente refinadas e uma personalidade vingativa, que promete chocar de frente com Schultz e Django. Tarantino não se limita a dar atenção a este trio. Cria um universo de personagens secundários interessantes, onde não falta um Samuel L. Jackson como um negro racista contra os "niggers", um Tarantino como um criminoso pouco inteligente, uma Kerry Washington como uma bela escrava negra com nome alemão, um Walter Goggins sempre sinistro como um esclavagista ao serviço de Candie, entre outros, que ajudam a narrativa a manter o fôlego, mesmo nos momentos em que a história parece descarrilar perante a paixão do seu criador em relação à sua criação.
 Consta que foram cortadas cerca de três horas de filmagens para "Django Unchained" poder ter os 165 minutos de duração que apresenta. Contas feitas, nota-se este zelo de Tarantino pelo seu material ao conceder-lhe "dois finais", ambos de grande intensidade, mas que tiram o peso ao último terço de uma obra que até então tinha sido pura e simplesmente brilhante. Comparar "Django Unchained" a um western spaghetti ou até a "Django" é deveras complicado. Tarantino utiliza a sua visão em relação ao género para fazer um filme seu, mantendo elementos de "Django", tais como o tema musical e a violência, embora o célebre caixão que acompanha o protagonista na obra de Corbucci não esteja presente no filme. Os anacronismos em relação ao tempo representado e as distâncias em relação ao western spaghetti surgem um pouco à imagem que "Django Unchained" procura manter da realidade.
 Os anacronismos históricos são muitos. Desde a presença do Ku Klux Klan (apenas foi fundado após a Guerra Civil), quer pelos diálogos, apesar de notar-se todo um cuidado na representação do território sulista, em particular o Texas (um dos "estados vermelhos" contemporâneos, ou se preferirem, o eleitorado de George W. Bush), onde as poucas pessoas com algum bom senso parecem ser um dentista alemão, um escravo negro liberto e pouco mais. Muitos são os que têm reclamado pela utilização do termo "nigger", mas poucos procuram compreender o contexto da utilização, surgindo como um estereótipo que procura criticar uma parte da história dos Estados Unidos da América que grande parte dos habitantes deste país pretendem varrer para debaixo do tapete e que Tarantino traz ao de cima em todo o seu esplendor, com muita acção, diálogos afiados e muito gore, onde a luta entre o bem (Schultz e Django) e mal (Stephen e Candie) surgem através das figuras pouco comuns e extraordinariamente interessantes.
 Se não gosta do estilo de Quentin Tarantino, o mais provável é que "Django Unchained" não o surpreenda pela positiva. Se gosta do estilo do cineasta, o mais provável é que se deixe conquistar por esta obra, onde Quentin Tarantino mostra não só saber imenso de cinema (quer da sua história, quer como colocar em prática), mas também a forma em como deve utilizar os elementos da história americana, os seus actores, a sua banda-sonora, onde tudo parece culminar numa obra que prova uma maior maturidade do realizador. Em "Inglorious Basterds", tínhamos um certo sentimento de vingança dos judeus em relação aos nazis. Em "Django Unchained", o cineasta pega no tema da vingança para colocar um ex-escravo a ter a oportunidade de vingar-se dos esclavagistas, uma temática sensível, que crítica não só uma parte da história americana, mas todo o negócio de tráfico de seres humanos ao longo da história. Este tema, no entanto, é apenas uma das muitas temáticas abordadas ao longo do filme, com Tarantino a atirar com vários e diferentes personagens (algo que explica o longo elenco do filme), mas sempre mantendo o foco na história de Django.
 Tyler Chase, do site Paste Magazine, salienta que "The best thing about Quentin Tarantino is also the worst thing about Quentin Tarantino—he believes, wholeheartedly, in whatever he’s doing". Essa afirmação adequa-se paradigmaticamente ao cineasta. Só um cineasta com a confiança de Quentin Tarantino poderia pegar num género que gosta, utilizar vários dos seus elementos, uns reverencialmente, outros para desconstruí-los, juntá-los com um estilo próprio, adequá-los à história norte-americana, apresentar a narrativa com os seus diálogos afiados, violência brutal, banhos de sangue, humor negro e personagens habilmente construídos, resultando numa obra marcante, que estará provavelmente na lista das melhores obras do cineasta. Com um belíssimo trabalho de fotografia (que aproveita os cenários), um guarda-roupa extravagante e adequado aos cenários e personagens (os óculos de Sol "à Charles Bronson em 'The White Heat'), a imagem com defeitos propositados para dar um tom de filme antigo que ficou vários anos perdido pelos cofres, "Django Unchained" surge cheio de estilo, onde uma magnífica história surge acompanhada por uma banda sonora soberba, que adensa todo o clima deste filme que surge marcado pela genialidade do seu realizador.
 Quentin Tarantino tem uma paixão única pelo cinema. Faz aquilo que gostava de ver nas salas de cinema, procura manter o seu estilo próprio, transporta para o ecrã a sua energia e talento. "Django Unchained" é o exemplo paradigmático do génio de Quentin Tarantino, um filme soberbo, cheio de falas afiadas, violência, humor negro, acção, boas interpretações e muita genialidade. Assim vale a pena ir ao cinema. 

 Classificação: 4.5 em 5.

Título original: “Django Unchained”.
Título em Portugal: “Django Libertado”.
Título no Brasil: “Django Livre”.
Realizador: Quentin Tarantino.
Argumento: Quentin Tarantino.
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Michael Parks, Quentin Tarantino, Jonah Hill.

1 comentário:

Sam disse...

Esta crítica mereceu destaque na rubrica «A “Polémica” do Mês» do Keyzer Soze’s Place, disponível aqui: http://sozekeyser.blogspot.pt/2013/01/a-polemica-do-mes-19.html

Cumps cinéfilos.