25 janeiro 2013

Resenha Crítica: "Barbara"

 A escolha do título "Barbara" para o novo filme do cineasta alemão Christian Petzold não poderia ter sido mais feliz. É sobre esta personagem que se desenvolve grande parte da narrativa, é o seu quotidiano que acompanhamos desde que esta foi transferida para um pequeno hospital na província, longe de tudo e de todos aqueles que conhece, como represália por ter pedido para sair da República Democrática da Alemanha. A narrativa desenrola-se durante o Verão de 1980, a queda do Muro de Berlim ainda levaria nove anos a acontecer, pelo que ainda encontramos um território alemão muito marcado pela divisão entre a RFA e a RDA (estamos durante a Guerra Fria), enquanto Barbara vive quotidianamente entre a sua casa, o trabalho e os encontros esporádicos com Jörg, o seu namorado do Ocidente, que está a planear a fuga dela. Interpretada por Nina Hoss, uma presença habitual nos filmes de Petzold, Barbara surge como uma mulher aparentemente fria e frágil, sendo praticamente desprendida do cenário que a rodeia, com excepção dos seus doentes, em particular Stella, uma rapariga que se encontra a padecer de meningite. No hospital, Barbara trabalha sob a supervisão de André Reiser, um indivíduo que esconde alguns segredos, cujas intenções para com a protagonista nem sempre são claras, colaborando com as Stasi, em particular Klaus Schütz, um oficial que regularmente manda vasculhar a casa e o corpo da protagonista, um elemento que ajuda a adensar o clima de suspeição que rodeia a vida da protagonista e daqueles que a rodeiam.
 Proposta da Alemanha para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, "Barbara" pode causar alguma estranheza por parte do espectador devido ao desprendimento da protagonista em relação a quase tudo o que rodeia a sua nova realidade. Austera de sentimentos, Barbara não é a típica protagonista pela qual sentimos a maior das simpatias e que prenda o público. Esta é uma mulher aparentemente fria, que procura fugir da sua nova realidade, numa Alemanha dividida, que surge representada com grande contenção e beleza, onde o despojo de adereço e de sentimentos surgem associados a uma opressão que mina todos os que habitam neste território representado com grande competência por Christian Petzold. Cineasta com um currículo sólido, Petzold traça um retrato delicado sobre este "Mundo oprimido" da RDA, no qual os sentimentos dos personagens surgem contidos, os cenários despojados de adereço (as estradas de terra, as casas libertas de decoração), a repressão ao livre arbítrio é notório, num filme que tem uma mensagem claramente política, onde o passado recente da Alemanha dividida é apresentado de forma crua, através do quotidiano de uma mulher.
 "Barbara" convida-nos a entrar na vida da personagem do título, uma mulher aparentemente fria, que vê os seus sonhos serem dinamitados pela realidade política e social da RDA, uma personagem particular utilizada para exemplificar uma estrutura global, que tem em Nina Hoss uma intérprete de enorme valia, que incute uma enorme frieza, fragilidade e determinação à sua personagem. Na sua quinta colaboração com o cineasta Christoph Petzold, Hoss mostra mais uma vez porque é uma "actriz fetiche" do cineasta, interpretando uma personagem aparentemente alheia a tudo aquilo que a rodeia (veja-se a sua análise pragmática ao quadro de Rembrandt), enquanto a câmara de filmar acompanha o seu quotidiano e expõe pedaços da história e sociedade da RDA. Um território onde a liberdade de acção e sentimentos não existe, o controlo dos elementos da Stasi é notório, todos os que se aproximam da protagonista são de desconfiar e a sua fuga parece improvável, enquanto deambula com a sua bicicleta entre a casa e o trabalho, num movimento pendular que parece representar a sua vida sem aparente saída. Estas deambulações de bicicleta surgem adensadas pelo bom trabalho de fotografia, capaz de exacerbar os cenários envolventes, cuja beleza natural contrasta com o clima de suspeição que rodeia este filme belissimamente filmado, que promete não gerar indiferença.
 Planos longos, um ritmo aparentemente lento, despojamento de sentimentos e adereços, "Barbara" engana-nos com a aparente lentidão da narrativa, criando um sublime clima de paranóia e intrigas, no qual a protagonista se encontra envolvida. Uma paranóia associada ao período histórico representado, com Christian Petzold a desenvolver um drama complexo que se intrinca no passado recente da Alemanha, uma representação bem elaborada, que surge acompanhada por um argumento bem escrito, um bom trabalho de fotografia e uma Nina Hoss com mais uma excelente interpretação. Ver um filme alemão a estrear em circuito comercial nas salas de cinema nacionais é uma raridade, sendo o país germânico muitas das vezes referido em Portugal não pelo seu cinema, mas sim pela influência da senhora Merkel. "Barbara" prova que estamos a perder algumas boas obras de cinema alemão e que poderíamos apostar numa troca. A influência de Merkel poderia ficar pela Alemanha, enquanto o bom cinema do seu país pode ser exportado para Portugal. Os cinéfilos agradecem.


Classificação: 4 em 5.

Título original: "Barbara".
Realizador: Christian Petzold.
Argumento: Christian Petzold e Harun Farocki.
Elenco: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Mark Waschke, Rainer Bock, Christina Hecke.

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