19 novembro 2012

Resenha Crítica: "Operação Outono"

  “General Sem Medo”, “General Coca-Cola”, “General Dinamite”, vários foram os epítetos atribuídos ao General Humberto Delgado, um homem que um dia ousou desafiar António de Oliveira Salazar e aquecer as almas revolucionárias no aparentemente adormecido Portugal do final da década de 50. Esta ousadia, rara de se ver durante o Estado Novo, levou a que Humberto Delgado tenha sido perseguido pela PIDE-DGS e eliminado por alguns dos seus elementos, uma cruel operação que é retratada em "Operação Outono", o mais recente filme do cineasta Bruno de Almeida. 
 Entre Portugal, Argélia, Espanha, Itália, Marrocos, "Operação Outono" acompanha a intrincada operação desenvolvida pela PIDE, tendo como protagonistas Rosa Casaco (Carlos Santos), Casimiro Monteiro (Pedro Efe), Ernesto Lopes (Nuno Lopes) e Agostinho Tienza (Marcello Urgeghe), quatro homens de campo que preparam uma emboscada ao General Humberto Delgado, o indivíduo que um dia ousou em pleno Café Nicola dizer que demitia Salazar, enquanto concorria contra Américo Tomás. Enquanto Delgado procura a todo o custo iniciar uma revolta que derrube o Regime de Salazar, o quarteto da PIDE consegue armar uma emboscada ao General em Badajoz, forjando identidades falsas de forma a que esta carismática figura pensasse que estes elementos eram militares revoltosos prontos a oferecer os seus serviços. O que se segue é sobejamente conhecido, a operação é uma trapalhada total, Humberto Delgado e a sua secretária são assassinados, mas o fogo revolucionário em Portugal não acalma, algo visível quando a 24 de Abril de 1974 o Regime é derrubado e vários dos seus elementos são julgados, entre os quais, os responsáveis pelo assassinato de Humberto Delgado, algo representado de forma bastante sintética por "Operação Outono", um thriller político cheio de ritmo, que dramatiza a operação que resultou no assassinato de uma das figuras mais apaixonantes da História Contemporânea portuguesa.
 Entre a Operação Outono que coincidiu com a morte de Humberto Delgado, a procura do "General Sem Medo" em desenvolver uma revolução e o julgamento dos implicados no Tribunal de Santa Clara após o 25 de Abril de 1974, "Operação Outono" concentra todas as suas atenções neste macabro e caricato assassinato de um homem que incendiou o país de esperança durante as eleições de 1958 e sofreu as consequências de ter ousado desafiar Salazar. Embora falhe em conseguir contextualizar toda a problemática política e social que envolve a figura de Humberto Delgado (o "terramoto" Delgado que agitou a sociedade portuguesa) e a sua importância para a história deste período, "Operação Outono" revela-se um thriller político emotivo, cheio de ritmo, que procura não tomar partido de um personagem em particular, dramatizando um capítulo negro da história nacional.
 Acompanhado por um trabalho de fotografia simples e eficaz, uma banda sonora que se adequa a todo o clima tenso da narrativa e interpretações de bom nível de vários elementos do elenco, "Operação Outono" tem o seu maior calcanhar de Aquiles na escolha de John Ventimiglia como Humberto Delgado, com a voz dobrada por Rogério Samora, algo que aliena por completo o espectador das cenas quando percebe que a sincronia entre a voz e os lábios do actor falha em largos momentos, algo de inadmissível para uma produção cinematográfica profissional. Não teríamos actores nacionais capazes de interpretar o personagem? Pelos vistos parece que não, e o resultado apenas não se torna mais desastroso devido ao personagem ser eliminado pouco tempo depois (diga-se, sem nunca estar devidamente desenvolvido), numa escolha a nível de elenco a fazer lembrar "Capitães de Abril".
 Se o desenvolvimento dos personagens e a escolha de John Ventimiglia não são os pontos fortes da narrativa, o mesmo não se pode dizer dos elementos de tensão criados em volta de toda a operação que conduziu ao assassinato do General e dos vários momentos emotivos e caricatos em volta do julgamento dos elementos da PIDE envolvidos neste casos, sobressaindo a interpretação de nomes como Nuno Lopes, Marcello Urgeghe (extraordinário como Tienza), Carlos Santos (como o tenebroso Rosa Casaco), nomes com provas dadas, que evidenciam o talento acima da média do elenco.
 Filmado em 16mm e sem uma estética aprumada, de forma a evidenciar o clima de época, "Operação Outono" destaca-se ainda pela procura de Bruno de Almeida em não atribuir um tom maniqueísta à obra cinematográfica, procurando não tomar partido por qualquer dos lados em evidência na narrativa, focando-se sempre no desenvolvimento da Operação Outono e as ramificações que este episódio teve para os perpetradores do crime, para a família de Delgado e para o Regime, tudo com uma enorme simplicidade, com Bruno de Almeida a parecer levar à letra as palavras do personagem interpretado por Ventimiglia e ser um "homem de acção", que não se perde com adereços e vai directo ao que interessa, diga-se que em demasia.
 Essa forma directa, demasiado concisa de "Operação Outono" apresentar os acontecimentos conduz a que raramente seja capaz de demonstrar a importância de Humberto Delgado e o seu significado para a história contemporânea portuguesa, toda a sua capacidade de galvanizar uma oposição até então fracturada, criando na campanha para as eleições de 58 uma dinâmica vertiginosa, com multiplicações de comícios, manifestações, escaramuças com a polícia política, existia toda uma noção de que a oposição se estava a unir para uma causa comum. Nada disso é expresso no filme. Delgado surge quase sempre representado de forma muito superficial em relação a toda a riqueza da sua vida, surgindo com uma figura revolucionária, de acção, mas que nunca atinge a representação da enormidade dos feitos desenvolvidos pelo "General Sem Medo". O filme procura concentrar as atenções em toda a operação que desembocou ao seu assassinato, dando especial importância aos julgamentos do período após o 25 de Abril de 1974, evidenciando a forma caricata como a justiça funciona(va) na altura.
"Operação Outono" concentra as suas atenções na dramatização da intrincada operação que conduziu ao assassinato do General Humberto Delgado e as consequências desse nefasto episódio, revelando-se um thriller simples e eficaz, que se destaca pela sua dinâmica narrativa e pela procura de dar a conhecer a operação que culminou na morte de uma das figuras mais apaixonantes da história contemporânea portuguesa. 

Classificação: 2.5 (em 5)

Título: “Operação Outono”.
Realizador: Bruno de Almeida.
Argumento: Bruno de Almeida, Frederico Delgado Rosa e John Frey.
Elenco: John Ventimiglia, Marcello Urgeghe, Renata Batista, João d`Ávila, Nuno Lopes, Carlos Santos, Pedro Efe, Carlos Paulo, Júlio Cardoso, Diogo Dória, Luís Lima Barreto, Adriano Carvalho, José Nascimento, Ana Padrão, Cleia Almeida, Carla Chambel, Camané.

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