22 novembro 2012

Resenha Crítica: "Only Angels Have Wings"

Bonnie Lee: “They must love it. Flying, I mean”.

 Os pilotos que trabalham na cidade portuária sul americana de Barranca certamente devem amar a sua profissão e pilotar os aviões, o que pode explicar e muito as razões de continuarem com afinco a desempenhar funções na companhia de correio aéreo de "Dutchy" Van Reiter (Sig Ruman) em “Only Angels Have Wings”, uma das obras-primas de Howard Hawks, um filme intenso que retrata de forma dramática e profundamente humana o quotidiano de um grupo de homens que arriscam as suas vidas para transportar a correspondência a tempo e horas de Barranca para outros locais e vice-versa.
  A rotina destes homens é simples. Esteja chuva ou Sol, estes têm de entregar a correspondência; umas vezes são bem sucedidos, outras nem por isso, mas o pior é quando tristes acidentes ceifam-lhes a vida numa rotina que pode parecer inicialmente entusiasmante mas na maior parte das vezes revela-se penosa, algo demonstrado pelas palavras de Van Reiter: “I can't go on killing nice kids like that. Not if I lose a dozen shirts”. Gerida pelo piloto Geoff Carter (Cary Grant), esta companhia conta com um grande companheirismo e ligação entre os vários elementos, uma espécie de fraternidade masculina que tem em comum o amor pela aviação e pelo emprego que têm, apesar dos vários perigos que correm no cumprimento da actividade laboral. É no meio deste ambiente dominado por homens que surge Bonnie Lee (Jean Arthur), uma tocadora de piano recentemente chegada a Barranca que cedo se insere nesta fraternidade entre os homens e desperta variadas paixões, apesar de não gerar a maior das simpatias em Carter, uma relação problemática que aos poucos se desenvolve em algo mais do que respeito mutuo.
  Drama intenso sobre um conjunto de aviadores que arrisca as suas vidas para enviar a correspondência, “Only Angels Have Wings” é uma obra-prima de Howard Hawks, um cineasta versátil com um currículo de valor reconhecido onde constam obras como “Scarface”, “To Have and Have Not”, “The Big Sleep”, “His Girl Friday”, “Rio Bravo”, entre outras obras inesquecíveis. Em “Only Angels Have Wings”, é possível verificar alguns dos traços dos filmes do autor, capaz de apresentar um estilo muito particular independentemente dos diferentes géneros cinematográficos, onde não faltam personagens profundamente humanos, uma narrativa capaz de prender a atenção do espectador (Hawks é um exímio “contador de histórias”), os fortes laços de amizade criado entre os homens, uma espécie de ligação entre pai e filho do protagonista com uma figura masculina mais velha, a célebre mulher hawksiana, entre vários outros elementos.
  Esta mulher associada aos filmes de Howard Hawks surge através de Bonnie Lee, a personagem interpretada por Jean Arthur. Bonnie é o paradigma do conceito de mulher que surge associada às obras de Hawks, uma mulher com uma personalidade forte, que consegue integrar-se num grupo maioritariamente masculino e inserir-se no seu interior, sempre sem perder o seu lado mais feminino, a sua delicadeza, as suas características muito próprias. Interpretada de forma bem conseguida por Jean Arthur, uma actriz que dispensa apresentações, Bonnie forma com o personagem de Cary Grant um par “não romântico” durante grande parte do filme, e enquanto o segundo procura a todo o custo fugir a qualquer ligação afectiva, a primeira sente-se atraída por este estranho espírito inquieto que tem na adrenalina dos ares a sua grande paixão.
  Geoff não só gere a empresa de aviação, mas também lidera informalmente o grupo masculino que trabalha na mesma e encontra-se no bar em tempos de descanso. Este grupo rege-se por ideais e regras muito próprias, um grupo codificado por um código de honra na profissão, na vida e na conduta que desempenham, um conjunto de estoicos homens que enfrenta a morte no dia-a-dia e têm no convívio diário um meio de escapismo à triste realidade que podem encontrar. Quem quebra as regras nesta profissão é visto com desprezo e excluído do grupo, isso é visível em Bat MacPherson (Richard Barthelmess), um indivíduo que no passado cometeu um erro grave que viola o código de conduta destes homens. É no interior deste grupo algo machista, onde as mulheres parecem não ter lugar, que se integra Bonny Lee, uma mulher forte e ao mesmo tempo frágil, que se consegue inserir na perfeição no grupo, ao contrário das restantes mulheres apresentadas ao longo do filme, que parecem quase sempre estar à parte da realidade do grupo, surgindo nos seus quartos, nos bares, mas nunca como elementos capazes de enfrentarem e desafiarem os indivíduos. Exemplo paradigmático disso é Judy MacPherson, a mulher de Bat, interpretada pela belíssima e talentosa Rita Hayworth (quase a chegar ao seu período mais áureo), uma personagem que partilha um passado com o protagonista, mas parece estar quase sempre à parte do grupo, servindo sobretudo para incutir alguma intensidade dramática à narrativa em torno do personagem de Barthelmess e para mostrar um lado mais sensível de Geoff Carter.
  Se Bonny Lee partilha algumas das características das mulheres hawksianas, o grupo masculino que trabalha na companhia forma um colectivo unido e com regras muito próprias de alguns dos filmes do autor. Ainda no contexto das relações de fraternidade que podemos encontrar nas obras de Hawks, importa salientar a relação entre Geoff e 'Kid' Dabb, uma espécie de relação entre pai e filho, onde o primeiro sentia a necessidade de proteger o segundo, algo que pode facilmente ser comparado à relação entre os personagens de Humphrey Bogart e Walter Brennan em “To Have and Have Not”, entre outros filmes realizados por Hawks. Se esta temática da fraternidade masculina, da relação entre pai/filho ou irmão mais velho/irmão mais novo, bem como a guerra entre os sexos aparece em várias das obras de Hawks, muitas das vezes separadamente, no caso de “Only Angels Have Wings”, estas características surgem unificadas e revelam a capacidade de Hawks desenvolver de forma única estas temáticas.
  Dramático, intenso, por vezes romântico, “Only Angels Have Wings” também é um filme sobre reencontros e acontecimentos improváveis, desde Bat MacPherson com a honra que fora manchada por um erro do passado, de 'Kid' Dabb com os seus fantasmas interiores, de Geoff Carter e Bonnie Lee com o amor, entre Judy MacPherson com um amor do passado, entre Cary Grant e Howard Hawks, ou seja, é uma obra onde a temática do reencontro atravessa não só a narrativa, mas também os seus bastidores, naquela que marca a segunda colaboração entre Grant e Hawks, dois grandes nomes de Hollywood que colaboraram em filmes como “Bringing Up Baby”, “His Girl Friday”, “I Was a Male War Bride”, “Monkey Business”, uma relação profícua e recheada de êxitos.
  Howard Hawks tem em “Only Angels Have Wings” uma das obras mais felizes da sua carreira, um melodrama intenso, apaixonante, onde o romance e o humor não são deixados de lado, enquanto as cenas dos aviões conseguem ser entusiasmantes apesar dos efeitos especiais poderem parecer algo datados nos dias de hoje, embora na época do lançamento do filme estes tenham sido notáveis, proporcionando alguns momentos emotivos. Para além de realizar, Hawks ainda escreveu a história “Plane Four from Barranca”, que deu origem ao argumento escrito por Jules Furthman, uma dupla que mais tarde viria a colaborar em filmes como “To Have and Have Not” e “The Big Sleep”, com bastante sucesso, duas obras que partilham muitas das características de “Only Angels Have Wings”.
 O título brasileiro de “Only Angels Have Wings” é “Paraíso Infernal”, uma escolha algo acertada e que reflecte paradigmaticamente este microcosmos criado por Howard Hawks ao longo da narrativa, onde os personagens vivem numa espécie de Éden, onde convivem de forma amena, mas logo se perdem pelas névoas que cobrem o local. A morte é parte do quotidiano destes pilotos, um quotidiano do qual estes estoicos personagens procuram fugir através do convívio diário, das conversas, dos copos, do tabaco, da música, tudo parece servir de escapismo para poder tentar esquecer aqueles que partiram e aos quais um dia se poderão inadvertidamente juntar. Entre drama, romance, acção, algum humor, “Only Angels Have Wings” revela-se um melodrama intenso, que arrebata o espectador para o interior de um espectáculo cinematográfico inesquecível, onde Howard Hawks mostra a sua qualidade exímia como contador de histórias.

Classificação: 5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Only Angels Have Wings”.
Título em Portugal:
Título no Brasil: “Paraíso Infernal”.Realizador: Howard Hawks.
Guião: Jules Furthman.
Elenco: Cary Grant, Jean Arthur, Rita Hayworth, Richard Barthelmess, Thomas Mitchell, Allyn Joslyn, Don 'Red' Barry.

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