23 novembro 2012

Resenha Crítica: "Lumumba"

 “Lumumba”, de Raoul Peck, procura apresentar ao espectador Patrice Émery Lumumba, um líder anti-colonial que lutou pela independência do Congo Belga e acabou por tornar-se no primeiro-ministro eleito em Junho de 1960 na actual República Democrática do Congo. O que poderia parecer um início de um novo caminho para esta nação, logo se tornou num pesadelo: dez semanas após a eleição, Lumumba foi deposto juntamente com o seu governo num golpe de estado, tendo sido aprisionado e posteriormente assassinado em Janeiro de 1961.
 Alicerçado num argumento inspirado em factos históricos, Raoul Peck procura apresentar aos espectadores uma interpretação sua dos acontecimentos, conseguindo tornar interessante um conjunto de episódios que fazem parte do conhecimento geral e são amplamente conhecidos, num filme que consegue prender o espectador ao desenrolar dos acontecimentos.
Sem embrenhar-se por toda a vida de Patrice Lumumba, Peck procura concentrar-se na ascensão e queda de Lumumba na vida política do Congo Belga, desde o período em que este chegou à capital, Léopoldville (hoje Kinshasa), como um empregado dos correios, que acaba a vender cervejas até aos poucos ganhar influência na luta pela independência e transformar-se no líder do Mouvement National Congolais (MNC). A narrativa embrenha-se nestes jogos políticos intrincados, onde Lumumba procura assegurar a independência da Bélgica, ao mesmo tempo que tem de lidar com as adversidades externas e internas. Se internamente Lumumba encontrou a desconfiança dos militares e do povo que ainda tinha frescos na memória os vários anos de jugo colonialista, a nível externo teve de lidar com o contexto da Guerra Fria, onde Estados Unidos da América e União Soviética procuravam estabelecer zonas de influência política nos territórios africanos.
 Patrice Lumumba é uma figura por vezes esquecida da história, mas que teve uma importância fulcral num período específico da história da República Democrática do Congo. Esta figura apaixonante, recheada de virtudes e defeitos, tem em “Lumumba” de Gregory Peck um filme que consegue fazer-lhe justiça, numa rara obra cinematográfica que dá voz aos líderes dos movimentos nacionalistas africanos, apresentando um momento delicado da história deste país africano, que se procurava libertar do jugo belga, após vários anos a serem considerados e tratados como uma colónia, algo que é retratado logo nas fotografias do genérico inicial.
 Ao colocar o foco da narrativa na ascensão e queda política de Lumumba, Gregory Peck procura não só mostrar o esforço envolvido por este líder de um movimento de libertação para conseguir a independência do seu país e a liberdade do seu povo, mas também todo o intrincado jogo diplomático que envolve a ascensão e queda de Lumumba, onde não falta a presença Norte-Americana e Soviética a pairarem, ou não estivéssemos em plena Guerra Fria, algo que é conseguido de forma paradigmática. No entanto, este foco num período específico da vida de Lumumba acaba por nem sempre funcionar da melhor forma para a narrativa, com o argumento de Pascal Bonitzer e Raoul Peck a deixar de lado vários elementos importantes para o espectador ter a noção da conjuntura que levou Lumumba a tornar-se num líder revolucionário, desenvolvendo pouco os personagens que estão à sua volta, bem como parte do contexto internacional que os rodeia, algo que é impossível de fazer em cerca de uma hora e quarenta minutos, fruto da obra original ter sido amplamente comercial de forma a reduzir a sua duração (tinha cerca de três horas).
 O facto do foco da narrativa estar quase sempre em Lumumba leva a que o talento de Eriq Ebouaney, um actor com um currículo relativamente interessante, tenha neste líder de um movimento politizado um dos personagens da sua vida, conseguindo imprimir uma aura carismática ao seu personagem, sendo visível todo o sentimento que este coloca nos discursos do mesmo, no seu olhar, nos próprios movimentos, sendo uma agradável surpresa no papel, tal como Alex Descas surpreende como Joseph-Desiré Mobutu, o futuro líder (ditador) da República Democrática do Congo nesta época um militar, que aos poucos ganha relevância graças à influência norte-americana. Descas está impressionante como Mobutu, sobretudo na transformação que imprime ao personagem no último terço da obra cinematográfica, conseguindo emular a aura sinistra que rodeava este indivíduo, que contou com o apoio dos Estados Unidos da América para ascender ao poder. A obra tem ainda este condão de tocar num ponto negro da história norte-americana, a desastrosa diplomacia efectuada neste país, onde em plena Guerra Fria apoiou um ditador anti-comunista para evitar ver no poder um líder (não oficialmente) ligado ao comunismo, ou seja, promovem um assassinato e ainda apoiam um líder que veio a provar-se um genocida, algo que explica o facto da obra ter sido parcialmente censurada aquando da exibição na HBO.
 Se é verdade que o argumento não consegue abordar alguns elementos fulcrais para uma melhor percepção do intrincado contexto nacional e internacional que engloba os acontecimentos do filme, nem por isso é um dos pontos fracos da obra cinematográfica, conseguindo evidenciar os problemas encontrados por Lumumba na chegada ao poder, tendo ainda em Raoul Peck um realizador adequado e empenhado em realizar uma obra dinâmica e que fizesse justiça a Patrice Lumumba. Esta não é a primeira obra cinematográfica que Peck dedica a Lumumba, pois em 1992 o cineasta realizou “Lumumba: La mort du prophète, um documentário que abordava parte dos acontecimentos que constam no filme, com alguns dos elementos das duas obras a tocarem-se, algo que é notório até pela estrutura do filme, muitas das vezes com um tom próximo do documental.
 Embora em algumas das vezes os factos históricos nem sempre pareçam ser completamente respeitados, com o filme algumas das vezes a cair numa apologia de Patrice Lumumba, expurgando-o de defeitos e exacerbando-o de virtudes, nem por isso deixa de ser um filme que arrebata o espectador para o interior de um doloroso episódio da história da actual República Democrática do Congo, onde muitos erraram, poucos acertaram e muitos sofreram. É curioso verificar como o filme não se limita a mostrar o lado “negro” do tratamento da política belga, mas aborda também alguns erros da parte do Congo, demonstrando um pouco algo que é mais profundo e resulta numa problemática mais lata que conduziu o território ao abismo.
Aliado ao bom trabalho do realizador e dos argumentistas, temos ainda um notável trabalho do director de fotografia Bernard Lutic, com algumas das imagens a aparecerem recheadas de sentimento e sentido, e a banda sonora composta por Jean-Claude Petit, que evoca as sonoridades da região, conseguindo adequar-se aos vários momentos da obra cinematográfica sobre este líder revolucionário.
 Existe um fascínio pelos heróis que lutam pela liberdade, independência, pelo cumprimento dos seus ideais. No grande ecrã são vários os filmes onde estas figuras históricas ganham voz. Patrice Émery Lumumba é uma dessas figuras. Embora nem tudo o que surge no grande ecrã deva ser considerado como facto histórico, a verdade é que “Lumumba” evidencia paradigmaticamente a luta deste homem pela independência, numa época em que os movimentos de libertação estavam mais activos do que nunca em África e clamavam pela independência dos seus povos. Acompanhado por uma interpretação notável de Eriq Ebounay, “Lumumba” revela-se um filme informativo que tem o mérito de procurar fazer justiça a um símbolo da liberdade da República Democrática do Congo, uma obra onde o sonho americano embateu de frente com a liberdade dos povos.

Classificação: 3.5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Lumumba”
Realizador: Raoul Peck.
Guião: Pascal Bonitzer, Dan Edelstein, Raoul Peck.
Elenco: Eriq Ebouaney, Alex Descas, Théophile Sowié, Maka Kotto, Dieudonné Kabongo, Pascal N'Zonzi, Makena Diop, Rudi Delhem.

2 comentários:

O Narrador Subjectivo disse...

Parece o Jamie Foxx no poster. Quanto ao filme, é sobre uma figura muito interessante, não conhecia mas fiquei muito interessado. Abraço

Aníbal Santiago disse...

Apresenta algumas semelhanças com o protagonista. O filme é bastante interessante, embora não consiga retratar todo o contexto envolvente (as cenas cortadas provavelmente poderiam permitir um maior contexto). Vale a pena ver.

Obrigado pelo comentário,
Abraço