02 novembro 2012

Resenha Crítica: "Les Yeux Sans Visage"

 Perturbador, inquietante, incomodativo, “Les Yeux Sans Visage” remete para um negro conto de fadas onde um médico (Pierre Brasseur) perturbado procura a todo o custo recuperar o rosto de Christiane Génessier (Edith Scob), a sua filha, após esta última ter ficado desfigurada num acidente de viação. Um acidente que a priva do seu rosto, de uma vida em sociedade, de se olhar para o espelho, sobretudo após o seu pai ter assassinado uma jovem e ter sugerido que esta era a sua filha, algo que leva a que Christiane seja dada como morta.
 Assassinar jovens para retirar a pele do seu rosto para colocar no rosto da sua filha, experiências em animais, mortes, sombras, escuridão, tudo é macabro e distorcido em “Les Yeus Sans Visage”, uma obra onde um médico louco, perturbado, nihilista, procura fazer de tudo para recuperar a face da sua filha, mesmo que para isso tenha de sacrificar inúmeras vidas, tal como fizera para recuperar o rosto de Louise (Alida Valli), a sua fiel assistente.
  A fazer recordar a realidade distorcida e o jogo de luzes e sombras (chiaroscuro) das obras do chamado expressionismo alemão e com algumas semelhanças aos filmes de terror clássicos da Universal, “Les Yeux Sans Visage” é um pequeno pedaço de poesia macabra, um conjunto de imagens em movimento que aterrorizam e incomodam, uma obra onde as sombras dominam as luzes, onde os sentimentos surgem escondidos no interior de uma máscara, ao mesmo tempo que Georges Franju revela ser um artesão talentoso capaz de tecer uma obra aterrorizadora, inquietante, belissimamente filmada.
  Nome de especial importância para o cinema francês, ou não tivesse fundado a Cinemateca Francesa ao lado de Henri Langlois, Georges Franju conheceu alguma resistência por parte da crítica em relação a “Les Yeux Sans Visage”, em grande parte, devido a este filme destoar com os vários documentários que até então Franju tinha vindo a realizar. Os anos passaram e fizeram justiça. Baseado na obra literária de Jean Redon, “Les Yeux Sans Visage” é tudo menos uma obra menor do cinema de terror, mas sim uma obra-prima que inspirou vários cineastas, uma obra que mescla arte com terror, uma atmosfera próxima de um pesadelo, uma profusão de sons advindos da hipnotizante banda sonora que transportam o espectador para o interior deste pesadelo macabro.
  Belissimamente filmado, com uma banda sonora adequada a todo o clima aterrorizador da narrativa, “Les Yeux Sans Visage” conta ainda com uma magnífica interpretação de Edith Scob, uma actriz que raramente mostra o seu rosto, encontrando-se durante quase todo o filme com uma máscara a cobrir a sua face, mas que consegue exprimir todos os seus sentimentos reprimidos através do seu olhar, sentimentos escondidos, prontos a libertarem-se, seja através de um novo rosto, da morte, do destino, uma interpretação que apenas encontra igual em Pierre Brasseur como um cientista louco.
  O tempo, força inexorável que é incapaz de ser controlada, levou a que “Les Yeux Sans Visage” tenha conhecido alguma justiça por parte do público e da crítica, após ter sido inicialmente recebido de forma algo fria em 1960. Com o tempo, essa frieza ganhou estatuto de culto e os méritos deste belo e inquietante pedaço de cinema de terror foram reconhecidos e exaltados, méritos que se traduzem numa obra com uma narrativa bem construída, boas interpretações, momentos de pura tensão e inquietação, ao mesmo tempo que uma mulher que tem nos seus olhos o único meio de ligação com o seu rosto de outrora, um rosto que procura voltar a recuperar.
  Georges Franju tem em “Les Yeux Sans Visage” uma obra incomodativa, assustadora, inquietante, um conto de fadas negro que está destinado à tragédia, um conto inesquecível que tarda em sair da memória do espectador.

Classificação: 4 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: “Les Yeux Sans Visage”.
Título em Portugal: “Les Yeux Sans Visage”.
Título no Brasil: “Os Olhos Sem Rosto”.
Realizador: Georges Franju.
Guião: Pierre Boileau, Claude Sautet, Pierre Gascar, Jean Redon.
Elenco: Pierre Brasseur, Alida Valli, Juliette Mayniel, Edith Scob, François Guérin, Alexandre Rignault, Béatrice Altariba.

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