Um balão vermelho baila pelo
território de Paris, circula as suas ruas, os seus locais mais
desertos, as suas zonas mais povoadas, movimenta-se ao sabor do
vento, à luz do Sol ou da Lua, qual imaginação de uma criança, em
"Le Voyage du Ballon Rouge", o primeiro filme realizado por
Hou Hsiao-hsien em França. Longe de Taiwan e da China, territórios
primordiais das obras cinematográficas de Hou Hsiao-hsien, "Le
Voyage du Ballon Rouge" acompanha a história de Suzanne
(Juliette Binoche), uma marionetista que desempenha com grande
empenho a sua profissão, enquanto procura cuidar do seu filho, Simon
(Simon Iteanu), e espera que a sua filha regresse de Bruxelas, onde
se encontra a viver com o pai, após o divórcio do casal.
Consumida pela falta de tempo provocada pelo facto de ter de preparar
um novo espectáculo de marionetas, onde dá voz às mesmas, Suzanne decide
contratar Fang
Song (Song), uma jovem estudante de cinema, para tomar
conta do seu filho. Enquanto Suzanne procura enfrentar os desafios
profissionais e pessoais que vão sendo colocados no seu caminho, entre
os quais com Marc, o seu inquilino com a renda em atraso, Song e Simon
partilham momentos em comum. Esta passeia com o jovem enquanto filma a
sua curta, tendo como um dos elementos primordiais o balão vermelho com
este a espaços a acompanhar o quotidiano dos personagens,
um objecto que segue ao sabor do vento, tal como nos deixamos aos
poucos levar por esta obra, na qual o fluir do tempo passa pelos
personagens e pelos cenários e proporciona uma experiência
cinematográfica hipnotizante. Fora das temáticas de Taiwan e da China, Hou
Hsiao-hsien tem em "Le Voyage du Ballon Rouge" uma prova do
seu engenho na arte da realização cinematográfica,
ao conseguir inserir na obra toda uma sensibilidade muito
própria, adaptando-a aos territórios parisienses, ao incutir uma
dimensão do real que contrasta com todo o simbolismo do sonho que
surge associado ao balão vermelho. Entre a atmosfera sonhadora proporcionada pelo balão que paira pelos personagens
e a realidade da vida desencantada destes elementos, a câmara de filmar acompanha
os cenários parisienses, em simultâneo com o espaço fechado da casa da
protagonista, exacerbados pelo trabalho de fotografia de Mark Lee, numa obra belissimamente filmada,
na qual Hou Hsiao-hsien
se mantém fiel ao seu
estilo dos planos longos, ao mesmo
tempo que apresenta uma história pontuada por acontecimentos simples
e quotidianos, onde nada parece acontecer e ao mesmo tempo tanto está
a acontecer.
Sem uma história intrincada, "La Voyage du Ballon Rouge" procura acompanhar o quotidiano de uma família disfuncional (mãe solteira/pai ausente), de uma mãe solteira que procura criar o seu filho, embora cada vez tenha menos tempo para isso, ao mesmo tempo que apresenta a relação da ama e do jovem Simon, enquanto aos poucos percebemos que Hou Hsiao-hsien volta a recorrer ao seu estilo frequente de utilizar os fenómenos particulares para abordar temáticas mais latas. Veja-se que não falta a mãe solteira que procura cuidar do seu filho (embora não tenha tempo para este), o stress diário do trabalho, a necessidade cada vez mais constante de contratar pessoas estranhas para tomar conta dos filhos, as peculiaridades dos cenários que albergam os personagens, a relação entre a criança e ama enquanto esta filma uma curta-metragem, entre outras temáticas, que surgem filmadas de forma sublime. Temos ainda a presença de uma interessante relação dos personagens com a imagem, não faltando Song a filmar, mas também a presença dos vídeos filmados em super 8 por Suzanne, mas também as fotos tiradas por esta ao filho, notando-se uma certa reverência de Hou Hsiao-hsien para com as imagens em movimento e a fotografia. Não deixa de ser curioso como a desorganização da casa da protagonista é completamente dicotómica da organização das obras de Hou Hsiao-hsien, algo que fica visível em "Le Voyage du Ballon Rouge", uma obra que este desenvolveu em homenagem à curta-metragem de Albert Lamorisse, intitulada "Le Ballon Rouge", na qual é visível toda uma preocupação em aproximar a obra do real, em criar situações verosímeis com a realidade, enquanto o balão vermelho sobrevoa a realidade e alarga a imaginação da narrativa. Desenvolvido a convite de Musée D'Orsay de Paris, "Le Voyage du Ballon Rouge" é muito mais do que uma homenagem à curta-metragem de Albert Lamorisse, é uma ode ao cinema e a tudo aquilo que este representa, numa obra onde a aparente distância entre os personagens e a câmara é ilusória, com as imagens em movimento a transmitirem sensações tão quentes como as tonalidades vermelhas do balão voador. A beleza estética das suas obras, sobretudo a partir do início da colaboração com o director de fotografia Mark Lee, são uma das imagens de marca das obras de Hou Hsiao-hsien, e em "Le Voyage du Ballon Rouge" isso é algo que fica bem representado. Desde a sincronia da cor vermelha do balão que voa e aquece a imaginação dos personagens e dos espectadores, passando pelas vestes vermelhas da personagem de Binoche e as cortinas encarnadas da sua casa, uma cor quente e ardente, que contrasta com os sentimentos esbatidos pelos personagens, algo representado pela luz difusa que permeia a casa da protagonista e é revelador do cuidado colocado na elaboração das imagens em movimento.
As imagens são trabalhadas, mas também os cenários envolventes, aproveitados ao serviço da narrativa, não faltando ainda a espaço a presença dos comboios, a fazer recordar as obras de Yasujiro Ozu. Este é outro dos aspectos muito interessantes de verificar na obra, a forma como os cenários interiores e exteriores são explorados, a forma como estes interagem com o comportamento dos seus personagens, enquanto Hou Hsiao-hsien povoa a narrativa de pequenos elementos da sua cultura, onde não falta o teatro de marionetas, a cineasta chinesa que procura elaborar a sua curta, toda uma sensibilidade muito própria que faz este seu trabalho ser uma experiência cinematográfica singular. Acompanhado por uma banda sonora adequada, o filme é preenchido por um conjunto de interpretações bem conseguidas, destacando-se o nome de Juliette Binoche, como a protagonista desta obra aparente simples mas que muito tem para nos dar, onde uma mulher procura ser bem sucedida em várias vertentes da sua vida pessoal, mas acaba quase sempre por manter uma relação de afastamento com todos os que lhe são próximos, ao mesmo tempo que é abordada a relação entre a criança e a sua ama. Simon é um dos muitos jovens que passa pouco tempo com os pais, embora seja notório que goste da sua mãe, sendo fã de jogos de pinball, tendo aulas de piano, acabando por ser o protagonista da curta da sua ama e formando com esta laços de proximidade ao longo do filme. Nome de especial importância no cinema de Taiwan, nomeadamente, na chamada "Nova Vaga" do Cinema de Taiwan (não confundir com Tailândia), Hou Hsiao-hsien é um caso peculiar no qual o seu reconhecimento junto da crítica, cineastas, festivais é dicotómico com a sua relação com o grande público. "Le Voyage du Ballon Rouge" coloca-o pela primeira vez na Europa, num filme protagonizado por um nome sonante do cinema francês contemporâneo, mas o que sobressai ao longo da obra é a manutenção do estilo e sensibilidade própria dos filmes do cineasta, uma sensibilidade que permite transformar a visualização das obras de Hou Hsiao-hsien em momentos muito próprios, que apelam aos nossos sentidos, sentimentos, um mundo à parte que é sempre um prazer revisitar. Longe de Taiwan, próximo do seu estilo de filmar, Hou Hsiao-hsien tem o condão de transformar momentos aparentemente simples em situações de grande significado e beleza, nas quais experienciamos momentos únicos, sejam as suas histórias em Taiwan, na China e até em Paris, a cidade luz que ganha um brilho reluzente em "Le Voyage du Ballon Rouge".
Sem uma história intrincada, "La Voyage du Ballon Rouge" procura acompanhar o quotidiano de uma família disfuncional (mãe solteira/pai ausente), de uma mãe solteira que procura criar o seu filho, embora cada vez tenha menos tempo para isso, ao mesmo tempo que apresenta a relação da ama e do jovem Simon, enquanto aos poucos percebemos que Hou Hsiao-hsien volta a recorrer ao seu estilo frequente de utilizar os fenómenos particulares para abordar temáticas mais latas. Veja-se que não falta a mãe solteira que procura cuidar do seu filho (embora não tenha tempo para este), o stress diário do trabalho, a necessidade cada vez mais constante de contratar pessoas estranhas para tomar conta dos filhos, as peculiaridades dos cenários que albergam os personagens, a relação entre a criança e ama enquanto esta filma uma curta-metragem, entre outras temáticas, que surgem filmadas de forma sublime. Temos ainda a presença de uma interessante relação dos personagens com a imagem, não faltando Song a filmar, mas também a presença dos vídeos filmados em super 8 por Suzanne, mas também as fotos tiradas por esta ao filho, notando-se uma certa reverência de Hou Hsiao-hsien para com as imagens em movimento e a fotografia. Não deixa de ser curioso como a desorganização da casa da protagonista é completamente dicotómica da organização das obras de Hou Hsiao-hsien, algo que fica visível em "Le Voyage du Ballon Rouge", uma obra que este desenvolveu em homenagem à curta-metragem de Albert Lamorisse, intitulada "Le Ballon Rouge", na qual é visível toda uma preocupação em aproximar a obra do real, em criar situações verosímeis com a realidade, enquanto o balão vermelho sobrevoa a realidade e alarga a imaginação da narrativa. Desenvolvido a convite de Musée D'Orsay de Paris, "Le Voyage du Ballon Rouge" é muito mais do que uma homenagem à curta-metragem de Albert Lamorisse, é uma ode ao cinema e a tudo aquilo que este representa, numa obra onde a aparente distância entre os personagens e a câmara é ilusória, com as imagens em movimento a transmitirem sensações tão quentes como as tonalidades vermelhas do balão voador. A beleza estética das suas obras, sobretudo a partir do início da colaboração com o director de fotografia Mark Lee, são uma das imagens de marca das obras de Hou Hsiao-hsien, e em "Le Voyage du Ballon Rouge" isso é algo que fica bem representado. Desde a sincronia da cor vermelha do balão que voa e aquece a imaginação dos personagens e dos espectadores, passando pelas vestes vermelhas da personagem de Binoche e as cortinas encarnadas da sua casa, uma cor quente e ardente, que contrasta com os sentimentos esbatidos pelos personagens, algo representado pela luz difusa que permeia a casa da protagonista e é revelador do cuidado colocado na elaboração das imagens em movimento.
As imagens são trabalhadas, mas também os cenários envolventes, aproveitados ao serviço da narrativa, não faltando ainda a espaço a presença dos comboios, a fazer recordar as obras de Yasujiro Ozu. Este é outro dos aspectos muito interessantes de verificar na obra, a forma como os cenários interiores e exteriores são explorados, a forma como estes interagem com o comportamento dos seus personagens, enquanto Hou Hsiao-hsien povoa a narrativa de pequenos elementos da sua cultura, onde não falta o teatro de marionetas, a cineasta chinesa que procura elaborar a sua curta, toda uma sensibilidade muito própria que faz este seu trabalho ser uma experiência cinematográfica singular. Acompanhado por uma banda sonora adequada, o filme é preenchido por um conjunto de interpretações bem conseguidas, destacando-se o nome de Juliette Binoche, como a protagonista desta obra aparente simples mas que muito tem para nos dar, onde uma mulher procura ser bem sucedida em várias vertentes da sua vida pessoal, mas acaba quase sempre por manter uma relação de afastamento com todos os que lhe são próximos, ao mesmo tempo que é abordada a relação entre a criança e a sua ama. Simon é um dos muitos jovens que passa pouco tempo com os pais, embora seja notório que goste da sua mãe, sendo fã de jogos de pinball, tendo aulas de piano, acabando por ser o protagonista da curta da sua ama e formando com esta laços de proximidade ao longo do filme. Nome de especial importância no cinema de Taiwan, nomeadamente, na chamada "Nova Vaga" do Cinema de Taiwan (não confundir com Tailândia), Hou Hsiao-hsien é um caso peculiar no qual o seu reconhecimento junto da crítica, cineastas, festivais é dicotómico com a sua relação com o grande público. "Le Voyage du Ballon Rouge" coloca-o pela primeira vez na Europa, num filme protagonizado por um nome sonante do cinema francês contemporâneo, mas o que sobressai ao longo da obra é a manutenção do estilo e sensibilidade própria dos filmes do cineasta, uma sensibilidade que permite transformar a visualização das obras de Hou Hsiao-hsien em momentos muito próprios, que apelam aos nossos sentidos, sentimentos, um mundo à parte que é sempre um prazer revisitar. Longe de Taiwan, próximo do seu estilo de filmar, Hou Hsiao-hsien tem o condão de transformar momentos aparentemente simples em situações de grande significado e beleza, nas quais experienciamos momentos únicos, sejam as suas histórias em Taiwan, na China e até em Paris, a cidade luz que ganha um brilho reluzente em "Le Voyage du Ballon Rouge".
Classificação: 4 (em 5)
Título
original: “La Voyage du Ballon Rouge”.
Título
em Português: Hou Hsiao-hsien.
Argumento:
Hou Hsiao-hsien e François Margolin.
Elenco:
Juliette Binoche, Simon Iteanu, Song Fang, Hippolyte Girardot, Louise
Margolin, Anna Sigalevitch.

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