22 novembro 2012

Resenha Crítica: "La Chispa de la Vida"

  Entre o drama e a sátira, entre o humor negro e a crítica social, "La Chispa de la Vida" apresenta-nos a história de Roberto (José Mota), um publicitário desempregado que se encontra desesperado por não conseguir encontrar emprego. Com uma renda para pagar, este vive ao lado da sua mulher (Salma Hayek) e dos dois filhos, o gótico Lorenzo (Eduardo Casanova) e a estudiosa Bárbara (Nerea Camacho). A última esperança de Roberto, ainda conhecido pelo slogan "La Chispa de La Vida" que criou para a Coca-Cola, é que Javier Gándara (Joaquín Climent), o seu antigo chefe e suposto amigo, consiga arranjar-lhe um novo emprego. No entanto, Javier cedo recusa o desejo de Roberto, que fica num estado lastimável por ter de voltar a casa com a notícia de que voltou a não conseguir um trabalho. Sem saída possível, o protagonista decide gozar uma segunda lua-de-mel com a esposa no mesmo hotel de Cartagena, no qual passaram a noite de núpcias. Para espanto de Roberto, no lugar do hotel está um museu, tendo à sua volta um teatro Romano, que logo despertam a sua curiosidade. Costuma-se dizer que a curiosidade matou o gato e Roberto bem que podia ter isso em atenção, sobretudo quando um acidente leva a que este fique com uma barra de metal cravada na cabeça, algo que o deixa entre a vida e a morte. Sem poder sair do local, rapidamente os media, a população local e os governantes se acercam do Teatro Romano, enquanto a esposa desespera por ver o marido entre a vida e a morte. 
 Perante esta situação, Roberto decide utilizar a sua possível morte para lucrar com uma entrevista exclusiva e poder dar uma situação estável à sua família, enquanto a mulher procura a todo o custo evidenciar que a sua vida é mais importante e Juan Gutierrez revela o lado mais negro dos media ao procurar lucrar ao máximo com uma vida humana prestes a desaparecer. Enquanto os media rejubilam com toda esta aparatosa situação que faz disparar as audiências, o cineasta espanhol Álex de la Iglésia desenvolve uma obra recheada de humor negro, drama e uma forte crítica social, na qual o desemprego, o lado mais negro do capitalismo e o desespero causado por esta situação parecem estar sempre presentes. 
 A crítica à sociedade espanhola contemporânea é algo que sobressai ao longo de "La Chispa de la Vida". Com algum humor negro e contundência, Álex de la Iglésia efectua uma crítica à situação periclitante na qual se encontram milhares de pessoas desempregadas (a situação espanhola encontra muitos paralelos com a portuguesa), através de um conjunto de episódios apresentados num tom que deambula entre o caricatural e o profundamente humano. Quem está ou já esteve desempregado, certamente já se deparou com entrevistas caricatas, com a amarga e humilhante situação de ter de regressar a casa e dizer que continua sem encontrar emprego, sem conseguir sustentar-se e isso surge representado no quotidiano de Roberto, até o protagonista ter o acidente que o transforma numa figura pública instantânea. Exemplo paradigmático de toda a humilhante situação encontrada por Roberto no desemprego é o ambiente encontrado na empresa à qual o protagonista se candidata, um ambiente que evidencia toda esta sátira social corrosiva encontrada ao longo do filme. O protagonista sabe que é competente nas funções para as quais se candidata, mas por outro lado depara-se com um número considerável de pessoas à espera de entrevista e funcionários a divertirem-se durante o horário de trabalho, nas funções que este gostaria de cumprir, um entrevistador pouco preocupado no desempenho que o protagonista tivera nas anteriores experiências profissionais, algo que transforma este escritório num universo à parte mas ao mesmo tempo tão real, no qual a caricatura por vezes peca por escassa. Este tom satírico apresentado pelo filme ao longo de vários dos episódios protagonizados por Roberto consegue distanciar a obra cinematográfica do drama excessivo vivido pelos personagens e tirar alguns risos do público, enquanto a narrativa adensa a sátira à sociedade contemporânea, aos media e ao público em geral, que entram em êxtase por poderem ver a morte em directo, com o argumento a usar e abusar no tom caricatural para representar estas situações. 
 Apesar de exagerar no humor negro, nos personagens estereotipados e nas situações caricatas em relação ao acidente de Roberto, Álex de la Iglésia consegue mesclar de forma bastante interessante a crítica a uma sociedade dominada pelo desemprego, ao comportamento dos media e ao público que alimenta o sensacionalismo, bem como à classe política e aos bancos, com um drama familiar por vezes comovente e vários momentos de humor nos momentos mais inesperados. É exactamente por jogar com o inesperado e por nos dar um murro no estômago quando menos esperamos que "La Chispa de la Vida" nos surpreende, bem como pelos desempenhos de José Mota (não confundir com o treinador de futebol) e Salma Hayek (num papel onde as emoções são mais exacerbadas que o seu corpo).
José Mota é o elemento fundamental para a toda a narrativa funcionar, ou não fosse em volta do seu personagem que toda a narrativa se desenrola, uma figura que facilmente cria empatia com o espectador, mesmo quando procura a todo o custo aproveitar-se da sua morte para ganhar dinheiro. Diga-se que esta iniciativa para alimentar o circo dos média e para lucrar com a situação surge sempre tomada a pensar naqueles que ficam no mundo terreno, enquanto este espera por um destino bem mais nefasto, numa narrativa a parecer tirar inspiração na obra "Ace in the Hole", de Billy Wilder, na qual tínhamos um jornalista a querer aproveitar-se da situação de um indivíduo preso numa cave. Em "La Chispa de la Vida", temos os dois lados da mesma moeda, com os jornalistas a querem lucrar com a situação, bem como o protagonista. Se José Mota tem um desempenho bem interessante como o protagonista, o mesmo se pode dizer de Salma Hayek como a mulher de Roberto, uma personagem que começa gradativamente a ganhar maior relevância, enquanto a actriz apresenta um desempenho comovente e surpreendente, confirmando mais uma vez o seu talento, que tanto é capaz de interpretar uma mulher fatal como a seguir interpretar uma empenhada mulher de família. 
 "La Chispa de la Vida" não prima pela originalidade e exagera por vezes no tom sardónico, perdendo-se muitas das vezes em excessos para Álex de la Iglésia procurar expor a sua mensagem, mas consegue compensar vários desses problemas com a contundente crítica social que efectua e com os bons desempenhos de José Mota e Salma Hayek, ao mesmo tempo que o espectador se depara com o melhor e o pior da humanidade numa narrativa surpreendentemente cativante. Entre os personagens sedentos de sangue e morte, os personagens delicados que têm na esperança a sua "chispa de la vida", humor negro, drama e alguns momentos comoventes, o novo trabalho de Álex de la Iglésia efectua uma sátira a vários problemas da nossa sociedade, numa obra irregular que brinda o espectador com um José Mota e uma Salma Hayek em grande nível. 

Classificação: 3 (em 5)

Título: "La Chispa de la Vida".
Realizador: Álex de la Iglesia
Argumento: Randy Feldman
Elenco: José Mota, Salma Hayek, Blanca Portillo, Juan Luis Galiardo, Fernando Tejero, Antonio Garrido, Manuel Tallafé, Santiago Segura, Carolina Bang, Juanjo Puigcorbé, Antonio de la Torre, Joaquín Climent, José Manuel Cervino, Eduardo Casanova, Nerea Camacho, Nacho Vigalondo.

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